quinta-feira, março 12

O Não Paradoxo

 

Dias e dias afora
Tão longa a estrada
A distância encurta
É no silêncio bruto
Que tua voz ecoa
É na noite sem luar
Que brilham estrelas
Quanto mais te cales
Tão mais que dizes
Quanto mais revelas
Mais o segredo flui
Quanto mais ocultas
Mais mostras de ti
 Quanto mais foges
Mais te encontro
Quanto mais me amas
Mais te amo também

 

Novomundo

 

Terá o mundo outra chance depois do que lhe fazemos
Teremos outra vida depois desta vida, tão vilipendiada
Tudo começar da infância, lá longe, em estradas barro
Cabelos fartos, corpos esguios a saltar pedra em pedra
Neve da qual as crianças farão bonecos, tão efêmeros
Qual foi efêmera esta passagem descuidada pela terra
Eivada de ausências, mais de adeuses que de chegadas
Aprenderão nossos olhos, não serem então forasteiros
Assim enxergarem que todas cores são de humanidade
Olhar o próximo sem sobressaltos, sem qualquer temor
E saberemos falar numa só língua sem construir babéis
Elaborada acima dos olvidos, de terem ouvidos ou não
Mesmo que o mundo seja outro, de menos crepúsculos
Onde seja sempre alvorada, passadas horas e anoitecer
Onde meu poema seria sem angústias, sem melancolias
Seria ainda flor, contudo liberto de todos os espinhos
Será que tu lá estarias, assim como estivestes por aqui
Tua pele macia, expressão cintilante e caminhar airoso
Teu olhar e a risada franca, serias ainda assim a mesma
E de tudo que mudar, que não mude meu amor por ti

sábado, fevereiro 28

A Invenção do Mundo

 

Ontem sonhei e lembro reinventar o mundo só para ti
Ocupas-me a memória tal hera ocupa muros no jardim
Um jardim onde quer eu olhe, vejo tua imagem a sorrir
Pois no mundo que inventei não há mentira ou maldade
Sequer há invernos e todas as estações são inventadas
Lá u’a andorinha solitária faz os verões mais candentes
Pérola de meu sonho oculto iluminaste a minha razão
Inventei tu e eu a caminhar pelo campo na noite de lua
Só para admirar teu corpo de infindos vales e colinas
Foi somente pra nós que criei esse mundo todo novo
Onde as folhas das árvores farfalham à brisa da tarde
E, caídas pelo chão do parque, voam em redemoinhos
Da cabana à beira do lago, a fumaça branca vai ao céu
Junta-se em grupo e forma brancas nuvens ao meio-dia
No meu mundo tudo lembra de ti, nem carece inventar
Caminhei até as cascatas douradas como teus cabelos
Colhi pra ti, um efêmero buque de narcisos vermelhos
Retorno à cidade e todas calçadas ecoam teus passos
Eles pisam na minha direção, meus braços te esperam
Para te acolher, se o céu em véu negro negar estrelas
E se mesmo o luar, por pura inveja de ti, não aparecer
Aqui não há guerra, desamor, nuvens de tempestade
Meu mundo não chove, caem lágrimas felizes de te ver

 

 

terça-feira, fevereiro 24

2126 - Lembranças do Amanhã

 
Passados cem anos que atitude esperar diante do poema
Letras tão hábeis outrora de arrancar lágrimas e sorrisos
O que se pode oferecer se nem a cinco minutos sabemos
Serei um gênio ou somente mais um entre os esquecidos
Como a volúpia esmaecendo débil após o transe do gozo
E nem porque mal redigido, na sua conveniente estética
Posto que feito às custas de sangue, suor e de lágrimas
Mas porque nada mais é durável nas páginas da tal web
O poema será o cavaleiro, pois, despido da sua montaria
Obrigado a caminhar a pé todos os caminhos do existir
Por onde caminharão as gerações sem peitos maternos
Em nome de duvidosa estética que a internet preconize
Sem o acolhimento de que o poema é sua doce memória
Até quando fará sentido o sacudir de punhos cerrados
E o violar do silêncio como só poema fora um dia capaz?
Acredito em ti que “Bilac” sequer tenha sido esquecido
Mesmo visitando há mais de cem as “Colombos” da vida
Todavia sem os malditos ‘influencers’ e ‘blogueiros’ vãos
Sem os arautos do esquecimento e do imediatismo fútil
Onde as asas de pássaro do poeta não têm mais sentido
Nem o prodigioso cheiro de tinta do livro recém aberto
Vivemos um tempo de equilíbrio instável das fake-news
Estéril de emoções e afagos, pleno de lágrimas e olvido
 
