sexta-feira, junho 5

Poema para dias sem dor

 

A chuva lavou a cidade por dias em sua faina incansável

Os dias nasciam cinzas, sem fronteiras entre céu e terra

Ah, é difícil despertar em manhãs de horizontes prolixos

De parcas intenções, pouco menos que monocromáticas

Por descuido, o sol rompeu o cinza numa alvorada atrás

Distribuindo cores radiantes sobre todas coisas lavadas

O solário muda as perspectivas, em especial sobre o mar

Ainda quando se põe e a noite vem, conserva seu poder

Iluminando a face da lua, a deleite de poetas e amantes

Caminho descalço sob essas estrelas luzidias à beira mar

Ouço o diálogo das ondas e a areia qual canção de ninar

O que o faço hipotecando silêncio e segredo à conversa

Há tempos que a vida transcorre cercada de amenidades

E o poema se constrói suave, desnudado do substancial

Sua pungência abdicada e latente, envolta em mistérios

Mas sei também, que essa mansidão precede a tormenta

Que conduzirá de volta às palavras desfeitas deste albor

Tão inusitado que se assemelha uma quase ininspiração

Digamos que seja uma trégua, breve regresso à infância

Quando o céu e o mar, deitados na distância eram azuis

segunda-feira, junho 1

Signos de Poesia e Insônia

  Deitei-me já meia noite e a cama transbordou insônia

Como as páginas insones em branco querem a caneta

É assim que existo e resisto em surtos de imaginação

Sou um poeta com hábitos públicos, de porte varonil

Organizo meu teatro, construo o cenário, iluminação

Do início ao fim, tudo sobre o tablado do cotidiano

Encho a mochila com pensamentos, fecho os zíperes

Com violino na cabeça, oboé no peito, flauta nos pés

Faço minha orquestra para seguir o caminho trânsito

A cada dia sigo contra o vento, sigo contra as marés

As palavras escritas me trazem mais letras a escrever

É o resumo taurino d’um pretérito mais-que-perfeito

Vez que não sou perfeito, faço-me auxiliar de verbos

Sujeito oculto faço de minhas orações subordinadas

E assim, construo a vida com gesto, música e palavra

Posso ainda dizer que sou um arqueólogo de sonhos

Que vivem alguns nas sombras outros, porém, na luz

Um manifesto de sangue, meu caminho sem amarras

Assim vou articulando o poema, por tantas palavras

Pois o poema é um ato de lucidez contra os silêncios

Jamais por moedas, mas aplacar Vinicius a murmurar

Insuspeitamente, todos seus poemas aos meus ouvidos

Pois o poema é o milagre do compasso, a vida e morte

Os sinos que repicam nas extremas memórias infantis