Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
quarta-feira, fevereiro 1
sexta-feira, janeiro 20
Alguém
Nem sei teu
nome e já te fizeste qual turbilhão neste vazio
Tu apenas
chegaste cintilante, revolvendo a noite solitária
Sem importar
quão escuro, sombras e névoas na penumbra
Por mais que
eu não permitisse, entrastes em meus sonhos
Antes, mais e
acima que todas as pessoas ou qualquer uma
Que eu tenha
sentido próxima, ainda que um amor furtivo
Qual uma
ligação sideral, ora silenciosa, ora um relâmpago
Que arde em
mim no instante fugaz que precede o trovão
E assim vieste
nessa tempestade incompreensível, imatura
Feita de
momentos cheios de impertinências, de distância
A se
transformar nesse desejo rubro, sufocante e visceral
Que já venceu
oceanos, atravessou horizontes só por mim
Sei-me tão
imperfeitamente humano, mas saboreio o divino
Quando meu
corpo se insere no teu e me privo de pudores
Um amor
celestial, que por paradoxo, é malícia e é feitiço
Que dilacera
meus sentidos e escrúpulos a sentir teu gozo
Sei que o
amanhecer trará a dolorosa certeza da ausência
E ainda assim
sinto teu gosto em mim a alimentar a insônia
A propor
maliciosas descobertas de recônditas anatomias
Antes que um
gélido dia, sem tom e sem som venha nascer
quarta-feira, janeiro 18
Marionetes
Era amor e nos
disseram que era só disfarce
A real
felicidade, incomodava aos obscenos
E nós, como
marionetes, dançávamos a girar
A estreitar as
linhas do mundo nesse abraço
E o nosso
coração batendo num só compasso
Inscientes do
tédio ou da morte que rondava
Há a verdade e
há outra verdade e o dia veio
Ora sou o
desencanto d’uma luz tão sonhada
Da sombra azul
de um céu oculto por nuvens
Da voz ausente
tão igual quanto distanciada
Dias de sol a
caminhar, como anjo nu a vagar
Desalentado
pelo recolher das asas e não ver
A copa das
sequoias a enroscar nas estrelas
As orquídeas,
tal talismãs, no verdor da selva
O segredo de
um coração confuso nos átomos
Mas sei, nada
foi irreal em nossa curta vivência
Porque te amei
antes do primevo verbo criador
Sei também me
amaste, una, radiante, desigual
Com tua
história de paz nas fábulas do existir
E por termos
sempre sido um, ainda somos dois
Mesmo que de
nós, hoje restemos somente um
domingo, janeiro 15
Tormenta
O girassol não
gira ao sol, pois o dia é de tempestades
São as
tormentas que arrastam folhas e nem é outono
Mas a poesia
não é a tempestade. tampouco o ciclone
É um quê dessa
vida que caminha num sonho púrpura
Entre
girassóis, esquiva dos pesadelos da vida e morte
No espelho da
noite há sentimentos no corpo e n’alma
As ruas
avessas da cidade exibem seu abissal encanto
E o mofo da
ausência exala o odor das flores exiladas
Onde
transitara a miséria dispersa na distância triste
Na tábua da
salvação, escrevo este poema emergente
Que os ladrões
não verão e os homens bons não lerão
Mas no azul
profundo da imensa noite virá se revelar
À insônia,
escrevo mil palavras indormidas e digo não
Relembro-a no
aroma austero da resina, o vinho tinto
Posso ouvir o
canto de paixão vindo da porta ao lado
No silvar do
vento ao ouvido, soam gemidos poéticos
Engana-se quem
dizer que só sonha quando se dorme
ou imagina
fácil transformar a palavra solta em ideias
quinta-feira, janeiro 12
Sentinela
Como eu quisera
ver o rosto do leitor animado ao ler
Estas tão
humildes linhas, momentaneamente ferozes
Rompendo
abrupto caminhos por pântanos desolados
E, ao invés de
páginas selvagens de um escuro veneno
Transitar entre
paradoxos espirituais de leitura lógica
Queria
seduzi-los, não menos, a desconfiar que o livro
Revele como
salvá-los das emanações mortais da alma
Talvez meu
poema não deva ser lido por qualquer um
Que receie
adentar ao vento, por terras inexploradas
Que fira almas
tímidas inaptas a ler este fruto amargo
Nem espero
