terça-feira, abril 28

A Infinitude de Teu Encontro

As noites ainda eram alguma coletânea de horas finitas
Um rio de margens tortuosas com seus musgos outonais
Tempos de nebulosas imemoriais, foi quando te conheci
O silêncio ocupava os arrabaldes d’uma existência linear
Época de angústia e de arvoredos de folhas alaranjadas
Saíste de algum universo paralelo e reinventaste os dias
E eu acreditava tu estarias além das minhas pretensões
Vieste e fizeste luz, reordenando todas minhas moléculas
Vieste e alinhaste todas partículas díssonas de meu caos
Desde que respiramos do mesmo ar, os mesmos segredos
Fomos saborear na mesma taça do vinho da convexidade
Acolhi teu peito em meu peito, tua armadura de tulipas
Ainda que balancemos por vezes na corda rude do medo
Sem, contudo, nos deixarmos padecer nos abismos da dor
De asas abertas, voamos contra os ventos da desilusão
Nossas bocas unidas inundam-se em espirais de desejo
E meu corpo fugitivo encontrou guarida em teu corpo
Subjugando, assim, os invisíveis muros postos na estrada
No livro do existir teu nome foi indelevelmente gravado
Depois ti nada é irreal, seja no sonho ou seja cotidiano
São teus olhos dando significado a
palavra eternidade


terça-feira, abril 21

As Longas Voltas da Vida

 

Pela dura estrada dos dias

Nesta minha vida errante

Sob as árvores do bosque

Encontrei-a bela elegante

Ofereci-lhe o melhor vinho

E a taça repleta de amor

Ela não estendeu a mão

Disse esperar outros lábios

Negando a minha oferta

Eu segui estrada afora

Mas a vida gira sem fim

Passaram os anos e voltei

Ela já não é tão formosa

Parece cansada e abatida

Disse-me: cadê tua taça?

Meus lábios estão secos!

De pronto estendi a mão

Mas aqui não há nada, disse

Verdade, respondi sincero

Todo amor que aí havia

E um dia te oferecera
Dei a quem o apreciou

Viveu e morreu comigo

Levou consigo a taça

Hoje reside na memória

 

sábado, abril 18

Ode Aos Que Se Iludem

 

A solidão advém a quem ama aquela que não deveria

Que ame então sua solidão, pois não pode reparti-la

Não basta a escolha de um nome em sua imaginação

Acreditando que, por isso, o amor vai se materializar

Que a donzela de seus desejos surgirá plena e altiva

Mas em verdade, estará aprisionando o seu coração

Viverá na solidão que só as noites de frio conhecem

Estenderá a mão e apenas o que encontrará é o vazio

Em vão se debaterá buscando entre os lençóis frios

Algum vestígio que reste sob a chuva da madrugada

Peregrino solitário, caminhará por sombras absolutas

O caminho segue áspero e incerto, seja por onde vá

A ilusão é como a res malhada e dócil indo ao abate

Que insciente do seu destino, segue a pastar em paz

Nos campos, o revoar da passarada é quase um sonho

O bar da esquina é o manancial de estórias aos poetas

Eu idealizava meus poemas numa mesa perto da janela

De onde podia ouvir a brisa a farfalhar as folhagens

Alguém me oferece uma taça de vinho tinto barato

Sem rótulo e tão humilde qual fosse um franciscano

Reconheço-o o personagem triste, iludido e solitário

Que segue uma das mulheres da taberna com o olhar

Enquanto o vinho lhe enche o espírito de esperanças

Filha da noite e do desamparo, sei é a ela que ele ama

A cúmplice da solidão que o abraçará pela alvorada

Eu, sigo qual última sentinela da noite a colher frutos

Entre os transeuntes do bar neste outono de “el niño”

quarta-feira, abril 8

A Fábula dos Contrários

As sombras emergem ao leste, análogas a carvões azulados
Ainda quando paradas são puro movimento no seu interior
Refletem-se no espaço, desdobradas da cor que têm à luz
Retornam com elas à unidade que é por princípio o corpo
Súbito silêncio se concentra na imaginação, duplo aspecto
Para captar o ruído das sombras debruçadas sobre a terra
Uma antiga canção dorida do martelo que molda o cobre
Corpo e forma de folhas rubras se perfazendo em figuras
À boca do fogo vivo que consome o carvão e aviva a cor
Por quantas portas passará a palavra portadora da beleza
Inserta nos versos que narram a condensada fábula oculta
Em feixes individuais que têm o desígnio de abrir o círculo
Que antes se formara pela angústia, pelo medo e pela raiva
Fazem ultrapassar sua própria medida de tempo e de espaço
Enfim liberto de todos os disfarces e grilhões semelhantes
Flâmulas tremeluzentes saltitam amarradas diante do vazio
A multidão, na enganadora massa de seus corpos solitários
São pássaros com asas atadas arrastando os pés pelo chão
Preenche os espaços com seus movimentos desordenados
Enquanto se aglomera ansiosa movendo a boca em silêncio
O dia chega afinal, afastando os últimos pedaços da noite
A multidão deficiente de destemor furta-se a ler o poema
Põe-se a falar freneticamente disfarçada em sua máscara
Claro contra escuro são os severos quadros que apontam
E se defrontam no campo aberto pela fábula dos opostos
Se espalham pela tarde para recolher alguma sombra vazia
Serão os rostos solitários na arquitetura para outra noite
Enraizados de passado, usam caminhos ásperos e amargos
O poeta que a tudo observa distante, alforria seus versos
O poema parte, asas abertas para alçar voos sem medida
Cumprindo, assim, a aspiração de ser o pleno movimento