quinta-feira, setembro 3

Memorial Da Senda de Outrora

Na minha memória bailam os vastos caminhos que percorri

Não é difícil visualizar as veredas onde caminhei descalço

Sinto a presença de flores que se desintegraram no campo

Contudo seus perfumes persistem a habitar-me as narinas

Recordo do rubro-ocre dos telhados à volta da esplanada

Antigas casas que nem o tempo se incumbiu a transformar

Casas humildes, cheias de fotos esmaecidas pelas paredes

Antes de entrar na cidade, avista-se ao longe o campanário

Que ao badalar promovia a revoada de pombas assustadas

Os sinos compassados eram um apelo inegável aos domingos

O murmurar das chuvas sobre os zincos não quer silenciar

Um diálogo de magia que me conduz às pontes sobre o rio

Percorro distraído as ruas e praças com seus mercadores

Um grupo finge ser cavaleiros com suas armaduras de lata

Leva-me a outro tempo, uma velha capital do renascimento

Tomo um gole de vinho tinto seco de uma mesa do cenário

Sigo vagando, o céu se incendeia ao pôr do sol no horizonte

A noite pede passagem, suave, para se impor no firmamento

Onde brevemente explodirão milhares de estrelas piscantes

Segue-se a madrugada e chego às areis mornas da beira-mar

Olho o mar na sua profundeza, imagino vindo as velhas naus

Seus canhões ociosos, os remos imóveis, velames serenados

A maré traz lascas de naufrágios, da imponência de outrora

De volta às montanhas verdejantes, observo a velha bruxa

Trazendo consigo o cadinho, macerando ranzinza a poção

Que me devolve à realidade, sobre as pedras pisadas da vida

 


sexta-feira, agosto 28

Ela Veio Com a Névoa

A névoa invadia a cidade, apagando os contornos

Sua silhueta surgiu entre a garoa na rua deserta

Na noite fria ela rompeu a bruma com sua volúpia

Pôs o corpo serpentino fronte a mim, disse dance

Ela dançou, dançou como fogo, mas agora se foi

Foi embora e nunca mais voltou, o fogo apagou-se

Seus olhos eram como a noite, estrelas brilhantes

Sua voz suave qual um sussurro na noite chuvosa

Que fundiu brevemente nossos corpos em um só

Permaneceram sombras que não consigo alcançar
Ainda ouço um eco de sua voz chamar meu nome

Tal o nome dela resiste na ponta da minha língua

Cada palavra não dita, que nunca mais se vai dizer

Ela ficou na minha carne, está no meu pensamento

E eu a procuro a cada dia, cada nuvem, cada luz

Mas ela é um fantasma que se oculta na multidão

Será que era um sonho, seria só uma alucinação


quarta-feira, agosto 26

Aquarela do Brasil de 2026

Meu país, que ora te resta? Um trapo soçobrado

Das lutas que não lutaste. Apagou-se a tua força

Gatunos e perjuros sugam teus recursos e boa fé

Abdicaram de tua grandeza, gigante desfalecido

Atribuem mentiras odiosas àqueles que te servem

Aos mais humildes que creram nas promessas vãs

Restou a desculpa que são outros que impediram

Não fossem cumpridas – é o engano para o lucro

Não te iludas, tais vermes desejam é ocultar a luz

Para fazer-nos crer que nós que somos os fracos

Talvez sejamos se reabrirmos a porta ao demônio

Meu país, não culpes ninguém pelas tuas derrotas

A culpa é dos que, por doze anos, são desgoverno

Pois o que ora te falta, foste tu que o ofereceste

Asilaste de volta ervas daninhas e o mal floresceu

Se o fruto está podre, foi que vermes encontraram

Um propício ambiente para exercer sua corrupção

É véspera de eleição, lobos se travestem cordeiros

Vampiros cheios de ódio, travestem anjos de amor

Andamos nas ruas, não vemos nada que apregoam

Invés de luzes, trevas; de fartura, fome; de paz, dor

Ao avesso de liberdade, vemos medo em todo lado

Mãos manchadas de sangue de seus compatriotas

Vítimas por um celular, por uma corrente, um anel

Meu país, terra onde os sabiás não podem gorjear

País de uma imprensa vendida e outra manietada

Onde os tribunais escolhem as verdades a se dizer

Porém, a despeito de todas as mazelas, meu Brasil

Permito-me, poeta e sonhador, nestas singelas linhas

Com minha fé em farrapos, sustentar bons valores

E, num fio de ilusão, crer que um dia vás levantar