quarta-feira, abril 8

A Fábula dos Contrários

As sombras emergem ao leste, análogas a carvões azulados
Ainda quando paradas são puro movimento no seu interior
Refletem-se no espaço, desdobradas da cor que têm à luz
Retornam com elas à unidade que é por princípio o corpo
Súbito silêncio se concentra na imaginação, duplo aspecto
Para captar o ruído das sombras debruçadas sobre a terra
Uma antiga canção dorida do martelo que molda o cobre
Corpo e forma de folhas rubras se perfazendo em figuras
À boca do fogo vivo que consome o carvão e aviva a cor
Por quantas portas passará a palavra portadora da beleza
Inserta nos versos que narram a condensada fábula oculta
Em feixes individuais que têm o desígnio de abrir o círculo
Que antes se formara pela angústia, pelo medo e pela raiva
Fazem ultrapassar sua própria medida de tempo e de espaço
Enfim liberto de todos os disfarces e grilhões semelhantes
Flâmulas tremeluzentes saltitam amarradas diante do vazio
A multidão, na enganadora massa de seus corpos solitários
São pássaros com asas atadas arrastando os pés pelo chão
Preenche os espaços com seus movimentos desordenados
Enquanto se aglomera ansiosa movendo a boca em silêncio
O dia chega afinal, afastando os últimos pedaços da noite
A multidão deficiente de destemor furta-se a ler o poema
Põe-se a falar freneticamente disfarçada em sua máscara
Claro contra escuro são os severos quadros que apontam
E se defrontam no campo aberto pela fábula dos opostos
Se espalham pela tarde para recolher alguma sombra vazia
Serão os rostos solitários na arquitetura para outra noite
Enraizados de passado, usam caminhos ásperos e amargos
O poeta que a tudo observa distante, alforria seus versos
O poema parte, asas abertas para alçar voos sem medida
Cumprindo, assim, a aspiração de ser o pleno movimento


segunda-feira, março 23

O Encontro da Poesia e o Surreal

 

O poeta levantando numa esquina antiga
A palavra por um fio, dissolvida no verso
Cristalina, desnuda de antagônicos usos
E n’um trago alcoólico para esquentar-se
Cospe um sabor acre de dúvidas penosas
Por respostas torturadas e ensurdecidas
Olhos fechados para não hesitar e canta
Meu poema não se subordina a contextos
De empoeirados compêndios dissonantes
Eivados de mil edificações sintagmáticas
Nem se dissipa pelos dilemas do cotidiano
Ou no absurdo especulativo dos eruditos
O poema surrealista, tão incompreensível
Aos que escandem a estrofe pendurada
Numa argola, se abstraem de toda ironia
Amalgamada com o vazio das entrelinhas
Prescindindo, precocemente da verdade
E profundidade que o inesperado causa
O poeta azevieiro ignora erros e triunfos
Igualmente deletérios, que a estrada traz
Altivo, supera fadiga, sustos e as vigílias
Cônscio que desta vida de empréstimo
Nada se leva senão o amor que se viveu

 

sexta-feira, março 20

No céu, à minha revelia

O amanhecer demorou a me encontrar na noite escura
São anos viajando pelas veredas noctívagas no silêncio
Identifico uma voz, dentre as inúmeras vozes que ouço
E assim te descobri, mas teu nome faço exato segredo
Então neste poema, por razões que só a ele competem
Ao falar de ti, falo em parábolas, tua geografia tão-só
Teu corpo esguio, teus seios fartos e as pernas roliças
Ainda nos vejo n’outros tempos, dançando ao espelho
Na vitrola toca um disco do B.B. King com sua Lucille
Rostos colados e sussurros insidiosos ao pé do ouvido
Hoje os meus joelhos não acompanhariam os teus ágeis
Mas não há porque preocupar, de fato, não estás aqui
És apenas uma ideia que se prolifera qual estalactites
Um sonhar de tempos idos, nos sonhos tudo podemos
Podemos girar os quadris enquanto Chuck Berry toca
Apesar disso és tão verdadeira quando seguro tua mão
E quando olho nos teus olhos para não perder o ritmo
Teus cabelos balançam, como usual em setenta e sete
Só migalhas nas memórias do tempo que não volta mais
Foi dessas razões que este é um poema só meu, só teu
Quem ousaria crer, ver-te bem sabendo não estás aqui
Nenhuma reprimenda ou juízo por ires à minha revelia


segunda-feira, março 16

¿Por que é tudo assim?

