sexta-feira, março 20

No céu, à minha revelia

O amanhecer demorou a me encontrar na noite escura
São anos viajando pelas veredas noctívagas no silêncio
Identifico uma voz, dentre as inúmeras vozes que ouço
E assim te descobri, mas teu nome faço exato segredo
Então neste poema, por razões que só a ele competem
Ao falar de ti, falo em parábolas, tua geografia tão-só
Teu corpo esguio, teus seios fartos e as pernas roliças
Ainda nos vejo n’outros tempos, dançando ao espelho
Na vitrola toca um disco do B.B. King com sua Lucille
Rostos colados e sussurros insidiosos ao pé do ouvido
Hoje os meus joelhos não acompanhariam os teus ágeis
Mas não há porque preocupar, de fato, não estás aqui
És apenas uma ideia que se prolifera qual estalactites
Um sonhar de tempos idos, nos sonhos tudo podemos
Podemos girar os quadris enquanto Chuck Berry toca
Apesar disso és tão verdadeira quando seguro tua mão
E quando olho nos teus olhos para não perder o ritmo
Teus cabelos balançam, como usual em setenta e sete
Só migalhas nas memórias do tempo que não volta mais
Foi dessas razões que este é um poema só meu, só teu
Quem ousaria crer, ver-te bem sabendo não estás aqui
Nenhuma reprimenda ou juízo por ires à minha revelia


segunda-feira, março 16

¿Por que é tudo assim?

 Gravei teu nome
No sótão da memória
Velhas tábuas
Rabisquei letra a letra
E ninguém percebeu
Meu sangue em chamas
Incêndio ao vento
Gravei teus passos
No portão da memória
Que abro e fecho
A tua imagem passar
E ninguém deu conta
Tormenta de minh’alma
Vai ladeira abaixo
Gravei teus beijos
Na boca da memória
O sabor de hortelã
Tua língua irrequieta
E ninguém entendeu
Meu peito deserto
O sol dos meio-dias
O destino da ilusão
É morrer de amor

sábado, março 14

Viagem pelo Zodíaco

 
Minha mente como nave se arremessa sobre o zero
Dois ponteiros redançam sobre o círculo das horas
E o coração em sua ambivalência, bate tresloucado
Nesse telúrico contexto o tempo-espaço se amiúda
Eu, barro feito homem viajo nesta inefável jornada
Dentro de mim um universo a pulsar e transcender
Busco sob o véu noturno as estrelas descortinarem
Há milhares de milhões em ordem sem discrepância
Assinalo seus imutáveis trânsitos, horas após horas
Lá está Taurus e sua cintilo-brilhante estrela alfa
Sinto sua energia na extensão da tangente infinita
Ouço o chamado qual o sino que na cumieira bate
São velhas memórias fixadas nesse tropel longínquo
Quando o pássaro se lança ao ar, rumo à infinitude
Projeta-se o pensamento, núcleo deste eu-universo
E já não é tão-só contemplação, é lúcida interação
Misturam-se imagens e sentidos a luz não é só a luz
Qual feiticeiro, o inconsciente mergulha no futuro
Astros e signos, energia para dizer “que se faça luz”

quinta-feira, março 12

O Não Paradoxo

 

Dias e dias afora
Tão longa a estrada
A distância encurta
É no silêncio bruto
Que tua voz ecoa
É na noite sem luar
Que brilham estrelas
Quanto mais te cales
Tão mais que dizes
Quanto mais revelas
Mais o segredo flui
Quanto mais ocultas
Mais mostras de ti
 Quanto mais foges
Mais te encontro
Quanto mais me amas
Mais te amo também

 

Uma Chance ao Passado

 

