terça-feira, setembro 15

Uma Cicatriz Indelével

A hora chega e caminhastes sem cerimônias, sem adeus
Pois o amor não se despede, senão nossos corpos vazios
Onde residirão tantas lembranças de tudo que passamos
Não reside no abraço que nem fora dado, no aceno frio
No entanto aí está, circulando com o sangue pelas veias
Na imagem que, pela última vez, se afasta até esmaecer
Observo os corredores inabitados, me são tão sombrios
Uma música resiste como alguma semente inconsciente
A revelar toda uma história qual se semeou no passado
Sento à beira de tua lápide, onde verto grossas lágrimas
Levaste tudo contigo, nossas manias e a nossa loucura
Coisas que só a nós teriam sentido e doem tal cicatrizes
Recordo do despertar atônito, a voz árida a me noticiar
Uma voz sem dignidade, sem harmonia, sem compaixão
Ninguém por testemunha, ora devo viver a tua ausência
É como se o tempo enfim mostrasse, não há eternidade
Essa verdade que queremos negar, visão da fragilidade
O lento verdor, que imaginamos arquitetura inacabável
Não há nada de perpétuo, o convite só vale para entrar
Nossa visão de vida é algo primitiva, curta e não vemos
O teu nome ressoa na minha solidão, nas asas partidas
Sempre houve um plano, mas não posso ouvir silêncios
Sigo eclipsado de tua presença, sob um sol sem brilhar
As palavras não explicam as distâncias no meu interior
Contudo as escrevo, imaculadas, num parêntese de mim


segunda-feira, setembro 14

Para Ser Dono dos Caminhos

A sombra assoma meus olhos, solidão desabitada pelas estrelas

A imagem da amada permanece na lembrança entre assombros

Os cães ladram na distância, tão longa quanto o primeiro beijo

O mundo cotidiano é amargo, a jornada dói neste peito ferido

Como as papoulas feridas no crepúsculo dos ventos invernais

Queria ser o pássaro que se esquiva dos cadeados dos tempos

O conhecimento é uma herança profusa de espinhos selvagens

E assim sigo de memória em memória a me queimar por dentro

Fazendo-me renovado a cada entrega, quando o céu fica azul

Derramando as tintas sobre o papel sem orgulhos ou soberba
Meu poema é o que nomeia, o que me faz acreditar na beleza

Como uma singela dança de borboletas ao amanhecer na relva

Remanesce no sonho uma mescla rara de teu cantar ancestral
Qual a voz dos anjos na brisa esquiva pelas árvores do bosque

Enquanto a aurora se aproxima lenta para evaporar o orvalho

Antes que o sol se anuncie para dissolver a névoa dos ninhos

Escrevo para me lançar em voos maiores, adquirindo a noção

De como fazer espirais pelo céu, poder mergulhar nas nuvens

Pois quero crer não estou sozinho nos subterrâneos da noite

Escrevo meu livro dos dias, meu próprio caminho das pedras

Tenho um presságio que voltarei a te encontrar pelas veredas

Para chegarmos num lugar que o tempo não valha uma moeda

E cada segundo ao teu lado demore uma eternidade a passar

 

 


sábado, setembro 12

O Silêncio Imita a Inverdade

Compreendam-me bem claro, o poeta não caiu das nuvens

Estamos na época da física nuclear e o poema segue vivo

Vão-se muitos séculos desde a Grécia, onde eram deuses

Ora que a camada de ozônio se esvaiu, são tempos outros

Tempos que não há ídolos, apenas vocábulos intencionais

Invadidos pelos e-books que desnudam os livros em papel

Proibições de antemão quando se queria uma poesia nova

O poeta é o homem cotidiano, no bar, na rua, nas praças

Agora, lavram as terras alheias, têm filhos que os renegam

Preferem ser corretores da bolsa, políticos ou algo assim

Daí que eu não escrevo por demanda a quem pague mais

Não tenho intento de iludir ninguém, o verso é abstrato

Não para as cadeiras acadêmicas, ao certo, diriam alguns

Mas esses sofrem é de silêncio, não porque falte a palavra

Porém falta a ideia que a respalde, qual espelhos sem aço

Não vim ditar moda, mas quero ser o reflexo desta época

Escrever poemas de rebeldia, para violar os equivocados

Para eludir o sujo e o caótico, refugiados das inverdades

Para ser poeta bem adaptado a este país, carecia mudanças

Gostar do som de pandeiros, entanto prefiro as guitarras

Quero ver os bosques vivos e não as árvores derrubadas

Imaginar a vinda da primavera, mas o inverno vive em mim

Caminho até a esquina e as sombras enlaçam em meus pés

Admiro a noite, a inquietude que se envolve em seu negror

Que ninguém a pode explicar e tampouco se pode possuir

Recosto-me e vejo a noite se instalar, o vento é um abrigo

Os faróis estão acesos, sei que olhos repentinos observam

Antoine um dia disse que se vê bem com os olhos da alma

Talvez se eu tivesse um quê dessa ingenuidade irrequieta

Eu seria menos irascível, contudo, sou sentimento bruto

Sou o aço que não se submete à bigorna nem à lapidação

Caminho entre os transeuntes tão iguais, tão previsíveis

Assim se definiu desde o tempo que antecedeu a criação

O poeta é aquele que descobriu a importância de existir