quarta-feira, junho 28

Sem Esperança de Te Rever

Selaste meus olhos com os lábios

Deixei, assim não poder ver nada

Para sentir tua respiração perto

Sei que podias me sentir também

Embora não soubesse nada de ti

Saibas, não, eu nunca quis saber

Não me importava posso te jurar

Dançamos, rimos, voamos juntos

E nos abraços, nos fizemos amor

Rimos de tudo, do mundo lá fora

Se choramos juntos, valeu a pena

E agora que tudo já está acabado

Só restaram umas belas memórias

E hoje que você se foi, já não sei

E nem posso dizer como eu sinto

Nu da esperança de te ver d’novo

Porque eu sei que jamais te verei

Depois que descobri te conheço

Não posso dizer que me importo

sábado, junho 24

Vitrais

Ah, eu queria impedir a aparição de tua figura

Fechar com cadeados a tua lembrança em mim

Silenciar o teu perfume nesta teia tão confusa

Nutrir o olvido c'as exuberantes imagens tuas

Fingir que, de repente, não me roubas o fôlego

Que os teus olhos tão mansos quão profundos

Já não me fitam de soslaio, quando me distraio

Teu corpo nu, demasiado meu, tão vertiginoso

Que, por decoro não revelo, tanto me inundou

Felina, doce e incontrolável ignorando as portas

Que eu punha para negar a nossa cumplicidade

Disso tudo, agora me sinto incapaz de esquecer

Ao invés, faço, à maneira de um eco, é ressoar

Eu te multiplico, reinvento em tantos espelhos

E já que estou como um louco, que fosse feliz

Na sonoridade de tua lembrança que me toma

Dourada, marcante, por vezes, serena e ligeira

Por vezes com a profundidade de um lamento

Noutras desesperada e violenta qual o silêncio

Mas sei que falharão as tentativas silenciar-te

Pois não há como calar algo da história de nós

Que vive a buscar mais, mas jamais incompleta

E o tanto que já te quis, derramei neste poema

Onde eternamente bailará tua luz intrometida

Através dos vitrais dessa minha eterna solidão

terça-feira, junho 20

Retalhos

Há alguns dias que a inspiração se escondeu

Nesse tempo rapinado de cotidianidade nua

Nestes tempos que meus pássaros agonizam

São-me tempos em que amordaçam os anjos

A morosidade abrumada, tempos tão iguais

Renego-me a mera condição de espectador

Solto amarras vibro música, pintura, poesia

Resisto, me ergo, experimento abrir as asas

Rebelo-me aos anjos, pois que tenho a alma

Ainda que não faça da noite uma alvorada

Não me afogo com essa sede de horizontes

Essa sede de chuva em tempos de desertos

No exílio do orvalho, no alarido dos órfãos

Na sede uivante, desaguada que nos cerca

Renasço a poesia, sôpro do recreio infinito

Por libertar-me os pássaros de um desterro

O seu folguedo de asas, imaginação insone

Tece alinhavos de voo, aventura de cristal