segunda-feira, maio 18

Noturno 7.1

Sou um mundo em mudança, despido de pudores de formas
Deito palavras no papel sem pensar se um dia serão poemas 
 O tempo se move contra o tempo, atrai as horas como o imã
Que atrai o metal que compõe as penas das canetas baratas
Mas não atrai aos átomos de ferro que dispersos no sangue
Que me percorre as veias, lenta ou rapidamente em silêncio
Assim aprendi que a soma das partes nunca é igual ao todo
 
Debruço meu ouvido sobre o peito dela e deixo-me sonhar
Até o orvalhecer da emoção que se plantou p’la noite fria
Manipulo os verbos, tal as tardes ao vento entre pinheiros
Silvos que ecoam pelo ar, carregando os aromas das resinas
Enquanto conservo a imagem de seu rosto entre as gavetas
Da memória nomeadas com: ouro, prata, estanho e chumbo
Não pela geografia da face, mas pelo brilho de sua ausência
 
Escrevo estas linhas em vapor d’agua recolhido nas nuvens
Gotas de brilho um dia derramadas num longo véu chuvoso
É da chuva que se faz um oceano, tal as ondas de sua pele
E então minha mão a auscultar a sua pele, tal quem navega
Um navio em rumos impensados e nela naufraga e renasce
Em meu voo de fênix, fiz da distância uma passagem breve
Tão breve como breve voa o meu mais fugidio pensamento
 
Assim os dias se transcorrem guiados por seus movimentos
Nas batidas do coração diferenciadas por ouvir seu nome
Sigo sua voz na noite qual o cão ao cheiro entre as sombras
À espera do amanhecer, pois a vida é contínuo amanhecer
Palavra a palavra que se incendiam desde o fundo da alma
Para convencê-la da imensa paixão escrita na tinta noturna
Seguirei com ela, deixarei me levar pela emoção ao infinito
 
Mesmo que a esperança se disfarce de solidão, a chamarei
Por todas as longitudes só para fazê-la estrelar novo brilho
O amor caminha n’outro calendário, por outros itinerários
Ouça, minha namorada, a música destes versos do surreal
Poesia que não vem para o café ou essas coisas tão triviais
É no vinho tinto e no absinto que se abrem janelas ao mundo
Condenso o segredo das sombras naquilo que me faz liberto
 
Já se vão setenta e um outonos desde um dezoito de maio
Onze primaveras desde que morri e renasci para novo voo
Foi contemplar a morte face a face que incitou na escrita
Foram lições exatas, silêncios suficientes, princípios e fins
Na real, aprendi que é a distância o que mais nos aproxima
Sei que ainda há inúmeras páginas brancas, fugazes à espera
Dos sonhos que me povoam, ao vento que sopra nos trigais