segunda-feira, julho 24

Dos Fragmentos de Tu e Eu

 Os dias resultaram agrestes, meus caminhos tortuosos

Ricos de estrelas cegas, palavras dilaceradas ao vento

Teus olhos vieram do mar na chegada do fim de verão

Para serem residentes anônimos d’uma tola esperança

Qual faróis fiéis à tua efígie, esconderam em segredo

A luz que iluminava a rota dessas inquietas ausências

 

Sem te encontrar deixei marcas pelo chão que passei

Pelo chão cravado de corais e de estrelas pisoteadas

Foi um caminhar em tempos invividos em nu desatino

Em frias tardes amargas em vão invoquei o teu nome

E o sol não brilhou, nem ouviste tão insanas palavras

E assim saímo-nos, atrelados ao medo e ao abandono

 

Entre os estilhaços, pedaços perdidos de ti e de mim

Infecunda ausência dormida entre os móveis da casa

Repleta de pó, casa que guarda um cheiro de hortelã

Sob o céu roxo da paixão, nos perdemos nos desvãos

O querer que a brisa um dia revelaria às águas do rio

É o segredo que espera a nuvem alva que nunca virá

quinta-feira, julho 20

Ecos de Um Renascer

A solidão muda desperta-me cores pelo caminho arborizado

Os pássaros estão calados quais pedras nos rios coagulados

Nessas horas afogadas pelo quieto esquecimento tranquilo

Volatiliza-se o réptil movendo os pés sobre a pedra da noite

Abriga-se na sombra tal escudo, deixando seu tênue rastro

 

Vejo estranhas harmonias sem ritmo, uma quase serena paz

São memórias de coisas repousadas d’um antigo movimento

O raio resfriado em metal que guarda a luz cativa pelo chão

Eu, vão observador, desenrolo minhas reais asas de pássaro

Movo meu corpo na escuridão, vou buscar no sono o sonho

 

Quando em outro voo na essência de um vazio interminável

Busco no que me renova, sem abdicar do que fui, ser outro

E, sendo sombra, ser claro, translúcido, de contorno visível

Esculpir pensamentos fluídos e incontidos, fora da margem

Ideias evolando-se de parábolas obscuras, estranhas fábulas

 

A ponta do fio do tempo reina no silêncio que se incorpora

Faço-me de luar para que não mais germinem noites caladas

Poema e poeta que enfim recompõem escritos mais antigos

Ainda que simpatize com tantos encantos da modernidade

Regresso ao que comecei, para ser artífice de um renascer

 

 

terça-feira, julho 11

Estampido

Deixa que a lágrima ultrapasse a margem de teus olhos

Deixa que o som profuso das ondas do mar te acaricie

Ainda assim segue tua ronda cantando com o coração

 

Encontrar a luz do sol é apenas uma questão de tempo

Cuidar que há caminhos de paz ou caminhos de guerra

Caminhos que podem fazer do teu irmão, o teu inimigo

 

Deixa que o eco de nossos passos surpreenda na noite

Deixa a tua alma segura entre terras firmes de sonhos

Ainda assim saibas que as sombras estão em equilíbrio

 

A alvorada trará a nova claridade e a água a seu curso

Toma-me a mão enquanto o sol brota vermelho do mar

Será assim que venceremos os atalhos até o dia nascer

 

Deixa que através da noite os sonhos imolem tua pena

Deixa que o silêncio cale a tua culpa diante do olvido

Ainda assim colonizadores da tristeza falarão de amor

 

A música da noite virá a julgar teu medo, tua pobreza

Se te perdes a balbuciar nos idiomas que outros falam

A falar sem amparo ou encontrar a palavra apropriada

 

Deixa que se desvendem céus sobre vozes e o silêncio

Deixa que a sombra cubra as sendas e a transparência

Ainda assim verás homens solitários, mulheres sozinhas

 

A vida é canção inescusável é preciso ferir-se, afundar

Buscar o estampido nunca pedir perdão de ser como é