Um vórtice de cinzas e pó domina as almas à noite
Tempo que as
ruas dormem despidas de intenções
Os telhados ressoam a chuva na sua crua cadência
Pergunto por ti aos anjos sem sucesso em te achar
São apenas efígies
imóveis de um tempo imemorial
Sigo pelas frias pedras polidas de outra madrugada
Caminho em vão entre os labirintos à tua procura
Onde estarás senão nos jardins dos meus
eclipses
Entre os gerânios de bronze e seu aroma olvidado
Pela estreita e tumultuosa alameda da melancolia
Ergui altares para ti, mas as portas não se abriram
Os sonhos se apagaram deixando uma sombra nua
Pergunto por ti e a cidade só sabe de tua ausência
Do amargo de tanto vazio, dona das não respostas
Ontem fazia sol nos campos onde o amor brincava
Agora, ajoelho-me ao meio-dia, mas não vejo a luz
Os invernos
sucedem a novos invernos neste lugar
Semeador de insônias, de revelações e de augúrios
O anjo da noite criou uma terra de rubis só para ti
Lá fora, perfilho a tua voz, mas tu não me chamas
Pois deixaste este mundo e as palavras silenciaram
Convertendo a eternidade em uma cicatriz aberta
Teus formosos olhos foram na crua neblina escura
A morte te levou pelo espelho da última
penumbra
E os templos do nosso amor convertidos em cinzas
Hoje visto a máscara mais fria de todos os abismos
O sonho e seu duplo é tal a face que se
admira no espelho
Têm substância própria que se alça nos
meandros da noite
Na sua armadura de aço se mistura com os veios do lençol
E entre as sombras circula no vento até enfim se
dissolver
É tentar em
vão buscar dissociar o sonho do real no poema
Não faço
esforço para aceitar que a razão nasce do sonho
Sob a escuridão temos que ter
os olhos abertos, ver a razão
Um som angelical se espalha pelo ar e tem aroma de jasmim
Mil rubis cintilam a dispersar as frias estátuas do
cotidiano
As muralhas da madrugada estendem ante os adormecidos
Mas não há perdão àquele que olha, porém se recusa a ver
Os sinos
repicam anunciando a alvorada: é hora de acordar
Recolher entre as cinzas os signos que o fogo
nos oferece
Para separar as ilusões que se criam entre campos de trigais
Dos enganos
gris dos cárceres nas pedras frias do desamor
As chamas geram a longa insônia das horas em sua tepidez
O deserto não se consome em si, nem seu olvido
de oceanos
Pulsam páginas
em areia, louca trama meu coração nômade
O pássaro abre as asas ao vento, rabiscando poemas no céu
Desafiando o mármore pétreo da certeza sobre vida e morte
Transmutando as ideias do real e o
onírico num feixe azul
E os versos fluem tal como rios
indômitos aos olhos da lua
As salamandras emudecidas convivem no seu fogo-alimento
Enquanto os dormentes silenciam na transparência da noite
Os dias seguem desertos e a vigília se queda longe de findar
Para findar a tristeza profunda que povoa
os crepúsculos
O poema é implacável, em ondas escapa do que seria usual
Entre imagens oblíquas de sonhos,
semeiam o acaso de viver
A chuva lavou
a cidade por dias em sua faina incansável
Os dias nasciam
cinzas, sem fronteiras entre céu e terra
Ah, é difícil despertar em manhãs de horizontes prolixos
De parcas intenções, pouco menos que monocromáticas
Por descuido, o sol rompeu o cinza numa alvorada atrás
Distribuindo cores radiantes sobre todas coisas lavadas
O solário muda
as perspectivas, em especial sobre o mar
Ainda quando se põe e a noite vem, conserva seu poder
Iluminando a face da lua, a deleite de poetas e amantes
Caminho descalço sob essas estrelas luzidias à beira mar
Ouço o diálogo das ondas e
a areia qual canção de ninar
O que o faço hipotecando silêncio e segredo à conversa
Há tempos que a vida transcorre cercada de amenidades
E o poema se
constrói suave, desnudado do substancial
Sua pungência abdicada e latente, envolta em mistérios
Mas sei também,
que essa mansidão precede a tormenta
Que conduzirá de volta às palavras
desfeitas deste albor
Tão inusitado que se assemelha uma quase ininspiração
Digamos que seja uma trégua, breve regresso à infância
Quando o céu e
o mar, deitados na distância eram azuis