quarta-feira, fevereiro 1

Poema a 10 mãos

A tarde morta se faz em noite
Sob minhas pegadas errantes
Subleva-se o eterno espanto
De minha solidão devastada
E esta arrogância incendiária
Traz os fósseis de quem fui
 
A tarde muda sua roupa
como no dia a noite já é
inexplicável descanso, divino
hora de ser anjo, perturbada
choro de soluçar, pular do sofá
perder minha mãe ou crescer
 
Como renda amarela ao vento
a tarde ruma ao fogo do acaso
A chama intensa chama o pulso
da noite que se achega langorosa
Seu cálice transborda de negrume
e sorvo sem culpa o veneno de sonhar
 
Deixem que eu acabe de sonhar, Certo é
Que me deito não que durma, Meus olhos
Dormirão sem dúvida, eu não, são minhas
Pálpebras contra as suas, dormirei eu
Acordando no mesmo templo, pela mesma
Sina difusa escarlate, ao tempo
 
Não sei os deuses nem o céu
esmaga-me a terra
onde me procuro entre as cinzas dos medos
embrião de um ventre renascido
fogo, água, palavra, chão que seria
se nunca tivesse sido.
 
Na tarde que me veste a poesia aflora
revive os sonhos ao romper da aurora
madrugadas densas, tensas, intensas guerras
uma espera árdua , entre a lua e a terra
entre o sono e a cor, de vestir-se vida
de acolher chegada e não ser despedida.
 
oh profana tarde que te fizeram?
acorrentada pelos ponteiros de uma bússola vogal
vestida de leve negro,bebes grafite à mesa dos versos
e de repente mescalina noite cai
em folhas papel envelhecidas
substratos de um novo poema
 
Amanheceu tarde a minha noite,
ainda que me sinta de tarde,
arde uma chuva de estrelas.
D'olhos fechados consigo vê-las,
de olhos abertos sou cobarde.
Palavras cruzadas, velho açoite.
 
Apenas me resta aqui um verso
triste, perdido, no meio de tantos,
vindo do nada.
A lua acorda desnuda por detrás das nuvens
E o sol é um relógio parado neste
Acovardado tempo chuvoso a passar.
 
Fósseis de eternas moradas
De coisas fúteis estilhaçadas
Enquanto o astro rei brilhou
O mundo nele se acomodou
O sonho cursou seu caminho
A vida se esvai, de mansinho.


sexta-feira, janeiro 20

Alguém

Nem sei teu nome e já te fizeste qual turbilhão neste vazio
Tu apenas chegaste cintilante, revolvendo a noite solitária
Sem importar quão escuro, sombras e névoas na penumbra
Por mais que eu não permitisse, entrastes em meus sonhos
Antes, mais e acima que todas as pessoas ou qualquer uma
Que eu tenha sentido próxima, ainda que um amor furtivo
Qual uma ligação sideral, ora silenciosa, ora um relâmpago
Que arde em mim no instante fugaz que precede o trovão
E assim vieste nessa tempestade incompreensível, imatura
Feita de momentos cheios de impertinências, de distância
A se transformar nesse desejo rubro, sufocante e visceral
Que já venceu oceanos, atravessou horizontes só por mim
Sei-me tão imperfeitamente humano, mas saboreio o divino
Quando meu corpo se insere no teu e me privo de pudores
Um amor celestial, que por paradoxo, é malícia e é feitiço
Que dilacera meus sentidos e escrúpulos a sentir teu gozo
Sei que o amanhecer trará a dolorosa certeza da ausência
E ainda assim sinto teu gosto em mim a alimentar a insônia
A propor maliciosas descobertas de recônditas anatomias
Antes que um gélido dia, sem tom e sem som venha nascer


quarta-feira, janeiro 18

Marionetes

Era amor e nos disseram que era só disfarce
A real felicidade, incomodava aos obscenos
E nós, como marionetes, dançávamos a girar
A estreitar as linhas do mundo nesse abraço
E o nosso coração batendo num só compasso
Inscientes do tédio ou da morte que rondava
Há a verdade e há outra verdade e o dia veio
Ora sou o desencanto d’uma luz tão sonhada
Da sombra azul de um céu oculto por nuvens
Da voz ausente tão igual quanto distanciada
Dias de sol a caminhar, como anjo nu a vagar
Desalentado pelo recolher das asas e não ver
A copa das sequoias a enroscar nas estrelas
As orquídeas, tal talismãs, no verdor da selva
O segredo de um coração confuso nos átomos
Mas sei, nada foi irreal em nossa curta vivência
Porque te amei antes do primevo verbo criador
Sei também me amaste, una, radiante, desigual
Com tua história de paz nas fábulas do existir
E por termos sempre sido um, ainda somos dois
Mesmo que de nós, hoje restemos somente um


