segunda-feira, julho 20

Lamento D'uma Cidade Agonizante

 

Habitei as margens d’um rio distante desses do centro

Canalizados, retificados, regrados. Não os desse tipo

Vivi entre rios letárgicos que se esgueiram nas pedras

Sob os eucaliptos perfumados onde cantam os sabiás

Arrastando os fragmentos do que resta sob os luares

Uma lembrança prateada nos meus olhos ainda brilha

A som de tais madrigais, caço inspiração aos poemas

Pois das matas e dos pássaros quase nada ainda resta

Na ponta de minha caneta desenho corredeiras azuis

Palavras desenfreadas, teses e antíteses e muito além

Pois existir é coisa de extremos, nada morno, insonso

Tampouco homogêneo, opto pelas miragens violáceas

Coleciono as palavras abandonadas em outras bocas

Que quase todos os ouvidos se recusariam a ouvi-las

Como queria o verde onde simples fábulas prosperam

Que depois da chuva às cinco, o sol ainda reapareça

Emoldurando o chilreio dos pássaros ao entardecer

Nos grandes centros está a antítese do que é perene

Os rios negros de betume onde se deslocam veículos

Com seus gases tóxicos fazem toda terra aquecer-se

Isolando-nos do contato com a terra, roubam a brisa

Devolve-nos ares calcinados, favorecem desenlaces

Há um silêncio escondido nas entranhas do planeta

Mas não se iluda, luzes violentas atravessam os céus
Tal no tempo que grandes lagartos habitavam a terra

Sem ações nada restará, nenhum regato entre trigais

Lego este poema a quem acredite pode fazer melhor




sexta-feira, julho 17

A Teoria Infundada das Almas Gêmeas

 

Caminho só pelas ruas e pensamentos me aturdem

Sobre mim, um céu acinzentado de nuvens escuras

Caminhar assim me aguça memórias mais distantes

Descubro que nem bem recordo como te conheci

Chego a preferir pensar te conhecer desde sempre

Como se fizesses parte do âmago desta minha vida

A mente racional repugna a ideia, forço a memória

Mas ser quem tu és, tão homogênea nos meus dias

Chego a criar a tese que foste criada só para mim

Mas te revelaste na noite do céu azul mais profundo

Sob mil estrelas em minha tresloucada imaginação

Atrevo-me a arriscar descobrir outras lembranças

Logo me surgem teus olhos, tais esmeraldas verdes

Que me fitavam quando te tocava e fazíamos amor

Senti um calafrio como entrasse n’outra dimensão

Nem sei como aceito tais imagens tão vivas em mim

A dor que sinto faz tão difícil equilibrar a respiração

Posto que sei que nada disso reside no mundo real

O contra-argumento de toda essa tese é que foste

E não mais voltaste, gravando em negro meu existir

Mas eu sigo aqui na noite e tento me asilar da dor

Imaginando que numa esquina o tempo volte atrás

E uma luz se irradie, mostrando o sorriso que via

Quando o mundo sabia amanhecer ao fim do amor