Na minha
memória bailam os vastos caminhos que percorri
Não é difícil
visualizar as veredas onde caminhei descalço
Sinto a
presença de flores que se desintegraram no campo
Contudo seus perfumes persistem a habitar-me as narinas
Recordo do rubro-ocre dos telhados à volta da esplanada
Antigas casas
que nem o tempo se incumbiu a transformar
Casas humildes, cheias de fotos esmaecidas pelas paredes
Antes de entrar na cidade, avista-se ao longe o campanário
Que ao badalar promovia a revoada de pombas assustadas
Os sinos compassados eram um apelo inegável aos domingos
O murmurar das
chuvas sobre os zincos não quer silenciar
Um diálogo de magia que me conduz às pontes sobre o rio
Percorro distraído as ruas e praças com seus mercadores
Um grupo finge
ser cavaleiros com suas armaduras de lata
Leva-me a outro tempo, uma velha capital do renascimento
Tomo um gole de vinho tinto seco de uma mesa do cenário
Sigo vagando, o céu se incendeia ao pôr do sol no horizonte
A noite pede passagem, suave, para se impor no firmamento
Onde brevemente explodirão milhares de estrelas piscantes
Segue-se a madrugada e chego às areis mornas da beira-mar
Olho o mar na sua profundeza, imagino vindo
as velhas naus
Seus canhões ociosos, os remos imóveis, velames serenados
A maré traz lascas de naufrágios, da imponência de outrora
De volta às
montanhas verdejantes, observo a velha bruxa
Trazendo
consigo o cadinho, macerando ranzinza
a poção
Que me devolve à realidade, sobre as pedras pisadas da vida
A névoa
invadia a cidade, apagando os contornos
Sua silhueta surgiu entre a garoa na rua deserta
Na noite fria
ela rompeu a bruma com sua volúpia
Pôs o corpo
serpentino fronte a mim, disse dance
Ela dançou, dançou como fogo, mas agora se foi
Foi embora e
nunca mais voltou, o fogo apagou-se
Seus olhos
eram como a noite, estrelas brilhantes
Sua voz suave qual
um sussurro na noite chuvosa
Que fundiu brevemente nossos corpos em um só
Permaneceram
sombras que não consigo alcançar
Ainda ouço um eco de sua voz chamar meu nome
Tal o nome dela resiste na ponta da minha língua
Cada palavra não dita, que
nunca mais se vai dizer
Ela ficou na minha carne, está no meu
pensamento
E eu a procuro a cada dia, cada nuvem, cada luz
Mas ela é um
fantasma que se oculta na multidão
Será que era um sonho, seria só uma alucinação
Meu país, que ora te resta? Um trapo
soçobrado
Das lutas que não lutaste. Apagou-se a tua força
Gatunos e perjuros sugam teus recursos e boa fé
Abdicaram de tua grandeza, gigante desfalecido
Atribuem mentiras odiosas àqueles
que te servem
Aos mais humildes que creram nas promessas vãs
Restou a desculpa que são outros que
impediram
Não fossem cumpridas – é o engano para o lucro
Não te iludas, tais vermes desejam é ocultar a luz
Para fazer-nos crer que nós que somos os fracos
Talvez sejamos se reabrirmos a porta ao demônio
Meu país, não
culpes ninguém pelas tuas derrotas
A culpa é dos
que, por doze anos, são desgoverno
Pois o que ora
te falta, foste tu que o ofereceste
Asilaste de volta
ervas daninhas e o mal floresceu
Se o fruto está podre, foi que vermes encontraram
Um propício ambiente para exercer sua corrupção
É véspera de eleição, lobos se travestem cordeiros
Vampiros cheios de ódio, travestem anjos de amor
Andamos nas ruas, não vemos nada que apregoam
Invés de luzes, trevas; de fartura, fome;
de paz, dor
Ao avesso de liberdade,
vemos medo em todo lado
Mãos manchadas
de sangue de seus compatriotas
Vítimas por um celular, por uma corrente, um anel
Meu país,
terra onde os sabiás não podem gorjear
País de uma imprensa vendida e outra manietada
Onde os tribunais escolhem as verdades a se dizer
Porém, a despeito de todas as mazelas, meu Brasil
Permito-me, poeta e sonhador, nestas singelas linhas
Com minha fé em farrapos, sustentar bons valores
E, num fio de ilusão, crer que um dia vás levantar