I
ATO
O
segredo da ausência se faz duma presença disfarçada Que pulsa dentro de
nós como se fosse um afago perdidoCom qual tentamos segurar
um ao outro para estar juntoMais
que pela fala, que por aromas, mas os sons coloridos
O
segredo da ausência se faz duma presença disfarçada
O
segredo da ausência é a imagem que se vai pela portaEntre
as luzes matinais e que vem pela fresta na janela Levando consigo a
sombra e deixa um rastro de perfumeEm todos múltiplos detalhes do que restou da ausência
O
segredo da ausência está no vago reflexo azul do
céuQue ao entrar pela
janela vê o olhar profundo e solitárioDaquele que busca em
silêncio a contemplar folhas friasEssas
quais u’a breve brisa arrasta num vai
e vem dolente O
segredo da ausência na minha visão é caos que não aclaraÉ
o pássaro agitado batendo suas asas e cantando a solidãoOlha
às pálidas e diminutas migalhas que engole como fosseUm
banquete de melancolia, de acenos
ocultos
e de angústia O
segredo da ausência é o que turva minha visão é a agoniaQue
impede o fluir do pensamento como um eco de espantoÉ
o que tenha restado da noite finda nas
memórias opacasdo
prazer que um dia distante nos iluminava a madrugada A
casa ainda guarda os passos em sua face, guarda os sonsde
dois seres fundidos em uma só sensação qual um carinhoQue
se confunde com raio de luz que leva a toda a plenitude II ATO O
segredo da ausência é o não canto das aves me alegravaPelas
manhãs ou atinge a essência de querer quem deixousuas marcas
espalhadas pelos objetos que lhe absorveramA
falta e, taciturnos, vão repousar no fundo d’um armário O segredo da
ausência estaria, em princípio, na distânciaE
é a essência
que
cada
coisa
revela, distinta do que veriaO
olhar de um
filósofo, do geômetra ou do poeta e não háUma
fórmula estática ou uma forma pulsante e consciente O segredo da
ausência faz tua falta viva e traz no âmagoA dor que me faz
resistir aos apelos mais fortes da noiteTrazendo como medida
os laços do silêncio e do invisívelO
oblívio de outrora refletido no negrume do "não" em mim O
segredo da ausência está em que nunca tive alguém igualOu
desigual, a verdade nua e crua, reside em que jamaisEu pude me sentir
pertencendo a qualquer outra pessoaNem
sonhar me foi legado, apenas o chão de terra crestada O segredo da
ausência está em minhas palavras desoladasQue
tentam reconstruir a cintilância de tua presença qualNa
química da real transmutação, mas esgotam-se as horasE
sequer pude arranhar o afável prazer que teu ser já deu O
segredo da ausência está no interior destas trevas que tuaIda
provoca, tento ser
um deus para num clarão azul, vencerO
tempo, transpor o movimento, criar sons até tê-la
de novo
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