terça-feira, fevereiro 24

2126 - Lembranças do Amanhã

 
Passados cem anos que atitude esperar diante do poema
Letras tão hábeis outrora de arrancar lágrimas e sorrisos
O que se pode oferecer se nem a cinco minutos sabemos
Serei um gênio ou somente mais um entre os esquecidos
Como a volúpia esmaecendo débil após o transe do gozo
E nem porque mal redigido, na sua conveniente estética
Posto que feito às custas de sangue, suor e de lágrimas
Mas porque nada mais é durável nas páginas da tal web
O poema será o cavaleiro, pois, despido da sua montaria
Obrigado a caminhar a pé todos os caminhos do existir
Por onde caminharão as gerações sem peitos maternos
Em nome de duvidosa estética que a internet preconize
Sem o acolhimento de que o poema é sua doce memória
Até quando fará sentido o sacudir de punhos cerrados
E o violar do silêncio como só poema fora um dia capaz?
Acredito em ti que “Bilac” sequer tenha sido esquecido
Mesmo visitando há mais de cem as “Colombos” da vida
Todavia sem os malditos ‘influencers’ e ‘blogueiros’ vãos
Sem os arautos do esquecimento e do imediatismo fútil
Onde as asas de pássaro do poeta não têm mais sentido
Nem o prodigioso cheiro de tinta do livro recém aberto
Vivemos um tempo de equilíbrio instável das fake-news
Estéril de emoções e afagos, pleno de lágrimas e olvido
 
 

quarta-feira, fevereiro 4

Beira-mar

 Quando o poema
Aparece na noite
E tudo é o caos
Olhares planos
Sentimentos curvos
Céu sem luar
Nuvens a trovejar
No solitário poeta
Tudo transmuta
Em sua desordem
Calando o silêncio
O vento flácido
As estrofes de poesia
De versos sem rima
Para curar feridas
Secar lágrimas
Semear estrelas
Revoar os pássaros
No beijo salgado
De viver a beira-mar


Reforma

Quando a luz paira sobre a palavra, primeiro a geometriza
Nenhum enigma ou seita permite ver a sombra senão a luz
Dessa mesma operosa arquitetura, germina o canto poema
Com a força do aço se organiza e constrói com cintilação
E o faz a transmutar o equilíbrio do pensamento em ação
Éter que afronta o sólido, opostos, porém não se afastam
De uma mesma trama universal, a fuga dos sonhos ao real
Uma só verdade, contudo observada de distintos prismas
 
O poema desloca o fluxo da imaginação ao que é palpável
Confere ritmo à beleza que exalta, em feixe alado de cor
Mas dela se desprende e modifica a contemplar a solidão
Infundindo-lhe alento, até em ponderações mais gravosas
Pois, em seu fio aguçado de metal, é manifesta harmonia
A luz poética mergulha no recôndito, se conjuga no ouro
É qual argila ao oleiro e o fole que atiça fogo ao ferreiro
No entanto tão fugaz, ar e basalto em momentos ínfimos
 
A palavra quando emerge na noite, rompe todo equilíbrio
Condensa em mito, belo e cor o que poderia ser o vazio
Dando à visão o esplendor que desponta com perfeição
Para desenraizar da alma amores insonsos, frios e finitos
Torna insignificante o tempo que se conta no calendário
Elide o negror da surdez, apaga caminhares infrutíferos
Na noite a música suave, leva o pássaro a voar novamente
Afastando o silêncio, reacende o eterno sabor pela vida

 


sábado, janeiro 31

Concerto #7 para Oboé

 

