Sou
um mundo em mudança, despido de
pudores de formas
Deito
palavras no
papel sem pensar se um dia serão poemas
O
tempo se move contra o tempo, atrai as
horas como o imã
Que
atrai o metal que compõe
as penas das canetas baratas
Mas
não atrai aos átomos de ferro que dispersos no sangue
Que
me percorre as veias, lenta ou rapidamente em silêncio
Assim
aprendi que a soma das partes nunca é igual ao todo
Debruço
meu ouvido sobre o peito dela
e deixo-me sonhar
Até
o orvalhecer da
emoção que
se plantou p’la noite fria
Manipulo
os verbos, tal as tardes ao vento
entre pinheiros
Silvos
que ecoam pelo ar, carregando os aromas das resinas
Enquanto
conservo a imagem de seu rosto entre as gavetas
Da
memória nomeadas com:
ouro, prata, estanho e chumbo
Não
pela geografia da face, mas pelo
brilho de sua ausência
Escrevo
estas linhas em
vapor d’agua recolhido nas nuvens
Gotas
de brilho um dia derramadas num longo véu chuvoso
É
da chuva que se faz um oceano, tal as ondas de sua pele
E
então minha mão
a auscultar a sua pele, tal quem navega
Um
navio em rumos impensados
e nela naufraga
e renasce
Em
meu voo de fênix, fiz da distância
uma passagem breve
Tão
breve como breve voa o
meu mais fugidio pensamento
Assim
os dias se transcorrem guiados por seus movimentos
Nas
batidas do coração
diferenciadas por ouvir seu nome
Sigo
sua voz na noite qual
o cão ao cheiro entre as sombras
À
espera do amanhecer, pois a vida é contínuo amanhecer
Palavra
a palavra que se
incendiam desde o fundo da alma
Para
convencê-la da imensa paixão escrita na
tinta noturna
Seguirei
com ela, deixarei
me levar pela emoção ao infinito
Mesmo
que a esperança se disfarce de solidão, a chamarei
Por
todas as longitudes só para fazê-la estrelar novo brilho
O
amor caminha n’outro
calendário, por outros itinerários
Ouça,
minha namorada,
a música destes versos do surreal
Poesia
que não vem para o café ou essas
coisas tão triviais
É
no vinho tinto e no absinto que
se abrem janelas
ao mundo
Condenso
o segredo das sombras naquilo que me faz liberto
Já
se vão setenta e um outonos desde um dezoito de maio
Onze
primaveras desde
que morri e renasci para novo voo
Foi
contemplar a
morte face a face que incitou na escrita
Foram
lições exatas, silêncios suficientes, princípios e fins
Na
real, aprendi que é a
distância o que mais nos aproxima
Sei
que ainda há inúmeras páginas brancas, fugazes à espera
Dos
sonhos que me povoam,
ao vento que sopra nos trigais