sábado, junho 13

O Poema é Diversidade

 

A poesia é tanto

O justo e o imponderável

Plural Indivisível

Celeiro de contradições

Realidades virtuais

Soledade transparente

Paralelas convergentes

Olhos de nebuloso azul

Sitiados no anoitecer

No aroma dos vinhedos

Regados pelas chuvas

No abandono das luzes

Apazigua as diversidades

Na órbita dos sonhos

O sol fugidio nas palmeiras

De onde há muito

Se foram os sabiás

 

terça-feira, junho 9

A Semeadura das Insônias

 

Um vórtice de cinzas e pó domina as almas à noite

Tempo que as ruas dormem despidas de intenções

Os telhados ressoam a chuva na sua crua cadência

Pergunto por ti aos anjos sem sucesso em te achar

São apenas efígies imóveis de um tempo imemorial

Sigo pelas frias pedras polidas de outra madrugada

Caminho em vão entre os labirintos à tua procura

Onde estarás senão nos jardins dos meus eclipses

Entre os gerânios de bronze e seu aroma olvidado

Pela estreita e tumultuosa alameda da melancolia

Ergui altares para ti, mas as portas não se abriram

Os sonhos se apagaram deixando uma sombra nua

Pergunto por ti e a cidade só sabe de tua ausência

Do amargo de tanto vazio, dona das não respostas

Ontem fazia sol nos campos onde o amor brincava

Agora, ajoelho-me ao meio-dia, mas não vejo a luz

Os invernos sucedem a novos invernos neste lugar

Semeador de insônias, de revelações e de augúrios

O anjo da noite criou uma terra de rubis só para ti

Lá fora, perfilho a tua voz, mas tu não me chamas

Pois deixaste este mundo e as palavras silenciaram

Convertendo a eternidade em uma cicatriz aberta

Teus formosos olhos foram na crua neblina escura

A morte te levou pelo espelho da última penumbra

E os templos do nosso amor convertidos em cinzas

Hoje visto a máscara mais fria de todos os abismos


segunda-feira, junho 8

O Sonho, o Poema e as Salamandras

 

O sonho e seu duplo é tal a face que se admira no espelho

Têm substância própria que se alça nos meandros da noite

Na sua armadura de aço se mistura com os veios do lençol

E entre as sombras circula no vento até enfim se dissolver

 

É tentar em vão buscar dissociar o sonho do real no poema

Não faço esforço para aceitar que a razão nasce do sonho

Sob a escuridão temos que ter os olhos abertos, ver a razão

Um som angelical se espalha pelo ar e tem aroma de jasmim

 

Mil rubis cintilam a dispersar as frias estátuas do cotidiano

As muralhas da madrugada estendem ante os adormecidos

Mas não há perdão àquele que olha, porém se recusa a ver

Os sinos repicam anunciando a alvorada: é hora de acordar

 

Recolher entre as cinzas os signos que o fogo nos oferece

Para separar as ilusões que se criam entre campos de trigais

Dos enganos gris dos cárceres nas pedras frias do desamor

As chamas geram a longa insônia das horas em sua tepidez

 

O deserto não se consome em si, nem seu olvido de oceanos

Pulsam páginas em areia, louca trama meu coração nômade

O pássaro abre as asas ao vento, rabiscando poemas no céu

Desafiando o mármore pétreo da certeza sobre vida e morte

 

Transmutando as ideias do real e o onírico num feixe azul

E os versos fluem tal como rios indômitos aos olhos da lua

As salamandras emudecidas convivem no seu fogo-alimento

Enquanto os dormentes silenciam na transparência da noite

 

Os dias seguem desertos e a vigília se queda longe de findar

Para findar a tristeza profunda que povoa os crepúsculos

O poema é implacável, em ondas escapa do que seria usual

Entre imagens oblíquas de sonhos, semeiam o acaso de viver