Terá o mundo outra chance depois do que lhe fazemos
Teremos outra vida depois desta vida, tão vilipendiada
Tudo começar da infância, lá longe, em estradas barro
Cabelos fartos, corpos esguios a saltar pedra em pedra
Neve da qual as crianças farão bonecos, tão efêmeros
Qual foi efêmera esta passagem descuidada pela terra
Eivada de ausências, mais de adeuses que de chegadas
Aprenderão nossos olhos, não serem então forasteiros
Assim enxergarem que todas cores são de humanidade
Olhar o próximo sem sobressaltos, sem qualquer temor
E saberemos falar numa só língua sem construir babéis
Elaborada acima dos olvidos, de terem ouvidos ou não
Mesmo que o mundo seja outro, de menos crepúsculos
Onde seja sempre alvorada, passadas horas e anoitecer
Onde meu poema seria sem angústias, sem melancolias
Seria ainda flor, contudo liberto de todos os espinhos
Será que tu lá estarias, assim como estivestes por aqui
Tua pele macia, expressão cintilante e caminhar airoso
Teu olhar e a risada franca, serias ainda assim a mesma
E de tudo que mudar, que não mude meu amor por ti

sábado, março 7

Excertos d'uma Loucura Intrínseca

Meus manuscritos eu os escondo sob o crepúsculo vespertino
Só os abro noite alta, para assombro dos que não me aprovam
Nessa hora olho aos céus e sob a luz intensa do véu de ozônio
Mergulho nesse amplo vazio, meio a todas estrelas cintilantes
Que parecem ampliar o céu sobre as pedras surradas do cais
Esquivo-me de túneis do desassossego, rumo ao vértice diário
Esquivo da agitação diurna da cidade, de hordas decadentes
Meu tempo é qual nos filmes, corre num tipo de câmera lenta
Alheio a qualquer sucesso, fujo da mirada das bocas ciciosas
Que têm o dedo em riste, mas suas casas se trajam de pobreza
Caminham sob o sol escaldante onde já não voam as cotovias
Ao dia eles vêm se manifestar, mas na noite nublada se calam
Finjo que os desconheço, se acham reis, mas não têm súditos
Faço os versos tal qual a mescla de tempestades e de sonhos
Frutos d’uma vida ligeira, semeados na minha loucura intrínseca
Brotando rubra entre as carícias, que só a madrugada possui
Enquanto espero o raiar do dia que ‘los güises’ já anunciaram
Meu poema é chama sólida, em meio à festa assídua do pensar
Que eleva meus altissonantes diálogos de criaturas noturnas
Na infindável busca da palavra perfeita a versos imperfeitos
Escondi meus manuscritos, voláteis, desses meus repressores
Quando despontar o sol candente nestas longitudes zenitais
É hora de pousar meus pássaros entre as árvores de quimera
E o poeta, arlequim ou pensador, rabisca as últimas estrofes
Vendo-se pássaro pousado na janela fosse ninho, não vidraça

 

terça-feira, março 3

A Genealogia da Palavra

 

Há quem queira dizer que palavras sejam iguais a um fato
A palavra pode ser o instrumento para descrever os fatos
Mas a pura verdade é que palavra não se converte nestes
Tudo o que se diga, instrumentalizado pela boca e língua
Em alento e tom, tudo que se possa escrever com a tinta
De que cor seja, azul ou negra ou em sangue é tudo pífio
Posso descrever o rosto de um homem à morte, seu rosto
Lívido, a boca escancarada, sua dentadura mal encaixada
Queixo caído sobre o peito, olhos vidrados ao céu, pasmo
Enquanto já se ouve à distância o resgate no som da sirene
Que palavra em tinta é a verdade da partida ou da salvação
Poderia descrever como faço amor, no recôndito da noite
Como minhas mãos avançam sobre suas curvas, suavemente
As polpas dos dedos a percorrer seu corpo quente e úmido
Como improviso para aproximar minha boca dos seus lábios
Toda palavra não será a volúpia, nem tampouco será prazer
Nas máquinas de escrever há tão-só letras, não há palavras
Signos que fazemos converter-se em sons, articuladamente
Palavras são palavras que pesam o mesmo quando digo amor
Ou quando digo da bomba de 50 megatons sobre Hiroshima
Sentir é quando nos desnudamos e revolvemos sobre a cama
Teus mamilos eretos e pernas abertas qual portas ao mundo
Mas não sei d’uma palavra que estanque o tempo sobre nós