sexta-feira, julho 17

A Teoria Infundada das Almas Gêmeas

 

Caminho só pelas ruas e pensamentos me aturdem

Sobre mim, um céu acinzentado de nuvens escuras

Caminhar assim me aguça memórias mais distantes

Descubro que nem bem recordo como te conheci

Chego a preferir pensar te conhecer desde sempre

Como se fizesses parte do âmago desta minha vida

A mente racional repugna a ideia, forço a memória

Mas ser quem tu és, tão homogênea nos meus dias

Chego a criar a tese que foste criada só para mim

Mas te revelaste na noite do céu azul mais profundo

Sob mil estrelas em minha tresloucada imaginação

Atrevo-me a arriscar descobrir outras lembranças

Logo me surgem teus olhos, tais esmeraldas verdes

Que me fitavam quando te tocava e fazíamos amor

Senti um calafrio como entrasse n’outra dimensão

Nem sei como aceito tais imagens tão vivas em mim

A dor que sinto faz tão difícil equilibrar a respiração

Posto que sei que nada disso reside no mundo real

O contra-argumento de toda essa tese é que foste

E não mais voltaste, gravando em negro meu existir

Mas eu sigo aqui na noite e tento me asilar da dor

Imaginando que numa esquina o tempo volte atrás

E uma luz se irradie, mostrando o sorriso que via

Quando o mundo sabia amanhecer ao fim do amor

O Poema é Eterno, a Vida Efêmera

 

Sigo por este mundo

Não sei quando parto

Navego realidades

Navego por sonhos

Tudo inspira meu poema

Nascer e morrer

Não é fácil entender

Nascimento e morte

São a mesma realidade

A arte é viver bem

Pois a morte é certa

Não há um destino

Tudo são escolhas

Ao final nada se leva

Dos bens materiais

Dor e feridas são do corpo

Também aqui ficarão

Posições e influências

Breve serão esquecidas

Só a arte e os poemas

Sobreviverão gerações

Não apego a ser poeta

Mas ao espírito do poema

Esse imortal e eterno

 

quinta-feira, julho 16

O Sonho, o Voo e a Poesia

 

Não vim para escrever sobre um pássaro em seu voo

Nem sequer sobre esse voo e nem sobre esse pássaro

Vim escrever sobre o vento que passa na imaginação

Que vence a gravidade, que me leva entre as nuvens

Escrever como me sinto, um hino às memórias do voo

O voo do poeta se dá nas estradas douradas do sonho

Sábio é o vento que não guarda memórias do caminho

Que só existe quando passa e em passando é realidade

Colérica ou gentil. Ventar é uma das castas do sonho

E nem se pergunte se voar é dom ou vem do incógnito

De uma vasta superfície ornada de ondulantes trigais

Sábio é o vento, pois reside no domínio da sabedoria

Sem julgamento, sem nada além de alçar o voo maior

De ordenar palavras tão simples e delas fazer poesia

Admirar qual criança, da areia da praia, a linguagem

Ver da praia um horizonte detrás de ondas cristalinas

O mar coalhado de invisíveis peixes de letras e sílabas

Que banha uma infinitude de sons chamada pronúncia

Escrever é qual fingir-se Deus, vida e morte na poesia