sexta-feira, junho 19

Dúvidas noite afora

 

Não sei se te convido a dançar ou te peço que cales

Sob a chuva deste dia de inverno que anoitece cedo

Tu emudeceste os pássaros nesta viagem sem retorno

Meio à brisa que balança as folhas do velho carvalho

 

Afinal é noite e não sei se te visto ou se te desnudo

Na meia luz desse aposento cheio de silêncio antigo

Que inunda minhas pupilas, agora ébrias de lágrimas

Olho tuas formas curvilíneas, tua cintura de violino

 

Espero-te e não sei se chegarás cedo ou te atrasarás

Enquanto navego na nau da espera pelos horizontes

O céu vem, pleno de estrelas cintilantes, iluminar-se

Como o relâmpago azul no doce luzir dos teus olhos

 

Não importa que venhas brevemente e depois te vás

Importa é a música de tua passagem ficar na memória

Esse solo lento de guitarra tatuado na nossa história

Enquanto minha mão toca a lua suspensa para te dar

 

Sei que é tua, essa voz que me chama p’la noite afora

Dizendo que regressou por mim e pede que te toque

Assim, oculto pela névoa, sinto tua pele sob os dedos

Mas o faço nos meus sonhos para ninguém descobrir

sábado, junho 13

O Poema é Diversidade

 

A poesia é tanto

O justo e o imponderável

Plural Indivisível

Celeiro de contradições

Realidades virtuais

Soledade transparente

Paralelas convergentes

Olhos de nebuloso azul

Sitiados no anoitecer

No aroma dos vinhedos

Regados pelas chuvas

No abandono das luzes

Apazigua as diversidades

Na órbita dos sonhos

O sol fugidio nas palmeiras

De onde há muito

Se foram os sabiás

 

terça-feira, junho 9

A Semeadura das Insônias

 

Um vórtice de cinzas e pó domina as almas à noite

Tempo que as ruas dormem despidas de intenções

Os telhados ressoam a chuva na sua crua cadência

Pergunto por ti aos anjos sem sucesso em te achar

São apenas efígies imóveis de um tempo imemorial

Sigo pelas frias pedras polidas de outra madrugada

Caminho em vão entre os labirintos à tua procura

Onde estarás senão nos jardins dos meus eclipses

Entre os gerânios de bronze e seu aroma olvidado

Pela estreita e tumultuosa alameda da melancolia

Ergui altares para ti, mas as portas não se abriram

Os sonhos se apagaram deixando uma sombra nua

Pergunto por ti e a cidade só sabe de tua ausência

Do amargo de tanto vazio, dona das não respostas

Ontem fazia sol nos campos onde o amor brincava

Agora, ajoelho-me ao meio-dia, mas não vejo a luz

Os invernos sucedem a novos invernos neste lugar

Semeador de insônias, de revelações e de augúrios

O anjo da noite criou uma terra de rubis só para ti

Lá fora, perfilho a tua voz, mas tu não me chamas

Pois deixaste este mundo e as palavras silenciaram

Convertendo a eternidade em uma cicatriz aberta

Teus formosos olhos foram na crua neblina escura

A morte te levou pelo espelho da última penumbra

E os templos do nosso amor convertidos em cinzas

Hoje visto a máscara mais fria de todos os abismos