Dias e dias afora
Tão longa a estrada
A distância encurta
É no silêncio bruto
Que tua voz ecoa
É na noite sem luar
Que brilham estrelas
Quanto mais te cales
Tão mais que dizes
Quanto mais revelas
Mais o segredo flui
Quanto mais ocultas
Mais mostras de ti
Quanto mais foges
Mais te encontro
Quanto mais me amas
Mais te amo também
Terá o mundo outra chance depois do que lhe fazemos
Teremos outra
vida depois desta vida, tão vilipendiada
Tudo começar da
infância, lá longe, em estradas barro
Cabelos fartos, corpos esguios a saltar pedra em pedra
Neve da qual
as crianças farão bonecos, tão efêmeros
Qual foi efêmera esta passagem descuidada pela terra
Eivada de
ausências, mais de adeuses que de chegadas
Aprenderão
nossos olhos, não serem então forasteiros
Assim
enxergarem que todas cores são de humanidade
Olhar o
próximo sem sobressaltos, sem qualquer temor
E saberemos
falar numa só língua sem construir babéis
Elaborada
acima dos olvidos, de terem ouvidos ou não
Mesmo que o mundo seja outro, de menos crepúsculos
Onde seja
sempre alvorada, passadas horas e anoitecer
Onde meu poema seria sem
angústias, sem melancolias
Seria ainda flor, contudo liberto de todos os espinhos
Será que tu lá
estarias, assim como estivestes por aqui
Tua pele macia, expressão cintilante e caminhar airoso
Teu olhar e a risada franca, serias ainda assim a mesma
E de tudo que mudar, que não
mude meu amor por ti
Ontem sonhei e lembro reinventar o mundo só
para ti
Ocupas-me a memória tal hera ocupa muros no jardim
Um jardim onde quer eu olhe, vejo tua imagem a sorrir
Pois no mundo que inventei não há mentira ou maldade
Sequer há invernos e todas as estações são inventadas
Lá u’a andorinha solitária faz os verões mais
candentes
Pérola de meu sonho oculto iluminaste a
minha razão
Inventei tu e
eu a caminhar pelo campo na noite de lua
Só para admirar teu corpo de infindos vales e colinas
Foi somente pra nós que criei esse mundo todo novo
Onde as folhas
das árvores farfalham à brisa da tarde
E, caídas pelo
chão do parque, voam em redemoinhos
Da cabana à beira do lago, a fumaça branca vai ao céu
Junta-se em grupo e forma brancas nuvens ao meio-dia
No meu mundo tudo lembra de ti, nem carece
inventar
Caminhei até as cascatas douradas como teus cabelos
Colhi pra ti, um efêmero
buque de narcisos vermelhos
Retorno à cidade e todas calçadas ecoam
teus passos
Eles pisam na
minha direção, meus braços te esperam
Para te acolher,
se o céu em véu negro negar estrelas
E se mesmo o luar, por pura inveja de ti, não aparecer
Aqui não há
guerra, desamor, nuvens de tempestade
Meu mundo não chove, caem lágrimas felizes de te ver
Passados cem anos que atitude esperar
diante do poema
Letras tão hábeis
outrora de arrancar
lágrimas e sorrisos
O que se pode oferecer se nem a cinco minutos
sabemos
Serei um gênio ou somente mais um entre
os esquecidos
Como a volúpia esmaecendo débil após o
transe do gozo
E nem porque mal redigido, na sua
conveniente estética
Posto que feito às
custas de sangue,
suor e de lágrimas
Mas porque nada
mais é durável
nas páginas da tal web
O poema será o cavaleiro, pois, despido
da sua montaria
Obrigado a caminhar
a pé todos os caminhos
do existir
Por onde caminharão
as gerações sem peitos maternos
Em nome de duvidosa estética que a
internet preconize
Sem o acolhimento de que o poema é sua
doce memória
Até quando fará sentido o sacudir de
punhos cerrados
E o violar do silêncio como só poema fora um dia capaz?
