Depois daquela noite, guardei meu medo nas gavetas
Juntamente com todas loucas coisas, pranto e vozes
Desvesti o incômodo dos segredos e olhei a paisagem
Liberto da umidade antiga que usava vestir nos olhos
Desabotoei o lume da manhã, bebi palavras sem nexo
Afastei o rosto das criaturas que rastejam no escuro
Para estreitar as longitudes de um céu mais luminoso
Ainda sinto o cheiro do escuro vir arranhando a hora
Ah, como caminhei na noite deserdado de esperança
Tentando encontrar os castelos que dantes construí
Perdidos debaixo do véu de nuvens de toda ausência
Caminhei por essas ausências embriagado de insônias
No coração de madrugadas já impregnadas do cristal
Que anuncia as manhãs e sufoca as lágrimas solitárias
Caminhei nos espaços da alma entre as coisas íntimas
Os espelhos do semblante, dores dos idos da infância
Que asilam no peito vazio, a imagem do primeiro amor
Silenciei os tambores do desejo desnudado de ilusões
Para neste enredo obstar tudo que afaste meu canto
Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
sexta-feira, junho 24
O Canto
quarta-feira, junho 22
Compreendi
Entendi bem anteontem que a
maldade ainda existe
Pensei que houvesse sido abolida dois mil anos atrás
Quando o vento sul soprava leve o trigal na planície
Alegrado pela ventura de ser o alimento e a miração
Quão feliz era observar as hastes dobrarem-se lentas
O tempo tragou o prelúdio e a sublimidade da dança
Das hastes de trigo, douradas, ceifadas dia após dia
E mais que eu fosse lúcido entre o tumulto noturno
Era bom rir e cantar enquanto do céu vertia a chuva
Crianças deste século, que fazes? Cadê os tambores
Os folguedos inocentes, o taco, o carrinho de rolimã
Cadê teus valores familiares e sólidos, cadê crianças
Não há mais tempo para ser criança, soldado virtual
A vida ainda está lá, mas também estão os demônios
O pó imaculadamente níveo nada tem de imaculado
Seu veneno finge-se de mel, deixa o sangue inquieto
Eu olho os novos dias, cheio de melancolia e aflição
Mas alguns dirão tudo isso é coisa do tempo natural
É o novo normal: ao sair cuidado com a bala perdida
domingo, junho 19
Súplica
Choro lágrimas
ocultas, pelas crianças da noite, violadas
Atrás dos muros da cidade banhados de palavras inúteis
Nos desenhos multicores, pétalas de rosas desgrenhadas
A mulher sorri o seu sorriso tinto de soluços amarelados
Choro lágrimas ocultas que ninguém mais além de mim vê
Meu cabelo despenteado é todo igual ao de meus mortos
No rumo do exílio onde se quedam estrelas arrependidas
Na coragem de ousar os últimos sorrisos aos caminhantes
Choro lágrimas ocultas e meus olhos apontam o perpetuo
Dou adeus à carne da qual me despeço no suor da ilusão
Jogo camélias às jovens putas deserdadas de sol e de luar
Pelas humilhações que devem viver no tapete de ajoelhar
Choro lágrimas ocultas, mas não preciso chorem por mim
Sou o senhor da insônia entre o apocalipse e a primavera
Onde tolas aranhas tecem seus véus ao sopro do silêncio
Na noite que ergue-se em súplica a quem não chora mais