segunda-feira, dezembro 16

Utopia


Queria encontrar a palavra certa para estes dias cinzas
Para tornar explícita minha ternura, nessa vida oblíqua
Quero acreditar no sim, sem esconder as garras de robô
Quero desnudar-me para o orvalho e fazer tudo simples
Como uma prece silenciosa, pura sem dogmas ou religião
Quero que todos os acenos sejam apenas os de chegadas
Correr em direção a teu abraço mais escarlate e cordial
Quero tempos que se tenha tempo de responder como vai
Espero que os olhares importem tanto quanto uótizapes
O que o sussurro ao pé do ouvido se receite tal remédio
E que as letras “a Deus” só se escrevam, assim, separadas
Quero que na tarde sopre a mística de risos e acalantos
Quero meus fantasmas tão mais mudos e menos pontuais
Que quando se buscar lembranças não precise anestesia
Pois, não haverá dores a recordar de agora para sempre
Quero, por fim, que estejas sempre ao alcance da retina
Na ponta dos dedos, qual o melhor sonho possa imaginar
Queria te ver chegar, sem avisar, só pra me levar contigo

Dos poemas




Queria te escrever um grande poema
do tamanho e à altura de tua
existência em mim naqueles
momentos em que o relógio
inclemente transbordou instantes de
eternizada espera. Uma longa espera
como a de quem aguarda a terra
lavrada germinar

Não um poema que tenha suas raízes
nas palavras, em que frases ocas
sejam seus troncos e a gramática sua
seiva. Deve ser algo maior, pois se
destina a uma rara flor deste
hemisfério banhada de límpidas
auroras e cabelos dourados.

Um poema que seja como um sol,
inaugurando vermelho uma realidade
de pura cor e efêmeros ventos, que
deixe a névoa suspensa de teus olhos,
nas miragens do possível. Um poema
real, que toque teu coração mais que
nas palavras exatas e articuladas.

Mas o poema assim não se faz dessas
horas ociosas nem surge da decisão
elaborada de fazê-lo; por vezes o
poema vem de amargas safras que
adentram pela madrugada insone e
sem glória, numa noite solitária, além
da consciência, entre a música e a ira.

Esse poema é só teu e nele te
reconhecerás, princesa, pois será
como um canto que paire no ar e
preencha a manhã de domingo de
calor, mesmo no décimo andar. Será
como o fogo que alimenta a emoção,
mas não a queima.

Queria poder te dizer nesse meu
poema de um amor de cristal que
ilumina a vigília de desejo que meu
canto vença barreiras, posto que és a
rosa que ele tenta captar na
plenitude de todas formas mesmo
que sejas, ainda, mais essência que
presença.

Diríeis que esperavas o mestre
ponderado, mas no íntimo sabes que
é o poeta que te ama com insana
intensidade quem de fato desejas.