Acredito em ti que
“Bilac” sequer
tenha sido esquecido
Mesmo visitando há mais de cem as “Colombos”
da vida
Todavia sem os malditos ‘influencers’ e
‘blogueiros’ vãos
Sem os arautos do esquecimento e do
imediatismo fútil
Onde as asas de pássaro do poeta não têm
mais sentido
Nem o prodigioso cheiro de tinta do livro recém aberto
Vivemos um tempo de equilíbrio instável das fake-news
Estéril de emoções e afagos, pleno de
lágrimas e olvido
Apolinário cabelo desgrenhado, de terno despareado
De uma linguagem subtraída da compreensão comum
Guardou na gaveta todas as perguntas irrespondidas
À margem da
vida, já rumando pra antessala da fome
Debaixo da sombra que a melancolia coletiva definiu
A alma de quem caminha só entre moinhos sem ventos
Vive alheia a quem ou o quê nesse
inferno de lágrimas
E colher as frutas
amargas que, todavia, não semeou
Essa espera infindável de antes desespero
que solidão
Como é doloroso morrer, quando se permaneceu vivo
Não é o medo à beira do poço, mas de erguer-se e ser
Porém apenas um monte de carne e ossos que ambula
Ouvir a batida densa do coração, tudo mais é
silêncio
Imaginar-se arredio a tudo e ainda ao alcance da vista
À revelia de tudo que acontece, mas não do que sabe
Isolado no
abandono fatal, do qual não pode escapar
Sei que todos nasceram separados, mas nem por isso
Que se deve dobrar a aposta e seguir assim segregado
Por caminhos onde a esperança nunca tenha trilhado
Habitante de uma festa imaginária ao alucínio do dia
E naquela
viela de casas alquebradas e tijolos a vista
As luzes tremeluzentes emprestam um ar agourento
Como se algo se fizesse permanentemente a espreita
Tão longe se vão os coros das cantilenas dominicais
Estações que
não sentia na boca esse hálito amargo
Agora tão só suporta, resoluto, todos esses subsolos
Com a nitidez de
quem, reuniu os laivos de coragem
Entre um resto de encarnação e assobia uma canção
Caminha entre uma lágrima e outra, sapato de couro
Que arrasta sem ritmo, buscando o ar que lhe falta
Pensa que no fim do mundo haja u’a chamada geral
Aprumará o peito, metade angústia, metade
rebeldia
E qual último
morador do silêncio, ensaia um sorriso
Vai altivo augurando a vinda de tempos sem guerras
Leva na mão o último exemplar d’um livro de poemas
Quando o poema
Aparece na noite
E tudo é o caos
Olhares planos
Sentimentos curvos
Céu sem luar
Nuvens a trovejar
No solitário poeta
Tudo transmuta
Em sua desordem
Calando o silêncio
O vento flácido
As estrofes de poesia
De versos sem rima
Para curar feridas
Secar lágrimas
Semear estrelas
Revoar os pássaros
No beijo salgado
De viver a beira-mar
Quando a luz paira sobre a palavra, primeiro
a geometriza
Nenhum enigma ou seita permite ver a
sombra senão a luz
Dessa mesma operosa
arquitetura, germina o canto poema
Com a força do
aço se organiza e
constrói com cintilação
E o faz a transmutar o equilíbrio do pensamento
em ação
Éter que afronta o sólido, opostos, porém
não se afastam
De uma mesma trama universal, a fuga dos
sonhos ao real
Uma só verdade, contudo observada de
distintos prismas
O poema desloca
o fluxo da imaginação
ao que é palpável
Confere ritmo à beleza que exalta, em
feixe alado de cor
Mas dela se desprende e modifica a contemplar
a solidão
Infundindo-lhe alento, até em
ponderações mais gravosas
Pois, em seu fio aguçado de metal, é manifesta harmonia
A luz poética mergulha no recôndito, se
conjuga no ouro
É qual argila ao oleiro e o fole que
atiça fogo ao ferreiro
No entanto tão fugaz, ar e basalto em momentos
ínfimos
A palavra quando emerge
na noite, rompe todo equilíbrio
Condensa em mito, belo e cor
o que poderia ser o vazio
Dando à visão o
esplendor que desponta
com perfeição
Para desenraizar da alma amores insonsos, frios e finitos
Torna insignificante
o tempo que se conta no
calendário
Elide o negror da
surdez, apaga
caminhares infrutíferos
Na noite a música
suave,
leva
o pássaro a voar
novamente
Afastando o silêncio, reacende o eterno sabor pela vida