olhos fixos, numa contemplação augusta
Como se olha ao
pai, que taciturno, espera o inverno
Que venha frio
e veloz, de algum ângulo do horizonte
O pássaro mais
velho na vanguarda, a liderar o bando
Estala o bico,
como fará a pessoa que não esteja feliz
Meus versos
oscilam insensatos entre o som e a fúria
Sonho e
realidade mesclam-se como a água ao açúcar
E são a
sentinela melancólica que alertará de inimigos
São o presságio
que há um iceberg nessa figura calma
Sugerindo
guinar a filosofia a bombordo ou estibordo
Sou mais uma
ave curiosa que esse capitão habilidoso
Sou o lado
invisível do triangulo insciente do caminho
quinta-feira, dezembro 29
Antídoto
Esta insônia enlouquecida que desaba sobre todos os
sonhos
É a matriz dos meus poemas que são um antídoto contra
dor
E assim distribuo os versos, como um linimento sobre o
papel
Não direi dos passos antigos de contornos tristes e
caminhos
Calcinados e errados que andei, sem pretextos para
nostalgia
Desejo fazer que a vida retome com força, abrir as
pálpebras
Ver-me a salvo, pelo menos crer-me a salvo, que já é
bastante
Se o poema não é a unção milagrosa, sem contra
argumentos
Os versos também mostram o que atrairá viver às
escancaras
Mesmo o que não é dito, não deixa de acontecer, só por
isso
O que se necessita é conter o lamento, pai de tantas
agonias
Mazelas não devem, malgrado não haja manual de
instruções
Ser revelada aos inimigos. Deixar no vazio é mais
confortável
Os noticiários é que veem como atrativo repetir os
desastres
Há que se tornar surdo-mudo ou cego, mas atento aos
signos
E não cantar, mas para espanto deles fazer como se
cantasse
Sob um céu comum, uma só noite pode representar mil e
uma
Bendita noite azul caminhando à deriva, mergulhar no
enigma
Para ser outro e amar.
Amar com amor de valor, sem astúcia
Então, não se deixe levar por contradições que só a
razão vê
O mundo tem máculas e não há feitiço ou fé que o
desminta
sexta-feira, dezembro 23
Quando as nuvens passam e o céu é feito do azul cobalto
É sinal que nova chuva vem, o sol é só memória no poente
O eco meramente repete as mentiras que do vento ouviu
Ideia de futuros provisórios natos e findos em mausoléus
Há poucas coisas tão ensurdecedoras quanto é o silêncio
O poeta é resistência que não vai calar rasgando-se livros
Como mago, salva palavras em afronta à usual servilidade
Tatuando-as na lembrança, à esquiva de ímpias tradições
Nada aqui ou além, imóvel qual a pedra aceirada pelo rio
Assim ilude os algozes, oculta seus dentes entre a bruma
Desde as mais longínquas primícias, estava lá a oposição
Sempre fugaz fazendo o inventário de vantagens quistas
Toma lá, dá cá rumorejam ocultados detrás dos biombos
No mais, esperneios pueris desviam olhares de suas redes
Fica para trás dessa rápida investida, só o chão crestado
Um povo destruído pela intempérie, há tanto anunciada
Jacentes e esquecidos são os invisíveis aos olhos nobres
Dois brinquedos que flutuaram sobre a lama da omissão
Sinalizam famílias extinguidas, o fim das fábulas infantis
Homens de pudor incorpóreo de promessas incumpridas
Resta o odor acre da terra, o pasmo, o fervor sem fruto
O sol a burlar o cinza faz brotar a parede pintada a lápis
Emergem da lama escorrida em meio a outros destroços
Com a certeza de crianças que já nasceram moribundas
Serão lembradas entre lágrimas quando nova chuva vier
Ao poeta munido de sua pena, obriga recriar nos versos
O grito dos que não puderam gritar, qual fosse vinga-los
Evitar àqueles que, anos a fio insolidários, vistam louros
Façam-se protagonistas salvadores do mal que causaram
Olvidando que esse sangue derramado é do seu descaso
Mais um verão findo e almas soluçarão entre as árvores
A poesia impedirá esquece-los: são vítimas da corrupção
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