 Gravei teu nome
No sótão da memória
Velhas tábuas
Rabisquei letra a letra
E ninguém percebeu
Meu sangue em chamas
Incêndio ao vento
Gravei teus passos
No portão da memória
Que abro e fecho
A tua imagem passar
E ninguém deu conta
Tormenta de minh’alma
Vai ladeira abaixo
Gravei teus beijos
Na boca da memória
O sabor de hortelã
Tua língua irrequieta
E ninguém entendeu
Meu peito deserto
O sol dos meio-dias
O destino da ilusão
É morrer de amor

sábado, março 14

Viagem pelo Zodíaco

 
Minha mente como nave se arremessa sobre o zero
Dois ponteiros redançam sobre o círculo das horas
E o coração em sua ambivalência, bate tresloucado
Nesse telúrico contexto o tempo-espaço se amiúda
Eu, barro feito homem viajo nesta inefável jornada
Dentro de mim um universo a pulsar e transcender
Busco sob o véu noturno as estrelas descortinarem
Há milhares de milhões em ordem sem discrepância
Assinalo seus imutáveis trânsitos, horas após horas
Lá está Taurus e sua cintilo-brilhante estrela alfa
Sinto sua energia na extensão da tangente infinita
Ouço o chamado qual o sino que na cumieira bate
São velhas memórias fixadas nesse tropel longínquo
Quando o pássaro se lança ao ar, rumo à infinitude
Projeta-se o pensamento, núcleo deste eu-universo
E já não é tão-só contemplação, é lúcida interação
Misturam-se imagens e sentidos a luz não é só a luz
Qual feiticeiro, o inconsciente mergulha no futuro
Astros e signos, energia para dizer “que se faça luz”

quinta-feira, março 12

O Não Paradoxo

 

Dias e dias afora
Tão longa a estrada
A distância encurta
É no silêncio bruto
Que tua voz ecoa
É na noite sem luar
Que brilham estrelas
Quanto mais te cales
Tão mais que dizes
Quanto mais revelas
Mais o segredo flui
Quanto mais ocultas
Mais mostras de ti
 Quanto mais foges
Mais te encontro
Quanto mais me amas
Mais te amo também

 

Uma Chance ao Passado

 

Terá o mundo outra chance depois do que lhe fazemos
Teremos outra vida depois desta vida, tão vilipendiada
Tudo começar da infância, lá longe, em estradas barro
Cabelos fartos, corpos esguios a saltar pedra em pedra
Neve da qual as crianças farão bonecos, tão efêmeros
Qual foi efêmera esta passagem descuidada pela terra
Eivada de ausências, mais de adeuses que de chegadas
Aprenderão nossos olhos, não serem então forasteiros
Assim enxergarem que todas cores são de humanidade
Olhar o próximo sem sobressaltos, sem qualquer temor
E saberemos falar numa só língua sem construir babéis
Elaborada acima dos olvidos, de terem ouvidos ou não
Mesmo que o mundo seja outro, de menos crepúsculos
Onde seja sempre alvorada, passadas horas e anoitecer
Onde meu poema seria sem angústias, sem melancolias
Seria ainda flor, contudo liberto de todos os espinhos
Será que tu lá estarias, assim como estivestes por aqui
Tua pele macia, expressão cintilante e caminhar airoso
Teu olhar e a risada franca, serias ainda assim a mesma
E de tudo que mudar, que não mude meu amor por ti

