quinta-feira, setembro 3

Memorial Da Senda de Outrora

Na minha memória bailam os vastos caminhos que percorri

Não é difícil visualizar as veredas onde caminhei descalço

Sinto a presença de flores que se desintegraram no campo

Contudo seus perfumes persistem a habitar-me as narinas

Recordo do rubro-ocre dos telhados à volta da esplanada

Antigas casas que nem o tempo se incumbiu a transformar

Casas humildes, cheias de fotos esmaecidas pelas paredes

Antes de entrar na cidade, avista-se ao longe o campanário

Que ao badalar promovia a revoada de pombas assustadas

Os sinos compassados eram um apelo inegável aos domingos

O murmurar das chuvas sobre os zincos não quer silenciar

Um diálogo de magia que me conduz às pontes sobre o rio

Percorro distraído as ruas e praças com seus mercadores

Um grupo finge ser cavaleiros com suas armaduras de lata

Leva-me a outro tempo, uma velha capital do renascimento

Tomo um gole de vinho tinto seco de uma mesa do cenário

Sigo vagando, o céu se incendeia ao pôr do sol no horizonte

A noite pede passagem, suave, para se impor no firmamento

Onde brevemente explodirão milhares de estrelas piscantes

Segue-se a madrugada e chego às areis mornas da beira-mar

Olho o mar na sua profundeza, imagino vindo as velhas naus

Seus canhões ociosos, os remos imóveis, velames serenados

A maré traz lascas de naufrágios, da imponência de outrora

De volta às montanhas verdejantes, observo a velha bruxa

Trazendo consigo o cadinho, macerando ranzinza a poção

Que me devolve à realidade, sobre as pedras pisadas da vida