Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
terça-feira, julho 30
quarta-feira, julho 24
Lágrimas Gramaticais
Lá estava ela embarcando no trem
Eu e meus olhos mareados d'água
Mão estendida à
beira da plataforma
Aceno como pudesse apagar a dor
E meu desejo, correr na direção dela
Confessar não, meu coração implora
Dar-lhe outro abraço, não um adeus
Dizer que tudo irá, em breve, melhorar
O apito do trem, se perde na distância
Tivesse ido, ao certo, não estaria eu
A derramar estas lágrimas gramaticais
domingo, julho 14
Sanidade
Morte esbelta e rompante,
indizível sereia musa dos suicidas
O céu é de um azul tão comum
e o vendaval sopra o milharal
Seu chamado replica no
silêncio, como um réquiem ofegante
Para evitá-la tem que
tornar-se surdo e tornar-se emudecido
Ocultar a língua, tato e
olfato e amanhecer entre os mansos
Meu coração acovardado admira essa mulher signo a pulsar
Anseia amá-la e ouvir a harpa performar as sonatas da noite
Pois ela é pranto e semeadura, exibe seus vorazes argumentos
Sem planos, votos ou rumores, apenas amar nus corpo e alma
Na louca confiança, no esquecimento iminente de si mesmo
Há que se despertar pela noite que pode ser mil e uma noites
Ou até durar apenas poucos minutos, mas deve ser
verdade
E de intenso, às escondidas embaralhar de novo o
almanaque
Seguir sem inventar valores, apenas aprendendo a
aprender
Tê-la entre os braços sem olhar os passos que ficam pra trás
O mundo existe de mentiras incandescentes. Existe e ponto
E não é metáfora, apenas
é essa quietude-delírio impossível
Essa espera sem frutos
de quem planta sementes de tâmara
Uma mulher peculiar que desabou sobre todos meus
sonhos
Para tê-la ignoro minha
sombra envelhecida, rasante ao céu
Abro-lhe o decote com ar possessivo e o que mostra é vida
Exuberância e abismo sob minhas pálpebras e mãos sôfregas
E assim é verão de novo, o amor certo a desafiar a
sanidade
quinta-feira, julho 11
Seca
O manancial
secoO sangue fluiA árvore caídaFolhagem
vendavalSem luaSem nostalgiaCego de amorA cotoviaO pintassilgoAtriz escândaloMilagroso caosDeixa-me
entrar nesseEnigma e
voltar livre pelo arÉ egoísta ter
um sonho só seuOnde o morto
faz papel de imortal.
segunda-feira, julho 8
Segundos
Na
pretensão pueril de criar palavras, somos poderosos
Cerramos
os punhos e diante de um inverno que soluça
Digamos
melhor: acreditamos que soluça e isso já basta
Mudamos
tudo em imagens iluminadas e tênues
suspiros
Damos
pálpebras, lágrimas a uma névoa, uma atmosfera
Como
acordes de amor, envolvidos em carne e abraços
No ar
pesado e viscoso das manhãs cinzentas ou tristes
O
inverno é a mulher de vestido decotado e de olhares
Lascivos
sobre si, rezas e suspiros, lépida e tão atrativa
Que,
qual de nós podia imaginar que a morte a acaricia
Que aguarda em impossível quietude sua vez de partir
Há que
se amar, salvar-se do desastre do esquecimento
Amar
para ao menos supor-se a salvo, que é o bastante
Amar
essa mulher, fundir-se a ela, pranto rosto
e pulsar
Há tão pouco a nos impacientar, a almofada, o
abismo
Bruxas escarnecidas e teologias rancorosas,
negações
Enquanto
eu aqui preencho minha insônia com
versos
Subindo
a “escada para o céu” de dois em dois
degraus
Se a noite desabar sobre os sonhos, o delírio é sanidade
Não
canta, mas é qual se cantasse, confortável e vazia
Seu
vento espanto, silva entre o silêncio das folhagens
Há que
amar-se sem pretexto, sem desperdiçar a noite
Amontoando
desejos e luxúria, segundo após segundo
quarta-feira, julho 3
Silêncio Mortal
Eu
morreria de silêncio acaso nenhum poema tivesse escrito
Não o
silêncio de palavras impronunciadas em salões sociais
Mas o
silêncio infecto e incurável que se alastra pelas veias
De
quem vira o rosto quando vê a injustiça ou intolerância
Do
preconceito insepulto d’eu fugir ao pensar tradicional
Eu
morreria de dor se acaso nenhum poema tivesse escrito
Ah,
quantas ovelhas já saltaram as cercas da minha insônia
As
soníferas ovelhas pastoreadas para me entregar à poesia
Tantas
vezes a carne dilacerada nas estacas da indiferença
As
amargas e doloridas estacas dos olhares de reprovação
Eu
teria morrido de tédio se nenhum poema tivesse escrito
Preto
ou branco que importa a cor além da cor do caráter
Azul
ou rosa a escolha é de cada um, honestidade importa
E não
escondo que gosto do ondular de garupas femininas
Egresso
do tédio das tardes chuvosas, é vivo e deixo viver
Por
todas as madrugadas vividas e todos os olhos olhados
Por
todas as esquinas e todas as lembranças clandestinas
Por
todos discursos verborrágicos, os silêncios eloquentes
Por
todos sim que já disse, por todos não que ouvi, talvez
Não
fosse o poema escrito, eu já teria morrido de silêncio
segunda-feira, julho 1
Era Amor
Ontem
sonhei com teus olhos quais esmeraldas
tardias
Na
muda vertigem evanescente que vem roubar
fôlegos
No
peito outrora inanimado palpitando arisco a galope
O
coração, translúcido, entre todos astros do cosmos
Em sua
vibração inaudita, a narrar infindas metáforas
E,
íntimo de espanto, ousa nominar de
amor tal sentir
Líquidas
vogais em melodia serena que a
chuva entoa
Ao
cair no zinco do telhado vinha para recitar
poesias
Enlevados
na música desse rio vertical que cai do céu
Por
mais que o poema escave na caverna dos fonemas
Sei não o dirás nessa tua formosa boca rubra de rubi
Mas sei era o amor a nos envolver ao juntar os lábios
Qual crianças perdidas na noite rompendo
distâncias
De
mãos dadas a caminhar sonâmbulas pelas estradas
Meio a
encantos e serpentes, arcanos e
confidências
Teu
corpo insinuante, tua pele sob meus dedos
ávidos
Desenhando
um trajeto de ousadia e curvas
sinuosas
Mas
mais que curvas e desejo, o amor na
sua essência
Devo
sucumbir à impotência de quaisquer vocábulos
Hábeis
para descrever sentimentos: a voz embargada
Que
recita versos com o tédio que só o domingo tem
A ânsia de erguer o manto do poema da segunda feira
Imitando
a água do rio e sua virtude de ser
disforme
Sabendo foi amor o fogo que nos aquecia no inverno
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