terça-feira, julho 28

Faço Meu Rumo do Sol

Não, as nuvens não são de algodão, alguém diz

Nem o papel onde registro o poema se faz vela

Que olvides os barquinhos de dobras, digo-lhe

Nada é como já foi um dia. A inocência partiu

Por mais que os poemas enfunem o meu velejar

E minh’alma singre as sonoras estrofes da vida

Hoje complicaram a vida abandonando fantasias

Será que te lembras um primeiro beijo roubado

O sino dominical imprimia uma última badalada

Hoje seriam assédio ou perturbação de sossego

E os cumulus de carneirinhos ao sabor da brisa

Cruzavam o manto celeste quão pacificamente

Ora gravosos vórtices das alterações climáticas

Tempestades que, impiedosas, a tudo destroem

Quem ainda recita os versos em alegres saraus?

Quem conta passos ou cores de lajotas do chão

Não sobra mais tempo para todas essas tolices

O poema resiste, mesmo sem prateados cálices

Simplesmente frugal e absolutamente imaterial

Qual um inverossímil arquipélago de resistência

Absolutamente sutil e simplesmente indomável

Um brusco tropel que invade as linhas do papel

Sim tudo mudou, não o poema oriundo da noite

E na chegada da manhã faz nuvens de algodão

Onde o poeta desenha seu próprio rumo do sol


segunda-feira, julho 27

Ainda Que Me Custe Admitir

Hoje, como de hábito, não falaremos das coisas divinas

Tampouco de coisas mundanas, poética não é para isso

Meu poema fala do sonho, das coisas que Dali fazia ver

Se há algo a mudar, não é minha culpa um mundo assim

Por isso, não me sinto responsável por guerra nenhuma

A ruína a que o mundo caminha não é por algo que fiz

Ou deixado por fazer com as minhas ideias incômodas

Tolos homens do século XXI acham que ainda poderão

Em alguns anos corrigir o que se destruiu em duzentos

Renascentismo é a eufemia para o início da destruição

Perdão, mas tenho que regar as flores nos meus sonhos

Não varro as cinzas debaixo do tapete das conveniências

Não sou algum tipo justiceiro nas horas vagas de poesia

Os donos do mundo e seus ataúdes contados um a um

Devem saber das frágeis cicatrizes dos sonhos fugazes

Se não sentes a dor é porque não lembras de ti mesmo

Eu, por mais que custe admitir, amamento a melancolia

Para nunca esquecer de onde finquei as minhas raízes

Sei que invento histórias sobre um mundo de falsidade

Contudo a verdade pode ser uma tragédia ainda maior

Troco a angústia da certeza pela inquietude da dúvida

Caminho num mundo inseguro entre ruídos e assombro

É dever de cada um amar, ser amado e morrer de amor


quarta-feira, julho 22

Ventos de Uma Mudança

Decidi apagar todas as lembranças

Cada uma delas se irá embora

Não há vento que as possa devolver

Pois até mesmo os lugares nossos

Posso dizer que não existem mais

Trocarei todas as palavras ditas

Pelos silêncios impronunciados

Sobretudo qualquer jura de amor

Dará lugar ao vazio consumidor

Os olhares que um dia trocamos

Serão, amanhã, apenas indiferença

Só não apagarei nossas pegadas

Pois essas a tempestade já varreu

Fecho cada porta para não abrir

E as janelas permanecerão cerradas

Para não ouvir passos na calçada

E imaginar que tu enfim voltas

Nesta noite se acaso eu sonhar

Não será tua face que me visitará

O céu da noite terá novas estrelas

Na alvorada outro sol brilhará

Mas não imagines que isto é o fim

Pois é o dia que recomeço a viver