quinta-feira, novembro 27

Amargura

Amargura: a palavra que foi feita para te definir
Isento de esperança, posto que bem te conheço
Sabes eu vi teu aceno, não cheguei a acreditar
Tu que foste volúvel no tempo que te conheci
Nem o fato que viria uma noite fria e solitária
Mudaria a probabilidade d’eu não me aproximar
Tu mulher, que só tinhas olhos para a ambição
Tua torpe postura de serpente, nunca enganou
Ao passar do tempo adquiri destreza e vi o real
Não o mundo iludido que a imaginação fez criar
Uma existência de névoas, distante da verdade
Eu quis ver unicórnios, onde só haviam hienas
Quis pensar um eclipse, mas eram nuvens negras
Eu quis acreditar que os contrários se atraem
Entretanto, agora sei que nada disso era assim
Pois aprendi com o desassossego que legastes
E a realidade hoje vive em meus lábios calados
Aprendi a impedir tempos furiosos e sem amor
Não mais ouvirás minha boca chamar teu nome
Distância! Hoje é tudo que quero te outorgar


domingo, novembro 16

O solitário

 O solitário se faz
De areia e chuva
Sonhos e adivinhas
Secretas palavras
O passado é o que
Constrói o futuro
De lembranças e
Parcas alegorias
Submerge na noite
Onde se purifica
Desafia o relógio
Abranda as horas
Flerta com a morte
Desposa a vida
Na água profunda
No píncaro azul
Desconhece a solidão
E o mundo que padeça


sábado, novembro 15

Lampião

 
No amanhecer da noite entre lençóis
Achego-te lânguida em meus braços
Tua figura envolvente meio à batalha
Ao pé do ouvido, me confessas amar
Sílaba que tu insinuas discreta e lenta
Na névoa oculta de silentes falsidades
Das cinzas olvidadas em dias passados
Desembainho a espada com um sorriso
E olho-te num quase vingativo silêncio
E assim tu perseveras a me fazer amor
Qual algemas em sentimentos binários
Teu corpo nu desdobrado no colchão
Lá fora, as sombras permeiam as ruas
Pela noite vazia, nenhum sinal de vida
Neste meu abrigo, teu calor contagia
Sentimentos e prazeres se confundem
A porta permaneceu há muito aberta
Longos caminhos te trouxeram a mim
No amargo da ausência foste lua nova
Ora te derramas em vinho e esperança
E o velho lampião acende a eternidade

sexta-feira, novembro 7

Elétrico

 

Andava pelas ruas
Numa tarde elétrica
Relâmpagos ciscam
Entre nuvens cinzas
Olho as portas fechadas
Ausências na calçada
De repente música
De um rádio distante
Entre trovões e vento
A soprar folhas caídas
Lembro olhos meigos
Que brilham na janela
Mas repentinamente
Um raio tudo silencia
Chegando o entardecer
Um longo caminho
Nem sons, nem olhares
Foram-se tão breves
Para não mais voltar