domingo, janeiro 15

Tormenta

O girassol não gira ao sol, pois o dia é de tempestades
São as tormentas que arrastam folhas e nem é outono
Mas a poesia não é a tempestade. tampouco o ciclone
É um quê dessa vida que caminha num sonho púrpura
Entre girassóis, esquiva dos pesadelos da vida e morte
No espelho da noite há sentimentos no corpo e n’alma
As ruas avessas da cidade exibem seu abissal encanto
E o mofo da ausência exala o odor das flores exiladas
Onde transitara a miséria dispersa na distância triste
Na tábua da salvação, escrevo este poema emergente
Que os ladrões não verão e os homens bons não lerão
Mas no azul profundo da imensa noite virá se revelar
À insônia, escrevo mil palavras indormidas e digo não
Relembro-a no aroma austero da resina, o vinho tinto
Posso ouvir o canto de paixão vindo da porta ao lado
No silvar do vento ao ouvido, soam gemidos poéticos
Engana-se quem dizer que só sonha quando se dorme
ou imagina fácil transformar a palavra solta em ideias


quinta-feira, janeiro 12

Sentinela

Como eu quisera ver o rosto do leitor animado ao ler
Estas tão humildes linhas, momentaneamente ferozes
Rompendo abrupto caminhos por pântanos desolados
E, ao invés de páginas selvagens de um escuro veneno
Transitar entre paradoxos espirituais de leitura lógica
 
Queria seduzi-los, não menos, a desconfiar que o livro
Revele como salvá-los das emanações mortais da alma
Talvez meu poema não deva ser lido por qualquer um
Que receie adentar ao vento, por terras inexploradas
Que fira almas tímidas inaptas a ler este fruto amargo
 
Nem espero olhos fixos, numa contemplação augusta
Como se olha ao pai, que taciturno, espera o inverno
Que venha frio e veloz, de algum ângulo do horizonte
O pássaro mais velho na vanguarda, a liderar o bando
Estala o bico, como fará a pessoa que não esteja feliz
 
Meus versos oscilam insensatos entre o som e a fúria
Sonho e realidade mesclam-se como a água ao açúcar
E são a sentinela melancólica que alertará de inimigos
São o presságio que há um iceberg nessa figura calma
Sugerindo guinar a filosofia a bombordo ou estibordo
 
Sou mais uma ave curiosa que esse capitão habilidoso
Sou o lado invisível do triangulo insciente do caminho


quinta-feira, dezembro 29

Antídoto

Esta insônia enlouquecida que desaba sobre todos os sonhos
É a matriz dos meus poemas que são um antídoto contra dor
E assim distribuo os versos, como um linimento sobre o papel
Não direi dos passos antigos de contornos tristes e caminhos
Calcinados e errados que andei, sem pretextos para nostalgia
Desejo fazer que a vida retome com força, abrir as pálpebras
Ver-me a salvo, pelo menos crer-me a salvo, que já é bastante
Se o poema não é a unção milagrosa, sem contra argumentos
Os versos também mostram o que atrairá viver às escancaras
Mesmo o que não é dito, não deixa de acontecer, só por isso
O que se necessita é conter o lamento, pai de tantas agonias
Mazelas não devem, malgrado não haja manual de instruções
Ser revelada aos inimigos. Deixar no vazio é mais confortável
Os noticiários é que veem como atrativo repetir os desastres
Há que se tornar surdo-mudo ou cego, mas atento aos signos
E não cantar, mas para espanto deles fazer como se cantasse
Sob um céu comum, uma só noite pode representar mil e uma
Bendita noite azul caminhando à deriva, mergulhar no enigma
Para ser outro e amar.  Amar com amor de valor, sem astúcia
Então, não se deixe levar por contradições que só a razão vê
O mundo tem máculas e não há feitiço ou fé que o desminta


sexta-feira, dezembro 23

Quando as nuvens passam e o céu é feito do azul cobalto
É sinal que nova chuva vem, o sol é só memória no poente
O eco meramente repete as mentiras que do vento ouviu
Ideia de futuros provisórios natos e findos em mausoléus
Há poucas coisas tão ensurdecedoras quanto é o silêncio
 
O poeta é resistência que não vai calar rasgando-se livros
Como mago, salva palavras em afronta à usual servilidade
Tatuando-as na lembrança, à esquiva de ímpias tradições
Nada aqui ou além, imóvel qual a pedra aceirada pelo rio
Assim ilude os algozes, oculta seus dentes entre a bruma
 
Desde as mais longínquas primícias, estava lá a oposição
Sempre fugaz fazendo o inventário de vantagens quistas
Toma lá, dá cá rumorejam ocultados detrás dos biombos
No mais, esperneios pueris desviam olhares de suas redes
Fica para trás dessa rápida investida, só o chão crestado
 
Um povo destruído pela intempérie, há tanto anunciada
Jacentes e esquecidos são os invisíveis aos olhos nobres
Dois brinquedos que flutuaram sobre a lama da omissão
Sinalizam famílias extinguidas, o fim das fábulas infantis
Homens de pudor incorpóreo de promessas incumpridas
 
Resta o odor acre da terra, o pasmo, o fervor sem fruto
O sol a burlar o cinza faz brotar a parede pintada a lápis
Emergem da lama escorrida em meio a outros destroços
Com a certeza de crianças que já nasceram moribundas
Serão lembradas entre lágrimas quando nova chuva vier
 
Ao poeta munido de sua pena, obriga recriar nos versos
O grito dos que não puderam gritar, qual fosse vinga-los
Evitar àqueles que, anos a fio insolidários, vistam louros
Façam-se protagonistas salvadores do mal que causaram
Olvidando que esse sangue derramado é do seu descaso
 
Mais um verão findo e almas soluçarão entre as árvores
A poesia impedirá esquece-los: são vítimas da corrupção