quarta-feira, outubro 14

Cego, Surdo e Mudo

 De repente o poema irrompe como uma flor violenta
Como estrela cadente desperta um choro convulsivo
Daquele ser, antes jacente como uma estátua pétrea
                                Olho
Por
                                                                             Olho
Nesse silêncio esmagado pela chegada do crepúsculo
Leva tantas palavras impronunciadas, na boca calada
De tantas ideias não pensadas que orbitam sua mente
                               Dente
Por
                                                                           Dente
E num átimo tudo aflora, qual um festival, irrefreável
A se derramar sobre as finas linhas d’antes imaculadas
Letra após letra a pena hemorragicamente as desenha
                               Dia
Após
                                                                                 Dia
Outros antes de nós, arquearam num heroico esforço
Tantas chagas nos pulsos por nem um minuto de glória
A vida posta em prova se esgueira entre o amor e a ira
                                Cega
Surda
                                                                               Muda
Neste meu mundo toda ascese, palavras e ódios breves
Se não podemos ser felizes que a tristeza seja exemplar
Tão pouca paciência, no meu relógio já é hora de partir

Quando o Medo É Seu Mestre

É a última vez trago à tua presença meus poemas descalços
Tal última homenagem às frases interrompidas fora de hora
À luz que a tua fuga apagou com vocábulos pálidos de medo
O poeta, tolice, que esperava a lucidez foi deixado à espera

Sem poder recriar a aurora para brilhar infinita no teu olhar
Restou na distância à deriva, sem terçar a alegria das tardes
Sem o amor que desejava plantar no terreno fértil do futuro
Aonde reside todo o bem daqueles que ainda têm esperança

Mas escolhestes melancolia, a angústia do que não se realizará
Eu queria que voasses nas asas da ave feita de sonho e de luz
Que seguisses sobre campos de flores perfumados de ternura
Um mundo que não coubesse os cinzas do aço e do concreto

Egoísta escolhestes, no entanto, nos legar caminho do silêncio
A ausência de noites sem desejo que sopra no vento haragano
Para nos quedarmos nos porões da vida com lírios de saudade
Qual se fosse essa a única medida que restasse a todos poetas

Não farás com que este poeta te esqueça no tempo implacável
Apenas tu viverás na sombra noturna crendo acostumar ser só
Oblivias que a solidão é viva e cresce a cada palavra não escrita
Um dia a ternura negada silenciará o amor, mas não finda a dor
 

Compêndio de Verdades Embaraçosas

Andando na vida, fui pateticamente romântico quase sem limites
Até onde fui e as asas destacadas de meu corpo pelas tormentas
Até olhar-me fruto de todo arcabouço desta semeadura humana
Percorri espaços após espaços e ouvi as perguntas sempre iguais
Passei portas que fecharam às minhas costas qual fossem atalhos
Uma brevidade entre um século de silêncio e me chamaram poeta
Um galardão que não me fez enaltecido, mas serviu para somente
Lavar as mãos da dor acumulada como se fora a poeira do tempo
Foi escrevendo que pude entender o que não entendi só ouvindo
Tantas crenças falsas no brilho das letras de grandes cabeçalhos
Se espalham como um verdadeiro e fatal vírus a repetir a história
Ninguém se volta ao espelho já baço para admitir verdades duras
Dando preferência às miragens, ao certo bem mais complacentes
Ninguém expõe as ideias à luz ou as submete às rédeas da justiça
Mas escolhe o eufemismo que atenua erros e assim chamar de fé
Sustentando toscas assertivas, qual alcandorados sopros divinais
Assim cheguei à conclusão que a verdade de fato pouco importa
Antes, aquilo que cada um se arvorou em verdade para ter razão
Razão essa qual, a alguns tolos ou insanos, vale mais que ser feliz 

Palavras Nunca São Iguais

 

Minhas palavras tem cheiro
Cheiram a terra molhada
Têm gosto de mel silvestre
O brilho de cristais lilases
 
As palavras quando planto
Nas folhas férteis de papel
Germinam poemas ao dia
E foram cicatrizes a noite
 
Olho as palavras primeiro
Vejo-as sólidas ou etéreas
Por vezes parecem flores
Quase sempre são raízes
 
Minhas palavras do inverno
Não são frias qual o clima
Têm a cor avermelhada
Do pôr-do-sol a beira-mar
 
Minhas palavras femininas
Não nasceram de costelas
Mas me acariciam o rosto
Enquanto escrevo poemas
 
Palavras contam histórias
De dias que não chegaram
E dos dias que já se foram
Vezes gritam outras cantam

terça-feira, outubro 13

Considerações em Quatro Atos

Primeiro Ato
 
Estive a considerar como uma estrela solta na noite
Pode devorar a escuridão vindo ávida lá do infinito
Como ela está aí desde sempre sem ser a eternidade
E a estrela cadente seria u’a estrela provida de asas
E de fato não cai, não sei nenhuma caída no telhado
Céus inteiros vivem em minha improvável imaginação
Minha mãe esperava que um dia me tornasse um herói
Mas ora que caralho, ao contrário resolvi ser poeta
O mundo é repleto de milhares de pequenas cidades
Cada uma delas com suas vielas estreitas e escuras
 
