Na minha memória bailam os vastos caminhos que percorri
Não é difícil visualizar as veredas onde caminhei descalço
Sinto a presença de flores que se desintegraram no campo
Contudo seus perfumes persistem a habitar-me as narinas
Recordo do rubro-ocre dos telhados à volta da esplanada
Antigas casas que nem o tempo se incumbiu a transformar
Casas humildes, cheias de fotos esmaecidas pelas paredes
Antes de entrar na cidade, avista-se ao longe o campanário
Que ao badalar promovia a revoada de pombas assustadas
Os sinos compassados eram um apelo inegável aos domingos
O murmurar das chuvas sobre os zincos não quer silenciar
Um diálogo de magia que me conduz às pontes sobre o rio
Percorro distraído as ruas e praças com seus mercadores
Um grupo finge ser cavaleiros com suas armaduras de lata
Leva-me a outro tempo, uma velha capital do renascimento
Tomo um gole de vinho tinto seco de uma mesa do cenário
Sigo vagando, o céu se incendeia ao pôr do sol no horizonte
A noite pede passagem, suave, para se impor no firmamento
Onde brevemente explodirão milhares de estrelas piscantes
Segue-se a madrugada e chego às areis mornas da beira-mar
Olho o mar na sua profundeza, imagino vindo as velhas naus
Seus canhões ociosos, os remos imóveis, velames serenados
A maré traz lascas de naufrágios, da imponência de outrora
De volta às montanhas verdejantes, observo a velha bruxa
Trazendo consigo o cadinho, macerando ranzinza a poção
Que me devolve à realidade, sobre as pedras pisadas da vida