quinta-feira, setembro 17

O Segredo da Ausência (Revisitado em 2 Atos*)

I ATO
 
O segredo da ausência se faz duma presença disfarçada
Que pulsa dentro de nós como se fosse um afago perdido
Com qual tentamos segurar um ao outro para estar junto
Mais que pela fala, que por aromas, mas os sons coloridos
 

O segredo da ausência é a imagem que se vai pela porta
Entre as luzes matinais e que vem pela fresta na janela
 Levando consigo a sombra e deixa um rastro de perfume
Em todos múltiplos detalhes do que restou da ausência

 
O segredo da ausência está no vago reflexo azul do céu
Que ao entrar pela janela vê o olhar profundo e solitário
Daquele que busca em silêncio a contemplar folhas frias
Essas quais u’a breve brisa arrasta num vai e vem dolente
 
O segredo da ausência na minha visão é caos que não aclara
É o pássaro agitado batendo suas asas e cantando a solidão
Olha às pálidas e diminutas migalhas que engole como fosse
Um banquete de melancolia, de acenos ocultos e de angústia
 
O segredo da ausência é o que turva minha visão é a agonia
Que impede o fluir do pensamento como um eco de espanto
É o que tenha restado da noite finda nas memórias opacas
do prazer que um dia distante nos iluminava a madrugada
 
A casa ainda guarda os passos em sua face, guarda os sons
de dois seres fundidos em uma só sensação qual um carinho
Que se confunde com raio de luz que leva a toda a plenitude
 
II ATO
 
O segredo da ausência é o não canto das aves me alegrava
Pelas manhãs ou atinge a essência de querer quem deixou
suas marcas espalhadas pelos objetos que lhe absorveram
A falta e, taciturnos, vão repousar no fundo d’um armário
 
O segredo da ausência estaria, em princípio, na distância
E é a essência que cada coisa revela, distinta do que veria
O olhar de um filósofo, do geômetra ou do poeta e não há
Uma fórmula estática ou uma forma pulsante e consciente
 
O segredo da ausência faz tua falta viva e traz no âmago
A dor que me faz resistir aos apelos mais fortes da noite
Trazendo como medida os laços do silêncio e do invisível
O oblívio de outrora refletido no negrume do "não" em mim
 
O segredo da ausência está em que nunca tive alguém igual
Ou desigual, a verdade nua e crua, reside em que jamais
Eu pude me sentir pertencendo a qualquer outra pessoa
Nem sonhar me foi legado, apenas o chão de terra crestada
 
O segredo da ausência está em minhas palavras desoladas
Que tentam reconstruir a cintilância de tua presença qual
Na química da real transmutação, mas esgotam-se as horas
E sequer pude arranhar o afável prazer que teu ser já deu
 
O segredo da ausência está no interior destas trevas que tua
Ida provoca, tento ser um deus para num clarão azul, vencer
O tempo, transpor o movimento, criar sons até tê-la de novo


* leia o comentário

quarta-feira, setembro 16

Aviso ao Jovem Poeta

Um atônito despertar e o tempo é teu juiz implacável
Escreve tua biografia, teu epitáfio, não ocultes nada
Olha à tua volta e descubras quais são teus inimigos
A essência do que te move, o que no âmago tu temes
Descubras o que te paralisa e o que pode impulsionar
 
A vida é breve e deves, desde cedo, tomar as rédeas
O supremo perigo não está apenas oculto nas trevas
Jovem poeta, toma tua caneta e incendeia as paginas
Que no teu poema não haja versos explícitos demais
Ao mesmo tempo que não ocultes nada que importe
 
Derrames toda tua loucura, lucidamente, sem paixões
Sem indiferença, mantenhas dignidade antes de tudo
Tenhas na música a semente, no perfume o fertilizante
Nas cores um estímulo, mas na luz tenhas teu norte
Que teus versos não sejam nem pétreos ou inflexíveis
 
Todavia, dizes permanentemente a tua única verdade
Não escrevas a soldo ou para agradar quem quer seja
Preserves, defendas, conheças teu idioma, tua língua
Mas jamais deixes de inventar, experimentar do novo
Mantenhas teus versos em movimento, não estáticos
 
Ser poeta não é um dom, antes é esforço e empenho
Que na tua boca permaneça a consciência, o verdor
Contudo, e mais importante, é não permitir o silêncio
Que é a mortalha de qualquer poesia, um túmulo enfim
Ao jovem poeta cabe manter viva a chama e a rebeldia

 


terça-feira, setembro 15

Uma Cicatriz Indelével

A hora chega e caminhastes sem cerimônias, sem adeus
Pois o amor não se despede, senão nossos corpos vazios
Onde residirão tantas lembranças de tudo que passamos
Não reside no abraço que nem fora dado, no aceno frio
No entanto aí está, circulando com o sangue pelas veias
Na imagem que, pela última vez, se afasta até esmaecer
Observo os corredores inabitados, me são tão sombrios
Uma música resiste como alguma semente inconsciente
A revelar toda uma história qual se semeou no passado
Sento à beira de tua lápide, onde verto grossas lágrimas
Levaste tudo contigo, nossas manias e a nossa loucura
Coisas que só a nós teriam sentido e doem tal cicatrizes
Recordo do despertar atônito, a voz árida a me noticiar
Uma voz sem dignidade, sem harmonia, sem compaixão
Ninguém por testemunha, ora devo viver a tua ausência
É como se o tempo enfim mostrasse, não há eternidade
Essa verdade que queremos negar, visão da fragilidade
O lento verdor, que imaginamos arquitetura inacabável
Não há nada de perpétuo, o convite só vale para entrar
Nossa visão de vida é algo primitiva, curta e não vemos
O teu nome ressoa na minha solidão, nas asas partidas
Sempre houve um plano, mas não posso ouvir silêncios
Sigo eclipsado de tua presença, sob um sol sem brilhar
As palavras não explicam as distâncias no meu interior
Contudo as escrevo, imaculadas, num parêntese de mim


segunda-feira, setembro 14

Para Ser Dono dos Caminhos

A sombra assoma meus olhos, solidão desabitada pelas estrelas

A imagem da amada permanece na lembrança entre assombros

Os cães ladram na distância, tão longa quanto o primeiro beijo

O mundo cotidiano é amargo, a jornada dói neste peito ferido

Como as papoulas feridas no crepúsculo dos ventos invernais

Queria ser o pássaro que se esquiva dos cadeados dos tempos

O conhecimento é uma herança profusa de espinhos selvagens

E assim sigo de memória em memória a me queimar por dentro

Fazendo-me renovado a cada entrega, quando o céu fica azul

Derramando as tintas sobre o papel sem orgulhos ou soberba
Meu poema é o que nomeia, o que me faz acreditar na beleza

Como uma singela dança de borboletas ao amanhecer na relva

Remanesce no sonho uma mescla rara de teu cantar ancestral
Qual a voz dos anjos na brisa esquiva pelas árvores do bosque

Enquanto a aurora se aproxima lenta para evaporar o orvalho

Antes que o sol se anuncie para dissolver a névoa dos ninhos

Escrevo para me lançar em voos maiores, adquirindo a noção

De como fazer espirais pelo céu, poder mergulhar nas nuvens

Pois quero crer não estou sozinho nos subterrâneos da noite

Escrevo meu livro dos dias, meu próprio caminho das pedras

Tenho um presságio que voltarei a te encontrar pelas veredas

Para chegarmos num lugar que o tempo não valha uma moeda

E cada segundo ao teu lado demore uma eternidade a passar