sábado, março 7

Excertos d'uma Loucura Intrínseca

Meus manuscritos eu os escondo sob o crepúsculo vespertino
Só os abro noite alta, para assombro dos que não me aprovam
Nessa hora olho aos céus e sob a luz intensa do véu de ozônio
Mergulho nesse amplo vazio, meio a todas estrelas cintilantes
Que parecem ampliar o céu sobre as pedras surradas do cais
Esquivo-me de túneis do desassossego, rumo ao vértice diário
Esquivo da agitação diurna da cidade, de hordas decadentes
Meu tempo é qual nos filmes, corre num tipo de câmera lenta
Alheio a qualquer sucesso, fujo da mirada das bocas ciciosas
Que têm o dedo em riste, mas suas casas se trajam de pobreza
Caminham sob o sol escaldante onde já não voam as cotovias
Ao dia eles vêm se manifestar, mas na noite nublada se calam
Finjo que os desconheço, se acham reis, mas não têm súditos
Faço os versos tal qual a mescla de tempestades e de sonhos
Frutos d’uma vida ligeira, semeados na minha loucura intrínseca
Brotando rubra entre as carícias, que só a madrugada possui
Enquanto espero o raiar do dia que ‘los güises’ já anunciaram
Meu poema é chama sólida, em meio à festa assídua do pensar
Que eleva meus altissonantes diálogos de criaturas noturnas
Na infindável busca da palavra perfeita a versos imperfeitos
Escondi meus manuscritos, voláteis, desses meus repressores
Quando despontar o sol candente nestas longitudes zenitais
É hora de pousar meus pássaros entre as árvores de quimera
E o poeta, arlequim ou pensador, rabisca as últimas estrofes
Vendo-se pássaro pousado na janela fosse ninho, não vidraça

 

terça-feira, março 3

A Genealogia da Palavra

 

Há quem queira dizer que palavras sejam iguais a um fato
A palavra pode ser o instrumento para descrever os fatos
Mas a pura verdade é que palavra não se converte nestes
Tudo o que se diga, instrumentalizado pela boca e língua
Em alento e tom, tudo que se possa escrever com a tinta
De que cor seja, azul ou negra ou em sangue é tudo pífio
Posso descrever o rosto de um homem à morte, seu rosto
Lívido, a boca escancarada, sua dentadura mal encaixada
Queixo caído sobre o peito, olhos vidrados ao céu, pasmo
Enquanto já se ouve à distância o resgate no som da sirene
Que palavra em tinta é a verdade da partida ou da salvação
Poderia descrever como faço amor, no recôndito da noite
Como minhas mãos avançam sobre suas curvas, suavemente
As polpas dos dedos a percorrer seu corpo quente e úmido
Como improviso para aproximar minha boca dos seus lábios
Toda palavra não será a volúpia, nem tampouco será prazer
Nas máquinas de escrever há tão-só letras, não há palavras
Signos que fazemos converter-se em sons, articuladamente
Palavras são palavras que pesam o mesmo quando digo amor
Ou quando digo da bomba de 50 megatons sobre Hiroshima
Sentir é quando nos desnudamos e revolvemos sobre a cama
Teus mamilos eretos e pernas abertas qual portas ao mundo
Mas não sei d’uma palavra que estanque o tempo sobre nós

 

sábado, fevereiro 28

A Reinvenção do Mundo

 

Ontem sonhei e lembro reinventar o mundo só para ti
Ocupas-me a memória tal hera ocupa muros no jardim
Um jardim onde quer eu olhe, vejo tua imagem a sorrir
Pois no mundo que inventei não há mentira ou maldade
Sequer há invernos e todas as estações são inventadas
Lá u’a andorinha solitária faz os verões mais candentes
Pérola de meu sonho oculto iluminaste a minha razão
Inventei tu e eu a caminhar pelo campo na noite de lua
Só para admirar teu corpo de infindos vales e colinas
Foi somente pra nós que criei esse mundo todo novo
Onde as folhas das árvores farfalham à brisa da tarde
E, caídas pelo chão do parque, voam em redemoinhos
Da cabana à beira do lago, a fumaça branca vai ao céu
Junta-se em grupo e forma brancas nuvens ao meio-dia
No meu mundo tudo lembra de ti, nem carece inventar
Caminhei até as cascatas douradas como teus cabelos
Colhi pra ti, um efêmero buque de narcisos vermelhos
Retorno à cidade e todas calçadas ecoam teus passos
Eles pisam na minha direção, meus braços te esperam
Para te acolher, se o céu em véu negro negar estrelas
E se mesmo o luar, por pura inveja de ti, não aparecer
Aqui não há guerra, desamor, nuvens de tempestade
Meu mundo não chove, caem lágrimas felizes de te ver

