quarta-feira, julho 22

Ventos de Uma Mudança

Decidi apagar todas as lembranças

Cada uma delas se irá embora

Não há vento que as possa devolver

Pois até mesmo os lugares nossos

Posso dizer que não existem mais

Trocarei todas as palavras ditas

Pelos silêncios impronunciados

Sobretudo qualquer jura de amor

Dará lugar ao vazio consumidor

Os olhares que um dia trocamos

Serão, amanhã, apenas indiferença

Só não apagarei nossas pegadas

Pois essas a tempestade já varreu

Fecho cada porta para não abrir

E as janelas permanecerão cerradas

Para não ouvir passos na calçada

E imaginar que tu enfim voltas

Nesta noite se acaso eu sonhar

Não será tua face que me visitará

O céu da noite terá novas estrelas

Na alvorada outro sol brilhará

Mas não imagines que isto é o fim

Pois é o dia que recomeço a viver


Em Busca do Último Alento

Enfim o dia avança à noite, foi um dia improdutivo

O sonho não o levou ao auge, como podia imaginar

Velhas imagens se lhe emaranham entre os cabelos

Estão absolutamente desgrenhados e até raivosos

Essa noite lhe aparece em dívida de algo brilhante

Parcas frívolas estrelas se desnudam entre a névoa

Ah, tão distantes daquelas amigas de dias passados

Que honestamente cintilavam no céu azul profundo

A lua se oculta também, a noite não realiza o sonho

Ao fio das horas, segue a caminhar pelas ruas vazias

Sem destino, anda acompanhado de seus fantasmas

Não têm as chaves das portas que irão trazer a paz

Parece que a madrugada sente e também se retrai

Entre olvidados suspiros, entre um passo e outro

Entre um batimento e outro, o coração sussurra

Enquanto o vento rodopia as folhas caídas no chão

Na quietude das horas, conjectura parar ou seguir

Não era assim o final do dia, a noite não era isso

Por fim ao dobrar a esquina, encontra um alento

Desenham-se na calçada, traços paralelos de luz

Um blues se ouve no ar trazendo tênue esperança

Sim um bar, o ponto final da solidão, enfim aberto

 


segunda-feira, julho 20

Lamento D'uma Cidade Agonizante

 

Habitei as margens d’um rio distante desses do centro

Canalizados, retificados, regrados. Não os desse tipo

Vivi entre rios letárgicos que se esgueiram nas pedras

Sob os eucaliptos perfumados onde cantam os sabiás

Arrastando os fragmentos do que resta sob os luares

Uma lembrança prateada nos meus olhos ainda brilha

A som de tais madrigais, caço inspiração aos poemas

Pois das matas e dos pássaros quase nada ainda resta

Na ponta de minha caneta desenho corredeiras azuis

Palavras desenfreadas, teses e antíteses e muito além

Pois existir é coisa de extremos, nada morno, insonso

Tampouco homogêneo, opto pelas miragens violáceas

Coleciono as palavras abandonadas em outras bocas

Que quase todos os ouvidos se recusariam a ouvi-las

Como queria o verde onde simples fábulas prosperam

Que depois da chuva às cinco, o sol ainda reapareça

Emoldurando o chilreio dos pássaros ao entardecer

Nos grandes centros está a antítese do que é perene

Os rios negros de betume onde se deslocam veículos

Com seus gases tóxicos fazem toda terra aquecer-se

Isolando-nos do contato com a terra, roubam a brisa

Devolve-nos ares calcinados, favorecem desenlaces

Há um silêncio escondido nas entranhas do planeta

Mas não se iluda, luzes violentas atravessam os céus
Tal no tempo que grandes lagartos habitavam a terra

Sem ações nada restará, nenhum regato entre trigais

Lego este poema a quem acredite pode fazer melhor