quarta-feira, fevereiro 4

Beira-mar

 Quando o poema
Aparece na noite
E tudo é o caos
Olhares planos
Sentimentos curvos
Céu sem luar
Nuvens a trovejar
No solitário poeta
Tudo transmuta
Em sua desordem
Calando o silêncio
O vento flácido
As estrofes de poesia
De versos sem rima
Para curar feridas
Secar lágrimas
Semear estrelas
Revoar os pássaros
No beijo salgado
De viver a beira-mar


Reforma

Quando a luz paira sobre a palavra, primeiro a geometriza
Nenhum enigma ou seita permite ver a sombra senão a luz
Dessa mesma operosa arquitetura, germina o canto poema
Com a força do aço se organiza e constrói com cintilação
E o faz a transmutar o equilíbrio do pensamento em ação
Éter que afronta o sólido, opostos, porém não se afastam
De uma mesma trama universal, a fuga dos sonhos ao real
Uma só verdade, contudo observada de distintos prismas
 
O poema desloca o fluxo da imaginação ao que é palpável
Confere ritmo à beleza que exalta, em feixe alado de cor
Mas dela se desprende e modifica a contemplar a solidão
Infundindo-lhe alento, até em ponderações mais gravosas
Pois, em seu fio aguçado de metal, é manifesta harmonia
A luz poética mergulha no recôndito, se conjuga no ouro
É qual argila ao oleiro e o fole que atiça fogo ao ferreiro
No entanto tão fugaz, ar e basalto em momentos ínfimos
 
A palavra quando emerge na noite, rompe todo equilíbrio
Condensa em mito, belo e cor o que poderia ser o vazio
Dando à visão o esplendor que desponta com perfeição
Para desenraizar da alma amores insonsos, frios e finitos
Torna insignificante o tempo que se conta no calendário
Elide o negror da surdez, apaga caminhares infrutíferos
Na noite a música suave, leva o pássaro a voar novamente
Afastando o silêncio, reacende o eterno sabor pela vida