segunda-feira, agosto 17

O Dia Que Eu Partir

O que dirão de mim meus inimigos quando eu me for

Dirão eu sei o quê, pois então, desde já me antecipo

Por certo, críticas e reparos, frutos da maledicência

Pois a vida, com suas dicotomias é exatamente assim

Contudo devo reconhecer, haverá verdades amargas

Vez que nada é absolutamente como esperamos seja

Não, isto não é uma confissão, quiçá uma observação

Vivi independente, a horror dos ratos de duas pernas

Que dirão - sempre disseram - o que eu não lhes diria

Que não levei a vida a sério, que me perdi pelo tempo

Contudo esse tempo me reivindica, para tristeza deles

Jamais deixei que a criança em mim viesse envelhecer

Não escrevi tudo que queria, mas não poupei palavras

Umas cheiram sangue, outras são músicas no ar noturno

Hoje, um dia como outro qualquer, a vida se reinventa

Meus poemas são o melhor que posso oferecer de mim

Como se a vida reiniciasse a cada instante de pulsação

Sempre quis testemunhar as incertezas azuis da noite

Mas guardo a certeza que ninguém vai curar esta dor

É a herança que meus escritos receberam do passado

Aprendi a encarar vaias e aplausos com o mesmo sorriso

 


sexta-feira, agosto 14

Nunca Como a Indiferença

Eu te quero nua ao meu lado no vento da noite

E fazer tremer o chão de casa e seus arredores

Jogar moedas ao alto e ouvir seu suave tilintar

Deixar que isso derrube os altares da hipocrisia

Que pregam que não é belo amar, belo abraçar

Mas que o façamos com elegância e com afeto

Honremos o que perdura nos ecos da memória

Nos jarros de barro que transportamos sorrisos

Nós somos o poema, ah, quanto eu aprecio isso

Tao simples como manter nosso amor intocado

Não ser igual aos indiferentes, os que enganam

Nesta noite, deixe-me partilhar de tua respiração

Vou mergulhar nos teus sonhos, saciar a sede nas

Minúsculas gotas d’água que envolvem tua língua

Tomar emprestada da pulsação do teu coração

E dar ritmo ao meu canto, alento nas tormentas

E no final quando eu partir, festeje não a partida

Mas o conteúdo do amor que vivemos tão intenso

Como a última página do livro lido, não o encerra

Mas é a confissão de haver vez rido, vez chorado

No calor do pôr-do-sol, na brisa da maré da aurora


terça-feira, agosto 11

Cinco Décadas de Poesia

 

Meu corpo triste e cansado não nega estrada

Dentro de mim há uma correnteza irresistível

Torrente que me conduz para qualquer lugar

Esgueirando-me entre as pedras e corredeiras

 

Encontrei os caminhos nos campos de trigais

A bússola de toda uma existência de rebeldia

Em minha pele há cicatrizes de alguns adeuses

Também tatuei risos, olhares e entardeceres

 

Tantas vezes encontrei o amor e tantas parti

Outras vezes embarquei no trem das ilusões

Tudo tão transparente, quão imprescindível

Nunca me entreguei ao álcool e aos inimigos

 

Correm em minhas veias uns poemas cotidianos

O cigarro que nunca fumei, no final do amor

Por todas vezes quais não arqueei a espinha

Qual o pássaro, que caído, não deixou de voar

 

O poema é o que escapou de algum resquício

De alguma dor antiga que já caminha ao final

Que ao contrário de transporta-la na carteira

Eu faço é saudar o privilégio de ser eu mesmo

 

Tratei o perigo como algum utensílio de casa

As facas ou os ponteiros esses dois farsantes

Dos quais, nunca fiz esforço em me esquivar

Forjaram minha verve de poeta e o meu verso

 

Cinco décadas e o amor ainda é alumbramento

Despido, selvagem, é assim que sigo a escrever