Quando as
palavras cotidianas de tornarem ininteligíveis
E a mesa onde
se deita o pão, não seja mais mesa ou pão
Umas bocas prepotentes, roubam o significado do
simples
Como água e
janela, quando a chuva bate tenaz à janela
Tempos modernos
e certas palavras não podem ser ditas
Por mais que a
foto estampe o fato, notório, inconteste
Não diga “belo índio”, pois disseram que é depreciativo
É indígena. Pois então indígena filho da puta, isso pode
O amigo, que nem sabe onde é a África, afrodescendente
Não, as palavras não são feias, feia é a intenção ao usá-las
Dirão que certas palavras são para serem posta no armário
Não nos diálogos, nestes, há que escolher, mas não ideias
Quando as velhas árvores em que brincávamos no passado
Não forem senão uma lembrança, os apelidos que dávamos
Aos amigos virarão crimes irreais, uma mentira
inventada
Bulling: um estrangeirismo, pomposo, feito só para regrar
O poder é o machado que dizimou a nossa simplicidade
Ruas sonham com o sol que a fumaça do poder escondeu
As frutas são colhidas verdes e untadas prá amadurecer
O homem pagará o preço de tanta mudança e inutilidade
O silêncio contará os segredos que não se queria revelar
Na turva memória dos invernos o mundo
ficou aquecido
Vive
desordenado qual um sótão onde não se quer subir
Capítulo I - Memórias
Ouço passos na
névoa, qual viessem d’outra dimensão
Ouço
a tua voz, memória indelével, aroma de orvalho
Orvalho fresco que ora
reside no vazio do crepúsculo
Jamais acreditei não
mais sentir o calor de teus beijos
Tu
regavas meus pores de sol,
tu colorias o horizonte
Como poderia eu
suspeitar que germinava a ausência
E esse jardim, nunca
mais floriu e nem a brisa soprou
Agora é tempo de
suspiros, os cinzas invadem a noite
São
dores que só o
esquecimento poderá confortar
Um
véu cinzento cobre o caminho que eu percorria
Uma sombra de
contornos imprecisos é o que restou
E
eu me pergunto porque essa sinfonia sem harmonia
Porque
se fez silêncio nas ruas desta cidade escura
Apenas
no sonho, enquanto durmo, vens me
indagar
Sobre
os momentos que tivemos, de risos incontáveis
Porque
se nos permitiu
a veste precária da fortuna
Para
em avesso, dela nos desnudar nesta desordem
Nesta
febre de recordações irreplegíveis e de caos
Homem
imperfeito que sou, construo o meu lamento
Ao
som de oboés e violinos, a nota final dos suspiros
Capítulo II -
Inconformismo
Indago
ao universo se era justo o tanto que
eu perdi
Porque
me fazes aplaudir, pois o que quero é chorar
Será
justo a memória de tanto júbilo restar sepultada
Os beijos
desenfreados, os desejos saciados, o amor
E a pior parte desta
realidade sombria e sem sentido
É
a palavra bem-cuidada perfumada, polida, deferente
Trazida
por
quem nunca
teve estima por nosso brilho
Porém
lá fora, a
chuva
não cessa
e as vidas persistem
Calar-me-ei,
e a cada dia, fingirei poder estar contigo
Com quem bastava um
olhar, mas agora é justo falar
Pois
pela manhã, a gota d’orvalho adormecida na relva
Evaporar-se-á, como quem morre
lenta e docemente
Não
como tu que foste tão abrupta e violentamente
Ah,
quando será que
o relógio regressará para ontem
Mesmo
que eu não ouça as ondas do mar pela neblina
Ou
que o sol não brilhe, mas reste um tênue sinal de ti
Além
dos muros de partidas e chegadas, vida e morte
Muitas
luzes e sombras se confundem dentro de mim
Fazendo-me
acreditar, enfim desperto, q’esta tristeza
É só parte de um
sonho ruim e à noite tu regressarás