segunda-feira, agosto 10

De Onde Nasce a Solidão

A esta hora, a poesia não pulsa nas vitrines esquecidas

De um tempo de relógios sem ponteiros, sem conteúdo

A sede aguarda que um cântaro cego encontre a água

E entre todos esses silêncios a palavra abre um abismo

Em que a angústia é a ponte precária entre seus lados

Sou um pássaro sem rumo que voou pela noite enorme

Meu poema não canta os tratados, nem os compêndios

Canta a pulsação que existe entre meus lábios e os dela

Nas histórias que se findam com a palavra que as inicia

A solidão não germina nas ruas e sequer pelas cidades

Mas naquele ponteiro ausente que trespassa o silêncio

A solidão nasce em nosso íntimo, quando a hora passa

Meu poema não impõe a ordem ou põe a vida no prumo

Escrevo agora aquilo que no passado não foi permitido

As canções desoladas que sustam a mudez da estátua

Tu, personagem dos meus sonhos, como te queria aqui

Deitada neste peito ferido pelo punhal da tua ausência

Queria-nos caminhando descalços na areia à beira mar

Mas as taças estão vazias, largadas sobre a mesa da sala

Acendo os lampiões, sem o que não pode criar poesias

Refaço meu alfabeto, construo minhas proparoxítonas

Para te sobressaltar com os meus versos despenteados

Escrevo agora, pois posso pousar naquela janela aberta

Como se pudesse te ver surgir entre as linhas do papel


sexta-feira, agosto 7

Quando o Poeta Encontra a Estrela

 

Neste caminho não há retorno, ouça o vento a soprar

Vem das distâncias mais desertas onde não há curvas

Um dia desses me torno imortal; serei apenas o nome

Tomo um gole de vinho, a paixão e loucura dos sábios

A doce ventania dos que se descobrem pelo caminho

Tu és bela, és desejo, és o quanto basta para o poema

Só o coração entende essa paixão que a mente ignora

A um só tempo dor de vida e de morte na madrugada

Amanheço sobre o linho e lá fora a névoa se despede

Delirei nessa bruma, metade contexto, metade sonho

Para ir além do impossível, mais que o barco, ser o rio

Para nele navegares eternamente em toda tua nudez

E só nós cruzando a solitude dos campos de lavanda

Só tu me conheces, consegues ir além de meus muros

Onde sei fazer as flores desabrocharem em liberdade

Juntos seremos aqueles que há mil anos sonhávamos

Então me farei pérola e ficarei a noite na tua concha

Serei alegre qual menino num dia de chuva sem escola

Talvez só Deus entenda, dormir a olhar a uma estrela

E ao acordar ela ainda estar encantadora e sorrindo




terça-feira, julho 28

Faço Meu Rumo do Sol

Não, as nuvens não são de algodão, alguém diz

Nem o papel onde registro o poema se faz vela

Que olvides os barquinhos de dobras, digo-lhe

Nada é como já foi um dia. A inocência partiu

Por mais que os poemas enfunem o meu velejar

E minh’alma singre as sonoras estrofes da vida

Hoje complicaram a vida abandonando fantasias

Será que te lembras um primeiro beijo roubado

O sino dominical imprimia uma última badalada

Hoje seriam assédio ou perturbação de sossego

E os cumulus de carneirinhos ao sabor da brisa

Cruzavam o manto celeste quão pacificamente

Ora gravosos vórtices das alterações climáticas

Tempestades que, impiedosas, a tudo destroem

Quem ainda recita os versos em alegres saraus?

Quem conta passos ou cores de lajotas do chão

Não sobra mais tempo para todas essas tolices

O poema resiste, mesmo sem prateados cálices

Simplesmente frugal e absolutamente imaterial

Qual um inverossímil arquipélago de resistência

Absolutamente sutil e simplesmente indomável

Um brusco tropel que invade as linhas do papel

Sim tudo mudou, não o poema oriundo da noite

E na chegada da manhã faz nuvens de algodão

Onde o poeta desenha seu próprio rumo do sol