segunda-feira, junho 8

O Sonho, o Poema e as Salamandras

 

O sonho e seu duplo é tal a face que se admira no espelho

Têm substância própria que se alça nos meandros da noite

Na sua armadura de aço se mistura com os veios do lençol

E entre as sombras circula no vento até enfim se dissolver

 

É tentar em vão buscar dissociar o sonho do real no poema

Não faço esforço para aceitar que a razão nasce do sonho

Sob a escuridão temos que ter os olhos abertos, ver a razão

Um som angelical se espalha pelo ar e tem aroma de jasmim

 

Mil rubis cintilam a dispersar as frias estátuas do cotidiano

As muralhas da madrugada estendem ante os adormecidos

Mas não há perdão àquele que olha, porém se recusa a ver

Os sinos repicam anunciando a alvorada: é hora de acordar

 

Recolher entre as cinzas os signos que o fogo nos oferece

Para separar as ilusões que se criam entre campos de trigais

Dos enganos gris dos cárceres nas pedras frias do desamor

As chamas geram a longa insônia das horas em sua tepidez

 

O deserto não se consome em si, nem seu olvido de oceanos

Pulsam páginas em areia, louca trama meu coração nômade

O pássaro abre as asas ao vento, rabiscando poemas no céu

Desafiando o mármore pétreo da certeza sobre vida e morte

 

Transmutando as ideias do real e o onírico num feixe azul

E os versos fluem tal como rios indômitos aos olhos da lua

As salamandras emudecidas convivem no seu fogo-alimento

Enquanto os dormentes silenciam na transparência da noite

 

Os dias seguem desertos e a vigília se queda longe de findar

Para findar a tristeza profunda que povoa os crepúsculos

O poema é implacável, em ondas escapa do que seria usual

Entre imagens oblíquas de sonhos, semeiam o acaso de viver

 

sexta-feira, junho 5

Poema para dias sem dor

 

A chuva lavou a cidade por dias em sua faina incansável

Os dias nasciam cinzas, sem fronteiras entre céu e terra

Ah, é difícil despertar em manhãs de horizontes prolixos

De parcas intenções, pouco menos que monocromáticas

Por descuido, o sol rompeu o cinza numa alvorada atrás

Distribuindo cores radiantes sobre todas coisas lavadas

O solário muda as perspectivas, em especial sobre o mar

Ainda quando se põe e a noite vem, conserva seu poder

Iluminando a face da lua, a deleite de poetas e amantes

Caminho descalço sob essas estrelas luzidias à beira mar

Ouço o diálogo das ondas e a areia qual canção de ninar

O que o faço hipotecando silêncio e segredo à conversa

Há tempos que a vida transcorre cercada de amenidades

E o poema se constrói suave, desnudado do substancial

Sua pungência abdicada e latente, envolta em mistérios

Mas sei também, que essa mansidão precede a tormenta

Que conduzirá de volta às palavras desfeitas deste albor

Tão inusitado que se assemelha uma quase ininspiração

Digamos que seja uma trégua, breve regresso à infância

Quando o céu e o mar, deitados na distância eram azuis

segunda-feira, junho 1

Signos de Poesia e Insônia

  Deitei-me já meia noite e a cama transbordou insônia

Como as páginas insones em branco querem a caneta

É assim que existo e resisto em surtos de imaginação

Sou um poeta com hábitos públicos, de porte varonil

Organizo meu teatro, construo o cenário, iluminação

Do início ao fim, tudo sobre o tablado do cotidiano

Encho a mochila com pensamentos, fecho os zíperes

Com violino na cabeça, oboé no peito, flauta nos pés

Faço minha orquestra para seguir o caminho trânsito

A cada dia sigo contra o vento, sigo contra as marés

As palavras escritas me trazem mais letras a escrever

É o resumo taurino d’um pretérito mais-que-perfeito

Vez que não sou perfeito, faço-me auxiliar de verbos

Sujeito oculto faço de minhas orações subordinadas

E assim, construo a vida com gesto, música e palavra

Posso ainda dizer que sou um arqueólogo de sonhos

Que vivem alguns nas sombras outros, porém, na luz

Um manifesto de sangue, meu caminho sem amarras

Assim vou articulando o poema, por tantas palavras

Pois o poema é um ato de lucidez contra os silêncios

Jamais por moedas, mas aplacar Vinicius a murmurar

Insuspeitamente, todos seus poemas aos meus ouvidos

Pois o poema é o milagre do compasso, a vida e morte

Os sinos que repicam nas extremas memórias infantis