terça-feira, junho 30

Pelas esquinas da noite

 

Pelos espaços da noite, encravados de estrelas cintilantes

Num céu violeta a cidade é uma torre estática, muda, nua

Entre os gemidos e sussurros que vêm não se sabe de onde

Talvez donzelas de entalhada virgindade a cantar cânticos

Em seu cantar estranho parece uma vigília, uma procissão

A vida perdeu um quê da consciência do que a vida já foi

Rostos, rubor e timidez, mares de gente acelerada que vai

As roupas nos varais, bailando aos ventos, esperam o verão

A navegar na brancura das ondas desses mares de sonhos

Impende partir bem antes da chegada de cruas incertezas

Do outono das pétalas caídas, dos pavores do frio futuro

A cada esquina irregular onde vivem os senhores da noite

A olhar a rua com seus olhos negros debruçados na janela

Detrás de suas faces macilentas, estão sempre à espreita

O gato preto mia sobre o muro, ouço passos pela calçada

Amarrei um laço de fita gris pelas ruas desertas da cidade

Marquei tua passagem pelos meus dias para nunca olvidar

Os cabelos esvoaçantes, olhos amendoados e a boca rubi

Teu sorriso e o perfume que me trazia na brisa vespertina

Continuo gravitando na tua ausência nesta órbita amarga

São coisas que tive ouvido, mas finjo não haver escutado

Os dias se amontoam uns sobre outros no calendário azul

Fecho as pálpebras e toda quimera segue o rastro do vento

 

 

quinta-feira, junho 25

O Poema Não Escrito

 

Essas vozes pífias

Que não se elevam

Apenas o mero eco

Rumor de gargantas

E os alertas cruciais

Das cobras se chegam

Nas cavernas escuras

Fingidas no orvalho

Não saem das bocas

E tu que caminhas

Em passos lentos

Longos e desnudos

Como quem celebra

Não sabe bem o que

Resta como se fosse

Um peixe no aquário

Solitário e indesperto

A uma parca vibração

Que agite as águas

Apesar que tu o vês

Tu te quedas silente

É qual algum poema

Que nunca viu o papel

sexta-feira, junho 19

Dúvidas noite afora

 

Não sei se te convido a dançar ou te peço que cales

Sob a chuva deste dia de inverno que anoitece cedo

Tu emudeceste os pássaros nesta viagem sem retorno

Meio à brisa que balança as folhas do velho carvalho

 

Afinal é noite e não sei se te visto ou se te desnudo

Na meia luz desse aposento cheio de silêncio antigo

Que inunda minhas pupilas, agora ébrias de lágrimas

Olho tuas formas curvilíneas, tua cintura de violino

 

Espero-te e não sei se chegarás cedo ou te atrasarás

Enquanto navego na nau da espera pelos horizontes

O céu vem, pleno de estrelas cintilantes, iluminar-se

Como o relâmpago azul no doce luzir dos teus olhos

 

Não importa que venhas brevemente e depois te vás

Importa é a música de tua passagem ficar na memória

Esse solo lento de guitarra tatuado na nossa história

Enquanto minha mão toca a lua suspensa para te dar

 

Sei que é tua, essa voz que me chama p’la noite afora

Dizendo que regressou por mim e pede que te toque

Assim, oculto pela névoa, sinto tua pele sob os dedos

Mas o faço nos meus sonhos para ninguém descobrir