 

terça-feira, fevereiro 10

A Pitoresca Saga de Eleutério Paixão

 
Apolinário cabelo desgrenhado, de terno despareado
De uma linguagem subtraída da compreensão comum
Guardou na gaveta todas as perguntas irrespondidas
À margem da vida, já rumando pra antessala da fome
Debaixo da sombra que a melancolia coletiva definiu
 
A alma de quem caminha só entre moinhos sem ventos
Vive alheia a quem ou o quê nesse inferno de lágrimas
E colher as frutas amargas que, todavia, não semeou
Essa espera infindável de antes desespero que solidão
Como é doloroso morrer, quando se permaneceu vivo
 
Não é o medo à beira do poço, mas de erguer-se e ser
Porém apenas um monte de carne e ossos que ambula
Ouvir a batida densa do coração, tudo mais é silêncio
Imaginar-se arredio a tudo e ainda ao alcance da vista
À revelia de tudo que acontece, mas não do que sabe
 
Isolado no abandono fatal, do qual não pode escapar
Sei que todos nasceram separados, mas nem por isso
Que se deve dobrar a aposta e seguir assim segregado
Por caminhos onde a esperança nunca tenha trilhado
Habitante de uma festa imaginária ao alucínio do dia
 
E naquela viela de casas alquebradas e tijolos a vista
As luzes tremeluzentes emprestam um ar agourento
Como se algo se fizesse permanentemente a espreita
Tão longe se vão os coros das cantilenas dominicais
Estações que não sentia na boca esse hálito amargo
 
Agora tão só suporta, resoluto, todos esses subsolos
Com a nitidez de quem, reuniu os laivos de coragem
Entre um resto de encarnação e assobia uma canção
Caminha entre uma lágrima e outra, sapato de couro
Que arrasta sem ritmo, buscando o ar que lhe falta
 
Pensa que no fim do mundo haja u’a chamada geral
Aprumará o peito, metade angústia, metade rebeldia
E qual último morador do silêncio, ensaia um sorriso
Vai altivo augurando a vinda de tempos sem guerras
Leva na mão o último exemplar d’um livro de poemas

quarta-feira, fevereiro 4

Beira-mar

 Quando o poema
Aparece na noite
E tudo é o caos
Olhares planos
Sentimentos curvos
Céu sem luar
Nuvens a trovejar
No solitário poeta
Tudo transmuta
Em sua desordem
Calando o silêncio
O vento flácido
As estrofes de poesia
De versos sem rima
Para curar feridas
Secar lágrimas
Semear estrelas
Revoar os pássaros
No beijo salgado
De viver a beira-mar


Reforma

Quando a luz paira sobre a palavra, primeiro a geometriza
Nenhum enigma ou seita permite ver a sombra senão a luz
Dessa mesma operosa arquitetura, germina o canto poema
Com a força do aço se organiza e constrói com cintilação
E o faz a transmutar o equilíbrio do pensamento em ação
Éter que afronta o sólido, opostos, porém não se afastam
De uma mesma trama universal, a fuga dos sonhos ao real
Uma só verdade, contudo observada de distintos prismas
 
O poema desloca o fluxo da imaginação ao que é palpável
Confere ritmo à beleza que exalta, em feixe alado de cor
Mas dela se desprende e modifica a contemplar a solidão
Infundindo-lhe alento, até em ponderações mais gravosas
Pois, em seu fio aguçado de metal, é manifesta harmonia
A luz poética mergulha no recôndito, se conjuga no ouro
É qual argila ao oleiro e o fole que atiça fogo ao ferreiro
No entanto tão fugaz, ar e basalto em momentos ínfimos
 
A palavra quando emerge na noite, rompe todo equilíbrio
Condensa em mito, belo e cor o que poderia ser o vazio
Dando à visão o esplendor que desponta com perfeição
Para desenraizar da alma amores insonsos, frios e finitos
Torna insignificante o tempo que se conta no calendário
Elide o negror da surdez, apaga caminhares infrutíferos
Na noite a música suave, leva o pássaro a voar novamente
Afastando o silêncio, reacende o eterno sabor pela vida