segunda-feira, outubro 19

Profecia do Poema Vespertino

 O poema que nascer pelas tardes de outono
Virá para eternizar palavras nos seus versos
Contando do que ouviu dos lábios do vento
Já secou o orvalho que molhara as floradas
Lágrimas e memórias, antigos sons de harpa
Enquanto sigo na busca do gesto esquecido
Que pertence só aos corpos macios e gentis
Nos quais existe viva a eterna alma feminina
O poema vai nascendo, para iluminar a noite
Se tem a cor da aurora, o sabor é de poente
Conquanto nasce por mim, não me pertence
Escreve para homenagear nomes esquecidos
Até mesmo os anônimos de portos distantes
Segredos de nossos desatinos quase infantis
Que fulguraram em nosso coração sonhador
E fizeram poesia do que seria apenas palavra
Os versos do poeta são feitos de eternidade
Morrem toda noite, renascem ao amanhecer
Que sussurra enigmas no silêncio vespertino

Nas Pás Do Moinho

 Chegavas pela última palavra enquanto a tarde se fazia noitinha
E tua chegada era qual um sopro da brisa vespertina dos verões
Mas, se a morte jamais ergueu o véu que agora te oculta de mim
É que tu não morreste, eu é que morri nesta fábrica de tristezas

O peito trespassado sob os céus amargos que só outono em abril
Pois tu foste cumprir o silêncio do adeus, deixando-me o desterro
Eu sei que as pás do moinho da vida devem para sempre se mover
Girando a mó mesmo sobre as preciosas memórias, reduzidas a pó

Volvendo em desertos a terra que antes era fértil e de promessas
Não, não morre quem partiu, morrem aqueles quem um dia tocou
A quem restará somente essa saudade dolorosa e nostalgia aguda
Sou tão parco sem ti, sou pedra sem brilho, num mundo só de dor

** recuperado 2015


As Rimas de Um Adeus

 Claras
Caras
Raras
Diz-me porque paras
Tuas
Ruas
Nuas
Neste sonho flutuas
Enganos
Insanos
Anos
Quais teus planos
Cores
Flores
Dores
Avise-me quando fores
Meus
Teus
Apogeus
E assim disse adeus


** recuperado de 2010

De Todos Os Ocasos De Setembro

 Como poderia perdê-la
Se nunca a encontrei
Não toquei-lhe meus dedos
Nem lhe fiz um afago
Não caminhamos pela cidade
Não pisamos a relva
Nem sabemos a cor
Do ocaso de setembro

Como é possível perdê-la
Se nunca pude vê-la
Se meus braços não a alcançam
Na raiva desta ternura remota
Ou em minha alegria profunda
Da esperança de conhece-la
Ela viverá eterna em mim
Num ocaso de setembro

Como falar em perdê-la
Se dela só conheço a fala
Se não lhe senti o calor
Nem o doce dos lábios
Nem o perfume de lilases
De sua tez que não toquei
Mas que habita meus sonhos
De todos ocasos de setembro

**recuperada de 2010

O Acaso Traz A Revelação

 

Há no ar um quê de espanto nas linhas do teu rosto
Já não te é tão simples sorrir como sorrias entre nós
Quando o silêncio dava uma pausa no ruído da cama
Eu, mendigo, pedia tua atenção, me querias o corpo
A vizinhança, naquele pequeno lugar, nos espreitava
Ao passo que eu cuidava de crisântemos na varanda
Talvez eu soubesse que não era amor, mas só ficção
Mas no cintilar do luar, trazia estrelas ao teu sorriso
Eu te supunha tão especial e hoje nada nos distingue
Mendigas minha emoção, eu não a tenho, sei que dói
Mas tu não viste, na tua vez, quanto me doeu um dia
Fomos anônimos na multidão, nunca nos pertencemos
O rastro de nossos passos na areia a maré já apagou
Do pouco que restou, só essa foto, que tu guardaste
A fingir um fluído imaterial, um remedo de esperança
Tão imaterial, que nesta vida, jamais irá se condensar
O acaso, um dia, me revelou que teu querer era irreal
E eu aceitei a vida assim, nem sei a que te abri a porta
Nem aspiro mais a ser herói de nada, ou te fazer feliz
É tua vez de aceitar, não há luar, não há flores a cuidar

**recuperado de 2012


quarta-feira, outubro 14

Cego, Surdo e Mudo

 De repente o poema irrompe como uma flor violenta
Como estrela cadente desperta um choro convulsivo
Daquele ser, antes jacente como uma estátua pétrea
                                Olho
Por
                                                                             Olho
Nesse silêncio esmagado pela chegada do crepúsculo
Leva tantas palavras impronunciadas, na boca calada
De tantas ideias não pensadas que orbitam sua mente
                               Dente
Por
                                                                           Dente
E num átimo tudo aflora, qual um festival, irrefreável
A se derramar sobre as finas linhas d’antes imaculadas
Letra após letra a pena hemorragicamente as desenha
                               Dia
Após
                                                                                 Dia
Outros antes de nós, arquearam num heroico esforço
Tantas chagas nos pulsos por nem um minuto de glória
A vida posta em prova se esgueira entre o amor e a ira
                                Cega
Surda
                                                                               Muda
Neste meu mundo toda ascese, palavras e ódios breves
Se não podemos ser felizes que a tristeza seja exemplar
Tão pouca paciência, no meu relógio já é hora de partir


** recuperado de 2013

Quando o Medo É Seu Mestre

É a última vez trago à tua presença meus poemas descalços
Tal última homenagem às frases interrompidas fora de hora
À luz que a tua fuga apagou com vocábulos pálidos de medo
O poeta, tolice, que esperava a lucidez foi deixado à espera

Sem poder recriar a aurora para brilhar infinita no teu olhar
Restou na distância à deriva, sem terçar a alegria das tardes
Sem o amor que desejava plantar no terreno fértil do futuro
Aonde reside todo o bem daqueles que ainda têm esperança

Mas escolhestes melancolia, a angústia do que não se realizará
Eu queria que voasses nas asas da ave feita de sonho e de luz
Que seguisses sobre campos de flores perfumados de ternura
Um mundo que não coubesse os cinzas do aço e do concreto

Egoísta escolhestes, no entanto, nos legar caminho do silêncio
A ausência de noites sem desejo que sopra no vento haragano
Para nos quedarmos nos porões da vida com lírios de saudade
Qual se fosse essa a única medida que restasse a todos poetas

Não farás com que este poeta te esqueça no tempo implacável
Apenas tu viverás na sombra noturna crendo acostumar ser só
Oblivias que a solidão é viva e cresce a cada palavra não escrita
Um dia a ternura negada silenciará o amor, mas não finda a dor

 **recuperado de 2013