 

 

terça-feira, fevereiro 24

2126 - Lembranças do Amanhã

 
Passados cem anos que atitude esperar diante do poema
Letras tão hábeis outrora de arrancar lágrimas e sorrisos
O que se pode oferecer se nem a cinco minutos sabemos
Serei um gênio ou somente mais um entre os esquecidos
Como a volúpia esmaecendo débil após o transe do gozo
E nem porque mal redigido, na sua conveniente estética
Posto que feito às custas de sangue, suor e de lágrimas
Mas porque nada mais é durável nas páginas da tal web
O poema será o cavaleiro, pois, despido da sua montaria
Obrigado a caminhar a pé todos os caminhos do existir
Por onde caminharão as gerações sem peitos maternos
Em nome de duvidosa estética que a internet preconize
Sem o acolhimento de que o poema é sua doce memória
Até quando fará sentido o sacudir de punhos cerrados
E o violar do silêncio como só poema fora um dia capaz?
Acredito em ti que “Bilac” sequer tenha sido esquecido
Mesmo visitando há mais de cem as “Colombos” da vida
Todavia sem os malditos ‘influencers’ e ‘blogueiros’ vãos
Sem os arautos do esquecimento e do imediatismo fútil
Onde as asas de pássaro do poeta não têm mais sentido
Nem o prodigioso cheiro de tinta do livro recém aberto
Vivemos um tempo de equilíbrio instável das fake-news
Estéril de emoções e afagos, pleno de lágrimas e olvido
 
 

terça-feira, fevereiro 10

A Pitoresca Saga de Eleutério Paixão

 
Apolinário cabelo desgrenhado, de terno despareado
De uma linguagem subtraída da compreensão comum
Guardou na gaveta todas as perguntas irrespondidas
À margem da vida, já rumando pra antessala da fome
Debaixo da sombra que a melancolia coletiva definiu
 
A alma de quem caminha só entre moinhos sem ventos
Vive alheia a quem ou o quê nesse inferno de lágrimas
E colher as frutas amargas que, todavia, não semeou
Essa espera infindável de antes desespero que solidão
Como é doloroso morrer, quando se permaneceu vivo
 
Não é o medo à beira do poço, mas de erguer-se e ser
Porém apenas um monte de carne e ossos que ambula
Ouvir a batida densa do coração, tudo mais é silêncio
Imaginar-se arredio a tudo e ainda ao alcance da vista
À revelia de tudo que acontece, mas não do que sabe
 
Isolado no abandono fatal, do qual não pode escapar
Sei que todos nasceram separados, mas nem por isso
Que se deve dobrar a aposta e seguir assim segregado
Por caminhos onde a esperança nunca tenha trilhado
Habitante de uma festa imaginária ao alucínio do dia
 
E naquela viela de casas alquebradas e tijolos a vista
As luzes tremeluzentes emprestam um ar agourento
Como se algo se fizesse permanentemente a espreita
Tão longe se vão os coros das cantilenas dominicais
Estações que não sentia na boca esse hálito amargo
 
Agora tão só suporta, resoluto, todos esses subsolos
Com a nitidez de quem, reuniu os laivos de coragem
Entre um resto de encarnação e assobia uma canção
Caminha entre uma lágrima e outra, sapato de couro
Que arrasta sem ritmo, buscando o ar que lhe falta
 
