quinta-feira, janeiro 17

Janelas


O falso brilho das promessas é o perfeito retrato do que é ilusão
Nossos sentidos se lançam a acreditar que tudo será como dito
Os corredores e cômodos silenciosos e vazios são a prova disso
A janela aberta da casa, ao vento, imita asas, mas não há o voar
E o que restou para sonhar do desejo de viver novos horizontes
É cais varrido pelo aferro das águas de tantas e tantas partidas

O sol inclemente cresta o chão à margem do rio de fato distante
Mas não há o porto a ancorar nestes tempos tão ermos e áridos
Olhar afora dos batentes da janela pode trazer uma ideia fugaz
Um pensamento, por certo irreal, de que haver-se-ia a liberdade
De se lançar noutro voo às cegas e afastar o que não contenta
Na quimera de que o horizonte tão ansiado poderia ser logo ali

Mas é tudo tão remoto e já não se sente a textura das estações
E não há o conhecimento que te dê à mente os milhões de asas
Que são hábeis a reafirmar que o amor existe e é quanto basta
Nem a esperança que insiste ficar pela crença que deve resistir
Tal esperança nada mais é além de um tecido puído pelo tempo
Estendido no caminho de tanto tropeço nas dores da revelação

A vida cobre-se de equações mal resolvidas, de flores efêmeras
A vida é uma primavera de pétalas caídas, de adeuses precoces
Por isso sigo em meu desterro, sem sorrisos, atrás desta muralha
Mas aguardo o milagre que um som de violino trazido pelo vento
dissolva o silêncio e permita que a minha mão toque a tua e que
À sombra dos girassóis nos mostre o caminho de volta ao amanhã


segunda-feira, janeiro 14

Hesitante


A vida escorre hesitante em  dias de dor dentro do peito
É cair a tarde, vem o crepúsculo e, com ele, frio e solidão
Na memória dos folguedos de criança de antigos verões
Ainda lembro da propaganda elegante de sapato na tevê
Recordo também do seriado de ficção proibido pra mim
Tocava uma música tão tensa como as cordas das harpas
Enquanto lânguidas sombras gravavam a alma de silêncio
Cortejo a chegada das últimas horas do dia que se retira
Com saudades das bocas vermelhas e sorrisos de alecrim
Do palácio luxuoso que o rei prometeu, das naus à deriva

À noite, aparenta que a cidade se encolhe por todo lugar
O perfume das flores se faz oxidado num verão tão pobre
Pobre de sonhos e romance enquanto a neblina se alastra
Num ardiloso ato na derradeira esquina de uma vida vazia
Para ir calar o vozerio febril das ruas de forma insinuante
O que era um lençol de paz e calma na tarde, é um arrepio
Como nas alucinações vespertinas, sob o céu avermelhado
Que ouve vozes ditando presságios nos rumores dos ventos
E o aroma doce de gim se espalha em uma gargalhada ébria
De súbito tocarão os sinos, sabes tu por quem eles dobram?

Há tempos que o sol despe da pedra sua couraça de musgo
A chuva se filtra nos veios da pedra e irá formar novos rios
Tal aquela criança que, pé descalço, irá reinventar o mundo
Noutro dia haveria de gritar inconformado, hoje se resignou
Cada qual deve suportar sua sina, digo ao amigo que se vai
Não flor, morrer não é como hibernar e em breve o saberás
Há um céu sem estrelas que nos faz estar como numa caixa
De teto preto, que em outros tempos se via uma claraboia
De onde se podia olhar o mar e, sob a luz da lua, até sonhar
Tal tempo se foi, e nós aflitos e perplexos, só observamos

Ao amigo Paulo Della Rosa