quarta-feira, abril 24

Oceanos


Sou a nau que singra os mares em busca do cais, um abrigo
Mas não há terra à vista, apenas o solitário azul desse céu
As gaivotas na algazarra em bando passam céleres por mim
Seguem o caminho que só elas conhecem rumo a um porto
Carrego nos porões tristezas ocultas, que as aves não vêm
E no horizonte as nuvens rugem anunciando a tempestade
Logo chegará a chuva, profusa, sinal que o outono já vem
Agigantam-se as ondas contra o casco neste mundo tirano
De forma inexorável, sopram os ventos insidiosos do existir
Nos paradoxos da vida cotidiana, contínua e contraditória
Já nem sei onde mais nos encaixamos nessa surreal história
Num agora que não é sonho, mas também não é verdadeiro
Será parte de um momento fictício ou está sob minha pele
Na minha carne de realidade indelével como uma tatuagem
Agora nesta busca interminável, nada parece fazer sentido
Só viver em luta com um passado que jamais será esquecido
Como um retrato na memória que se partiu em mil pedaços
Ou a música triste a tocar, que inda ecoa nos meus ouvidos
Foi assim que partimos em silêncio na busca de nós mesmos
Medos, amores, receios e beijos... foi muita coisa entre nós
 Hoje a distância é tanta, que nem o oceano foi capaz de ser
A noite acaba, a história termina. Essa chuva já virou rotina
O homem de terno cinza olha o céu e abre o guarda-chuvas

domingo, abril 21

Noturno 6.3


Bastou um segundo e a noite se encheu de gritos surdos
De palavras ininteligíveis pronunciadas quase a meia voz
De lábios que se moviam, mas não correspondiam ao som
Quem quereria fazer a minha alma tão sofrida e solitária
Que batalha para ser o que é e não o que querem se seja
Seria um feitiço ou uma maldição? Ou seria um pesadelo?

Porque as pessoas procuram mentiras em meio a verdades
Ou ainda só conhecem a verdade em suas próprias ideias
A culpa as faz rigorosas com uns, permissivas com outros
É a amaldiçoada e eterna luta entre o ser e o estar sendo
É a vida na terra do faz de conta onde vale o que parece
Aquilo que seja mais fácil acreditar que a dura realidade

Vida pálida, consumida, alquebrada e escoltada pela dor
Por teorias flagelantes ditadas pelos que não sabem amar
Que te obrigam ao silêncio, pois o querer lhes incomoda
E o mundo fica descolorido e sua presença não é notada
Enquanto derramas lágrimas melancólicas na noite escura
Em meio ao pânico de não encontrar saída desse labirinto

Há tempos que me sinto afogar em um oceano de mágoas
Penso que não estou onde deveria estar, ando em círculos
Resvalando entre viver ou sobreviver em sonhos distantes
Viajando em estradas estéreis margeadas por flores secas
Onde meu sangue é derramado em vão sob o céu sem luar
Porque preferes ver meu coração triste e abatido assim?

quinta-feira, abril 18

Sensações


Paira a luz sobre a forma que exibe em cada aresta a cor
De olhos mansos, pele macia, fala doce, jeito encantador
Tal beleza tão exaltada desprende-se do mundo-matéria
Para irromper em harmonia no éter infinito das emoções
Um descuido e pouco adiante é um turbilhão envolvente
Assim que se espera ter encontrado o amor, mas é ilusão
Viver requer equilíbrio, mais sabedoria que precipitação
A imagem bela de que se crê amar é manifestação fugaz
E o vazio emergirá como vulcão que dissimula sua a lava
Imaginar que no rosto está a sensação, o eterno cometa
Que o corpo pode escorar todas tempestades que virão
Olvidar os signos que vêm do interior é apenas equívoco
O amor não pertence ao corpo, mas está na raiz da alma
É o bálsamo que catalisa a adesão da argila com o ferro
Não se sujeita às geometrias, antes é complexa equação
É o que encadeia numa só trama, a inocência e o abismo
Quando o silêncio a tudo revelar em toda sua plenitude
Todas respostas se farão inúteis serem ditas ou ouvidas
Pois o amor é calma e angústia; riso e dor, o sim e o não
Ele se revela sem alarde, expandindo para ser a unidade
E faz o tempo deixar de ter sentido para ser eternidade