terça-feira, julho 14

Depois da Tempestade

 

Acendo uma lamparina com a qual abdico desta escuridão

Meus olhos já adquiriam a redondez dos olhares de felinos

Já posso ver qual face da moeda lançada no cara ou coroa

Que jogamos a disputar nossa nudez, entre taças ora vazias

Minha visão se estende e vai arranhando os cantos escuros

Nem de fósforo, nem lamparina. Reconheço tua respiração

Nem precisaria disso, sempre senti teu corpo junto ao meu

Recordo que antes da tormenta vieste bater à minha porta

Teu hálito sobre o travesseiro, o teu calor sobre meu corpo

Estiveste aqui, livre para ir e ficamos a essa frágil distância

Que a madrugada nos fez transpor tantas vezes em abraço

Para estar dentro de ti, enquanto a chuva açoitava lá fora

A luz tão só me confirma a memória de teu semblante feliz

Tão próximo que nossas bocas, se confundiram em uma só

Nem me importa o mistério da tua chegada, mas tua vinda

Foi como um porto seguro em meio a toda essa tempestade

Enquanto os raios triscavam o céu, aqui o real era tu e eu

Confesso que cheguei a temer não estares ao chegar o dia

Mas a aurora chega é tanta paz que voltamos a fazer amor

Para completar nosso mistério e sentir o esplendor da vida

Fazer que nossas vozes jamais virão se quedarem ausentes

Que a verdade se faça penetrar em todas nossas palavras

E mesmo depois da tempestade saibas quem sou e quem és

sexta-feira, julho 3

Outono ao Sul do Equador

 

Um mar, outro lado da linha do equador

A noite que te oculta é o sol que me luze

Mas que não o vês desse lado do oceano

Estás tão distante o mundo é tão grande

Aquele tom violeta nos céus vespertinos

A dizer que é a noite que aqui se chega

A tormenta já se foi, as nuvens calaram

De que adianta se não te tenho comigo

 

A vela branca corta a visão no horizonte

Vai, norte a sul, quão ligeira e silenciosa

Na embocadura do canal, a garça pousa

Igualmente silente, também a olhar o mar

Sob este sol, sou a singela figura solitária

E o amargor se me esconde nas entranhas

Que revela a imagem de homem cansado

Ensimesmado com lembranças d’antanho

 

Só o sol deveria brilhar neste país tropical

Mas eu nasci no limite d’um maio outonal

Ao sul do equador onde houvera palmeirais

Sou só os escombros de um ser angustiado

Que contende uma guerra em seu interior

E o silêncio de tua lembrança toma espaço

Do colorido de pássaros que já esmaeceu

A velha casa hoje está vazia, a noite se foi

 

Adeus ondas, adeus palmeirais, brisa do mar

Sem cessar essa dor, o poema é ponto final

terça-feira, junho 30

Pelas esquinas da noite

 

Pelos espaços da noite, encravados de estrelas cintilantes

Num céu violeta a cidade é uma torre estática, muda, nua

Entre os gemidos e sussurros que vêm não se sabe de onde

Talvez donzelas de entalhada virgindade a cantar cânticos

Em seu cantar estranho parece uma vigília, uma procissão

A vida perdeu um quê da consciência do que a vida já foi

Rostos, rubor e timidez, mares de gente acelerada que vai

As roupas nos varais, bailando aos ventos, esperam o verão

A navegar na brancura das ondas desses mares de sonhos

Impende partir bem antes da chegada de cruas incertezas

Do outono das pétalas caídas, dos pavores do frio futuro

A cada esquina irregular onde vivem os senhores da noite

A olhar a rua com seus olhos negros debruçados na janela

Detrás de suas faces macilentas, estão sempre à espreita

O gato preto mia sobre o muro, ouço passos pela calçada

Amarrei um laço de fita gris pelas ruas desertas da cidade

Marquei tua passagem pelos meus dias para nunca olvidar

Os cabelos esvoaçantes, olhos amendoados e a boca rubi

Teu sorriso e o perfume que me trazia na brisa vespertina

Continuo gravitando na tua ausência nesta órbita amarga

São coisas que tive ouvido, mas finjo não haver escutado

Os dias se amontoam uns sobre outros no calendário azul

Fecho as pálpebras e toda quimera segue o rastro do vento