quinta-feira, novembro 14

Café da Manhã

E assim a distância suspirou arranhando as fronteiras do céu
Entre pilhas de papeis alvos onde virão a frutificar os poemas
Velozes estilhaços entre as mãos, flores multicores do jardim
Ouço o som cálido do teu feitiço entre lençóis e sinto-me só
No silencioso ato de lembrar-me de ti, de semanas a semanas
Atormentado na linha do mistério, na parte sutil do devaneio
Ao longe te contemplava, o teu perfume inundando as horas
Reviro minhas gavetas cotidianas para que devolvam a calma
Para rever teu o sorriso perturbador, cachecol xadrez solto
Qual os canteiros verde-escuros e seus malmequeres ocultos
Busquei a verdade como quem ouviu o som da chuva caindo
Mas o sol luziu na sacada sobre a roupa pendurada no varal
Senti-me um estrangeiro neste mundo de colarinho engomado
Camisas de brancos virgens, que guardam tão pouco de mim
Mas amo teus lábios de papoulas que me saúdam sem limite
São o ópio que me entorpece, o porto seguro de meu abrigo
Os anjos sussurram-me arcanos nesta noite em que te recrio
Na minha linguagem de palavras sombrias, de bolas de cristal
Passo a passo, enfim compreendo tua necessidade de ir e vir
Porém hoje te vim buscar, já não me basta te ver num sonho
Quero o calor de nossa cama indormida até o café da manhã

 


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