sexta-feira, agosto 14

Nunca Como a Indiferença

Eu te quero nua ao meu lado no vento da noite

E fazer tremer o chão de casa e seus arredores

Jogar moedas ao alto e ouvir seu suave tilintar

Deixar que isso derrube os altares da hipocrisia

Que pregam que não é belo amar, belo abraçar

Mas que o façamos com elegância e com afeto

Honremos o que perdura nos ecos da memória

Nos jarros de barro que transportamos sorrisos

Nós somos o poema, ah, quanto eu aprecio isso

Tao simples como manter nosso amor intocado

Não ser igual aos indiferentes, os que enganam

Nesta noite, deixe-me partilhar de tua respiração

Vou mergulhar nos teus sonhos, saciar a sede nas

Minúsculas gotas d’água que envolvem tua língua

Tomar emprestada da pulsação do teu coração

E dar ritmo ao meu canto, alento nas tormentas

E no final quando eu partir, festeje não a partida

Mas o conteúdo do amor que vivemos tão intenso

Como a última página do livro lido, não o encerra

Mas é a confissão de haver vez rido, vez chorado

No calor do pôr-do-sol, na brisa da maré da aurora


terça-feira, agosto 11

Cinco Décadas de Poesia

 

Meu corpo triste e cansado não nega estrada

Dentro de mim há uma correnteza irresistível

Torrente que me conduz para qualquer lugar

Esgueirando-me entre as pedras e corredeiras

 

Encontrei os caminhos nos campos de trigais

A bússola de toda uma existência de rebeldia

Em minha pele há cicatrizes de alguns adeuses

Também tatuei risos, olhares e entardeceres

 

Tantas vezes encontrei o amor e tantas parti

Outras vezes embarquei no trem das ilusões

Tudo tão transparente, quão imprescindível

Nunca me entreguei ao álcool e aos inimigos

 

Correm em minhas veias uns poemas cotidianos

O cigarro que nunca fumei, no final do amor

Por todas vezes quais não arqueei a espinha

Qual o pássaro, que caído, não deixou de voar

 

O poema é o que escapou de algum resquício

De alguma dor antiga que já caminha ao final

Que ao contrário de transporta-la na carteira

Eu faço é saudar o privilégio de ser eu mesmo

 

Tratei o perigo como algum utensílio de casa

As facas ou os ponteiros esses dois farsantes

Dos quais, nunca fiz esforço em me esquivar

Forjaram minha verve de poeta e o meu verso

 

Cinco décadas e o amor ainda é alumbramento

Despido, selvagem, é assim que sigo a escrever

segunda-feira, agosto 10

De Onde Nasce a Solidão

A esta hora, a poesia não pulsa nas vitrines esquecidas

De um tempo de relógios sem ponteiros, sem conteúdo

A sede aguarda que um cântaro cego encontre a água

E entre todos esses silêncios a palavra abre um abismo

Em que a angústia é a ponte precária entre seus lados

Sou um pássaro sem rumo que voou pela noite enorme

Meu poema não canta os tratados, nem os compêndios

Canta a pulsação que existe entre meus lábios e os dela

Nas histórias que se findam com a palavra que as inicia

A solidão não germina nas ruas e sequer pelas cidades

Mas naquele ponteiro ausente que trespassa o silêncio

A solidão nasce em nosso íntimo, quando a hora passa

Meu poema não impõe a ordem ou põe a vida no prumo

Escrevo agora aquilo que no passado não foi permitido

As canções desoladas que sustam a mudez da estátua

Tu, personagem dos meus sonhos, como te queria aqui

Deitada neste peito ferido pelo punhal da tua ausência

Queria-nos caminhando descalços na areia à beira mar

Mas as taças estão vazias, largadas sobre a mesa da sala

Acendo os lampiões, sem o que não pode criar poesias

Refaço meu alfabeto, construo minhas proparoxítonas

Para te sobressaltar com os meus versos despenteados

Escrevo agora, pois posso pousar naquela janela aberta

Como se pudesse te ver surgir entre as linhas do papel