Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
sábado, novembro 12
quinta-feira, novembro 10
Criança
Tu pegaste na minha mãoNão sei o que fizesteMas o cinza da vidaEsvaiu-se n’um brancoIndescritível em teus lençóisTu me tomaste nos braçosE eu, criança, viTeus olhos, teu rostoTeu corpo de vales e cumesTeu sabor e teu perfumeE te segui tal cardumePor doces mares revoltosAo sol qual só teu abraçoE a cada orgasmoSentia-me no espaçoRenascido a cada vezE tu, ora santa ora nuaSabias-me menino assustadoQue tu fizeste homematônito e apaixonadoHomem perdido, a cada ausência tuaFiz me desencontradoTu me mostraras caminhosDe onde não há caminharAgora que fostes, como posso viver?Como voltar ao antes de tudo?Como, sem me perderNessa multidão sem almaQue erra os dias, erra a ruaPorque me fizeste quem só a ti fui?E que nunca tive em mim para serSonhei. Era tua janela fechadaPensando ouvir tua vozCorri à tua portaComo quem foge do algozAcordei no vazioNa sina dos que são sós
quarta-feira, novembro 9
Cantico em Três Atos
Canto primeiro: do desconsolo
Por todo o tempo que teu nome viveu em minha garganta
No celeiro dos esqueletos de minhas recônditas memórias
Das lembranças partidas para a morte solitária do oblívio
Olhai-me agora e vede as estrelas que caem de meu peito
As andorinhas azuis bailam-se nas tardes diante dos olhos
É que me encontro, assim, menino bem às três e quarenta
Por isso sigo só quase naufragado por entre antigas águas
Olhai-me agora entre os mil cantos esquecidos das tardes
Se minhas mãos jubilosas, úmidas de águas frias da geada
Erguem-se ao céu a rogar do sol o calor de pífias carícias
E sirvam entre nuvens inimigas qual camisa ao desconsolo
Olhai-me agora a pisar sozinho na grama crocante de gelo
Canto segundo: da saudade.
Vou dizer como tenho andado entre os mistérios da noite
Soluçando como o menino solitário a morder a doce fruta
Figos pingando gotas açucaradas no decorrer do caminho
Ao vento ouço o cantar dos duendes no idioma do tempo
Ah, essa indolência das longas tardes passadas a beira-rio
Aspiro o aroma da camomila que me preenche os pulmões
E meu peito ferido, ora em branco, fora tocado pelo amor
Desiludido, saudoso hoje espreito a fumaça das chaminés
No poente, os trens, tal longa centopeia, sinais de partida
Cruzam meu mundo, entristecido, entre amigos dispersos
Na saudade rubra do crepúsculo ao farfalhar dos cardos
O vento a liderar a visita de negros pássaros, uiva à janela
Canto terceiro: da renovação
A lua e sua luz nevada realçando as virginais madressilvas
São testemunhos dos dias passados na glória de ter vivido
Meu coração sucumbe ao feitiço encantado das estrelas
E vê teimosos cometas a cruzar o céu que um dia foi teu
Nos jardins da vida sangramos no estio, raiamos na aurora
Enquanto pássaros abrimos as asas para ganhar todo azul
Sempre fazendo que o coração guie nos zéfiros outubrais
Apreciando lá de cima as humildes ameixeiras amareladas
O campo ondulante de lavandas espalha seu perfume lilás
Os ondulantes e alvos algodões flutuam levados pela brisa
O horizonte os aguarda e é onde liberto, enfim, vou estar
Olhai-me, afinal, já não caminho mais às cegas na campina