As begônias cresciam no beiral da janela regadas de lágrimas
Aquele olhar distante fitando o rouxinol pousado na árvore
Ela seguia tímida com seus chinelos rotos e roupa de flores
Mas era ela a própria flor a desabrochar a cada amanhecer
Cruzava, na sua inocência, a cena entre a janela e o pássaro
Foram tantos signos em seu caminho, desde o primeiro passo
Quantas vezes os tambores rufaram a desviar a sua atenção
Quantas nuvens gris armaram temporais, na calada da noite
Seguia pelas estepes esverdeadas a ouvir o rumor do regato
Disseram-lhe sobre o destino brilhante que deveria alcançar
Mas na vida, há calor no inverno e brisa amena pelos verões
Mas nada é como parece ser e o rio vem a alagar as várzeas
E leva consigo a dança divina e desmistifica todos os rituais
A jovem de pele ocre foi arrastada no redemoinho do vento
Seu caminhar a dias melhores se tornou um deserto de folhas
Restam tão só sombras, sem rosto, sem nome ou seu sorriso
Partiu sem ser a estrela que as vozes da ilusão apregoaram
Tão só a máscara de vidro entre na multidão de incertezas
O que fazer quando a luz do trovão inaugurar a escuridão
Gritos profundos de silêncio a elevar-se na palavra solitária
Não aquela impressa na folha cega dos poemas imemoráveis
Mas na pele cansada, entre as cicatrizes fundas da estrada
Se o vento que furtou as flores devolver o aroma dos lírios
Quiçá ela ainda regresse antes do último concerto da alma

quarta-feira, janeiro 21

Gerânios

 Recordar o olvido
Para semear-me
em teu corpo ausente
Olhar a outros dias
Resgatar teu sorriso
Nas memórias antigas
Apagadas de teus lábios
Se eu pudesse sentir
O calor de tua pele
Chorar, quem sabe
Sim chorar liberdade
Tua mão na minha
Os gerânios do jardim
Murchos pela tarde
Uma cruel negativa
Um amor tão tolo
Que se afogou
Na própria loucura



A estranha do lago


Uma trilha à beira do lago era meu passeio cotidiano
A primeira vez que a vi, era só uma silhueta na tarde
Quase uma sombra, muda, distante, de olhar perdido
Ela sonhava com o verde, na amargura que cultivava
Sua sombra caíra junto à arvore em gotas de solidão
E as folhas vermelhas, as tinha como um escapulário
Que carregou no peito por tantos amores náufragos
Lembranças frágeis da história de tantos desamores
Tudo isso se revelava em seus olhos, entre os cabelos
Ela escrevera um nome na menor árvore do caminho
Justo a que a primeira tempestade de outono levou
Um dia, semblante abstraído, caminhou ao meu lado
Num silêncio peculiar a quem esqueceu de si mesma
Enquanto a chuva surgia intensa sob suas pálpebras
Eu aceitei que caminhasse sem falar de suas dores
Ou de outra coisa sequer, desprendida e pensativa
Escutei seus passos incertos pisarem as folhas secas
Um dia ela partiu, deixou seu nome gravado na brisa
Qual cicatrizes efêmeras na superfície calma do lago
 

terça-feira, janeiro 20

Q

 
Quando a noite avança em ondas, a negra maré
Quão profundo teremos que mergulhar na alma
Para encontrar um anjo nessa névoa angustiosa
Até que desapareçam as lágrimas e nos entregar
Qual pássaro a voar sob o imenso negro oceano
Coalhado de infinitas plêiades de estrelas vivas
 
Quantas vezes devemos nos ferir para ser unos
Será que se pode amar alguém depois da morte
Pois tanto amor não poderia acabar com a vida
Os cisnes nadam na alvorada depois das chuvas
Como quem se despede do resto de lua noturna
Quando a imaginação quer alcançar dias irreais
 
Quanta rocha devemos brunir para ver beleza
E o relâmpago cintilar os sonhos mais secretos
Na calada da noite derretendo-se como o gelo
Esvanecendo a linha que divide o céu e o mar
O fogo mágico venceu todas margens e limites
E num único gesto azul, demoliu o inacessível
 
Quando os caminhos tornam íngremes demais
A bela donzela é memória no cantar distante
E velhos demônios se escondem bem no fundo
Nós enxergamos sem ver, escutamos sem ouvir
Sem saber que o azul do céu reside só na alma
 
Muitos vivem com uma máscara, com água até o
pescoço, no ócio, contemplação negando a vida