Pensa que no fim do mundo haja u’a chamada geral
Aprumará o peito, metade angústia, metade rebeldia
E qual último morador do silêncio, ensaia um sorriso
Vai altivo augurando a vinda de tempos sem guerras
Leva na mão o último exemplar d’um livro de poemas

quarta-feira, fevereiro 4

Viver à Beira-mar

 Quando o poema
Aparece na noite
E tudo é o caos
Olhares planos
Sentimentos curvos
Céu sem luar
Nuvens a trovejar
No solitário poeta
Tudo transmuta
Em sua desordem
Calando o silêncio
O vento flácido
As estrofes de poesia
De versos sem rima
Para curar feridas
Secar lágrimas
Semear estrelas
Revoar os pássaros
No beijo salgado
De viver a beira-mar


A Geometria da Iluminação

Quando a luz paira sobre a palavra, primeiro a geometriza
Nenhum enigma ou seita permite ver a sombra senão a luz
Dessa mesma operosa arquitetura, germina o canto poema
Com a força do aço se organiza e constrói com cintilação
E o faz a transmutar o equilíbrio do pensamento em ação
Éter que afronta o sólido, opostos, porém não se afastam
De uma mesma trama universal, a fuga dos sonhos ao real
Uma só verdade, contudo observada de distintos prismas
 
O poema desloca o fluxo da imaginação ao que é palpável
Confere ritmo à beleza que exalta, em feixe alado de cor
Mas dela se desprende e modifica a contemplar a solidão
Infundindo-lhe alento, até em ponderações mais gravosas
Pois, em seu fio aguçado de metal, é manifesta harmonia
A luz poética mergulha no recôndito, se conjuga no ouro
É qual argila ao oleiro e o fole que atiça fogo ao ferreiro
No entanto tão fugaz, ar e basalto em momentos ínfimos
 
A palavra quando emerge na noite, rompe todo equilíbrio
Condensa em mito, belo e cor o que poderia ser o vazio
Dando à visão o esplendor que desponta com perfeição
Para desenraizar da alma amores insonsos, frios e finitos
Torna insignificante o tempo que se conta no calendário
Elide o negror da surdez, apaga caminhares infrutíferos
Na noite a música suave, leva o pássaro a voar novamente
Afastando o silêncio, reacende o eterno sabor pela vida

 


sábado, janeiro 31

Concerto #7 para Oboé

 

As begônias cresciam no beiral da janela regadas de lágrimas
Aquele olhar distante fitando o rouxinol pousado na árvore
Ela seguia tímida com seus chinelos rotos e roupa de flores
Mas era ela a própria flor a desabrochar a cada amanhecer
Cruzava, na sua inocência, a cena entre a janela e o pássaro
Foram tantos signos em seu caminho, desde o primeiro passo
Quantas vezes os tambores rufaram a desviar a sua atenção
Quantas nuvens gris armaram temporais, na calada da noite
Seguia pelas estepes esverdeadas a ouvir o rumor do regato
Disseram-lhe sobre o destino brilhante que deveria alcançar
Mas na vida, há calor no inverno e brisa amena pelos verões
Mas nada é como parece ser e o rio vem a alagar as várzeas
E leva consigo a dança divina e desmistifica todos os rituais
A jovem de pele ocre foi arrastada no redemoinho do vento
Seu caminhar a dias melhores se tornou um deserto de folhas
Restam tão só sombras, sem rosto, sem nome ou seu sorriso
Partiu sem ser a estrela que as vozes da ilusão apregoaram
Tão só a máscara de vidro entre na multidão de incertezas
O que fazer quando a luz do trovão inaugurar a escuridão
Gritos profundos de silêncio a elevar-se na palavra solitária
Não aquela impressa na folha cega dos poemas imemoráveis
Mas na pele cansada, entre as cicatrizes fundas da estrada
Se o vento que furtou as flores devolver o aroma dos lírios
Quiçá ela ainda regresse antes do último concerto da alma