Segundo Ato
 
Por onde centenas de mulheres passam caminhando
Mas de todas, guardo a luz de um sorriso tão impar
Dois olhos luminosos não observei em mais ninguém
Era qual uma primavera com a mão repleta de flores
Assim passava sob minha janela, por uma dessas vielas
De alguma das pequenas cidades, sem olhar pra cima
Nem me via a espreitá-la debruçado num beiral azul
Como a flor que cuidadosamente caminhasse liberta
Dentre as outras flores, apenas fincadas no canteiro
Era mais perfumada e colorida que todas as demais
 
Terceiro Ato
 
Mas o frio inverno veio para pousar em seu jardim
Sem mostrar perdão todas as coisas foram desfeitas
Todas as árvores foram pintadas de vazio e silêncio
As folhas espalhadas pelo chão e ela enfim me olhou
Havia muitas lágrimas em seus olhos sem saber porque
Seu olhar parecia me dizer: não, não me deixe sozinha
Seus lábios pareciam mover, mas eu não podia escutar
Então eu lhe falei e as palavras o vento levou pelo ar
E se enlearam nas folhas do salgueiro na beira do rio
Se tornando signos entre as estrofes de meus versos
 
Epílogo
 
Fecha os olhos e pense em mim, estarei ao seu lado
Entre as águas d’um azul profundo e o céu límpido
Talvez, não haja palavras que possam explicar tudo
Então, deixa-te levar, vamos caminhar entre as nuvens
Não tenhas pressa, na noite os segredos ganham vida
Deixa o poema conduzir, entre o eco azul das horas
Ah, minha criança da lua e teu vestido esvoaçante
O sonho está vivo meio às folhas do velho salgueiro
Venhas sonhar comigo e esperar até o dia amanhecer

sexta-feira, outubro 9

O Mundo Segundo o Poeta

Como amo o revoar das pombas ao soar o campanário
As andorinhas que bailam entre as árvores nas praças
São algumas mais caras memórias da infância distante
Imagens que restaram de uma recôndita época inigual
Contudo a infância se foi, escrita nos fólios d’antanho
Nas entranhas de minha cabeça vive um outro de mim
Tal aquele, que no tablado, desenha flores à multidão
E assim sonhar, como fora eu mesmo, palavras de papel
O sonho é o invólucro da realidade onde tudo é lícito
Não fosse eu um poeta, dir-me-iam ter perdido o juízo
Qual a Bilac em seus diálogos estelares, amar justifica
Da pele da maçã rosada à pele tépida da amada, viajo
Esqueço a métrica, a dureza eclética das consoantes
Transformo meu mundo por um par de olhos castanhos
Uma via-láctea que independe de ser noite para brilhar
Em mim, nestes últimos anos, canta uma nova canção
Sinto-lhe o hálito perfumado, lábios rosados e macios
Porém, se escrever é o meu mal, é também minha cura
Uma parte mística, outra material, devotada e surreal
Alheia às considerações, ciente dos defeitos e limites
Ergo os olhos às plêiades, satisfeito, desloco a mirada
Ao poeta o infinito é agora e o universo é mesmo aqui

 


quarta-feira, outubro 7

Lista de Desejos

 Ah, como eu desejara ter podido cantar sob as estrelas
Mas ervas daninhas encobrem a parte estrelada do céu
E o escuro me emudece as palavras como uma mordaça
Então o silêncio invade todos os espaços da madrugada
 
Quisera me desgarrar de certos ícones, falar nas sombras
Ignorar as nuvens cinzentas que carregam frio e chuvas
Porém meus olhos também se fazem nublados e frívolos
Como duas luas fora de órbita a flutuarem pelo espaço
 
Ah, como eu gostaria de poder ser tantas outras coisas
Que este poeta de raízes profundas num solo tão árido
E dizer palavras menos trágicas que floresçam faceiras
Em meio aos silêncios não essenciais e relógios exaustos
 
Quisera que as coisas fossem como elas realmente são
Despidas de máscaras, apólogos que lhes assintam valor
Tenho comigo o caderno onde conspiram poesias cruas
Como um incunábulo destroçado onde deposito versos
 
Ah, como eu gostaria que vissem poesia em coisas simples
Grãos de poeira foliando na fresta de sol que vem da janela
Para irem se assentar visivelmente na mobília à minha volta
Mas o que era alegria, será removido ao passar de pano
 
Um suspiro enfadado lembra que as noites não são fáceis
A vizinha que, detrás das persianas, observa meu quarto
O ar lá fora não move nenhuma folha, tampouco a insônia
A poesia não se escreve sem metáforas, ao prisma da razão