quinta-feira, agosto 20

Não Diga A Verdade

 

Quando as palavras cotidianas de tornarem ininteligíveis

E a mesa onde se deita o pão, não seja mais mesa ou pão

Umas bocas prepotentes, roubam o significado do simples

Como água e janela, quando a chuva bate tenaz à janela

Tempos modernos e certas palavras não podem ser ditas

Por mais que a foto estampe o fato, notório, inconteste

Não diga “belo índio”, pois disseram que é depreciativo

É indígena. Pois então indígena filho da puta, isso pode

O amigo, que nem sabe onde é a África, afrodescendente

Não, as palavras não são feias, feia é a intenção ao usá-las

Dirão que certas palavras são para serem posta no armário

Não nos diálogos, nestes, há que escolher, mas não ideias

Quando as velhas árvores em que brincávamos no passado
Não forem senão uma lembrança, os apelidos que dávamos

Aos amigos virarão crimes irreais, uma mentira inventada

Bulling: um estrangeirismo, pomposo, feito só para regrar

O poder é o machado que dizimou a nossa simplicidade

Ruas sonham com o sol que a fumaça do poder escondeu

As frutas são colhidas verdes e untadas prá amadurecer

O homem pagará o preço de tanta mudança e inutilidade

O silêncio contará os segredos que não se queria revelar
Na turva memória dos invernos o mundo ficou aquecido

Vive desordenado qual um sótão onde não se quer subir

 

quarta-feira, agosto 19

Decálogo de Vida e Morte (Em Dois Atos)

                                                     Capítulo I - Memórias

 

Ouço passos na névoa, qual viessem d’outra dimensão

Ouço a tua voz, memória indelével, aroma de orvalho

Orvalho fresco que ora reside no vazio do crepúsculo

Jamais acreditei não mais sentir o calor de teus beijos

 

Tu regavas meus pores de sol, tu colorias o horizonte

Como poderia eu suspeitar que germinava a ausência

E esse jardim, nunca mais floriu e nem a brisa soprou

Agora é tempo de suspiros, os cinzas invadem a noite

 

São dores que só o esquecimento poderá confortar

Um véu cinzento cobre o caminho que eu percorria

Uma sombra de contornos imprecisos é o que restou

E eu me pergunto porque essa sinfonia sem harmonia

 

Porque se fez silêncio nas ruas desta cidade escura

Apenas no sonho, enquanto durmo, vens me indagar

Sobre os momentos que tivemos, de risos incontáveis

Porque se nos permitiu a veste precária da fortuna

 

Para em avesso, dela nos desnudar nesta desordem

Nesta febre de recordações irreplegíveis e de caos

Homem imperfeito que sou, construo o meu lamento

Ao som de oboés e violinos, a nota final dos suspiros

 

                                         Capítulo II - Inconformismo

 

Indago ao universo se era justo o tanto que eu perdi

Porque me fazes aplaudir, pois o que quero é chorar

Será justo a memória de tanto júbilo restar sepultada

Os beijos desenfreados, os desejos saciados, o amor

 

E a pior parte desta realidade sombria e sem sentido

É a palavra bem-cuidada perfumada, polida, deferente

Trazida por quem nunca teve estima por nosso brilho

Porém lá fora, a chuva não cessa e as vidas persistem

 

Calar-me-ei, e a cada dia, fingirei poder estar contigo

Com quem bastava um olhar, mas agora é justo falar

Pois pela manhã, a gota d’orvalho adormecida na relva

Evaporar-se-á, como quem morre lenta e docemente

 

Não como tu que foste tão abrupta e violentamente

Ah, quando será que o relógio regressará para ontem

Mesmo que eu não ouça as ondas do mar pela neblina

Ou que o sol não brilhe, mas reste um tênue sinal de ti

 

Além dos muros de partidas e chegadas, vida e morte

Muitas luzes e sombras se confundem dentro de mim

Fazendo-me acreditar, enfim desperto, q’esta tristeza

É só parte de um sonho ruim e à noite tu regressarás