segunda-feira, agosto 24

0123 Rima Vice Versa

 

Revoada, luz apagada

Sangue pelo chão

Mas lágrimas não

Cadê as flores

Chão crestado

São tantas dores

Amor derramado

E vem a morte

Luta impotente

Mas o poema

Não é por sorte

Nem é inocente

Cheira a alfazema

Sob o céu azul

Brilhará o sol

No hemisfério sul

Todo o arrebol

Rumo ao oriente

Com toda gente

Meu grito, no infinito

Como Aprendi a Voar

Ela foi uma viajante que se achegou a mim num outono

Bailarina, tinha o hábito de caminhar na ponta dos pés

Levava na bolsa incensos de lírio e tinha olhos curiosos

Facilmente descobrimos juntos o caminho para sonhar

Tão breve, chegamos a um grande enlevo noite adentro

Cercava uma névoa densa, que podíamos nos enxergar

Seu sorriso brilhou qual um farol e mostrou o caminho

Ela fez meus pássaros selvagens chegarem a seu apogeu

Pousando delicadamente sobre o convite de seus seios

Na noite, mesmo as promessas não feitas, se cumpriram

Bocas e membros se entrelaçam nos silêncios do desejo

Somos sobreviventes, dispensamos definições perfeitas

O céu cansado de estar só, exibiu uma lua de primavera

Para nos iluminar, então ao seu lado fiz-me livro aberto

Para que, na sua nudez me descobrisse como quisesse

Entrei furtivo dentro dela e habitarei a sua lembrança

Eu soprei minha luz sobre todos os seus medos e dores

Quando chegou o verão, ela se foi, sem ressentimentos

Qual é natural da andorinha voar quando chega o verão

Para num delicado balé, voltar ao céu banhado de azul

De longe eu a olho feliz pela história que me ofereceu

Ela será eternamente a bailarina que me ensinou a voar


quinta-feira, agosto 20

Não Diga A Verdade

 

Quando as palavras cotidianas de tornarem ininteligíveis

E a mesa onde se deita o pão, não seja mais mesa ou pão

Umas bocas prepotentes, roubam o significado do simples

Como água e janela, quando a chuva bate tenaz à janela

Tempos modernos e certas palavras não podem ser ditas

Por mais que a foto estampe o fato, notório, inconteste

Não diga “belo índio”, pois disseram que é depreciativo

É indígena. Pois então indígena filho da puta, isso pode

O amigo, que nem sabe onde é a África, afrodescendente

Não, as palavras não são feias, feia é a intenção ao usá-las

Dirão que certas palavras são para serem posta no armário

Não nos diálogos, nestes, há que escolher, mas não ideias

Quando as velhas árvores em que brincávamos no passado
Não forem senão uma lembrança, os apelidos que dávamos

Aos amigos virarão crimes irreais, uma mentira inventada

Bulling: um estrangeirismo, pomposo, feito só para regrar

O poder é o machado que dizimou a nossa simplicidade

Ruas sonham com o sol que a fumaça do poder escondeu

As frutas são colhidas verdes e untadas prá amadurecer

O homem pagará o preço de tanta mudança e inutilidade

O silêncio contará os segredos que não se queria revelar
Na turva memória dos invernos o mundo ficou aquecido

Vive desordenado qual um sótão onde não se quer subir