quarta-feira, janeiro 21

Gerânios

 Recordar o olvido
Para semear-me
em teu corpo ausente
Olhar a outros dias
Resgatar teu sorriso
Nas memórias antigas
Apagadas de teus lábios
Se eu pudesse sentir
O calor de tua pele
Chorar, quem sabe
Sim chorar liberdade
Tua mão na minha
Os gerânios do jardim
Murchos pela tarde
Uma cruel negativa
Um amor tão tolo
Que se afogou
Na própria loucura



A estranha do lago


Uma trilha à beira do lago era meu passeio cotidiano
A primeira vez que a vi, era só uma silhueta na tarde
Quase uma sombra, muda, distante, de olhar perdido
Ela sonhava com o verde, na amargura que cultivava
Sua sombra caíra junto à arvore em gotas de solidão
E as folhas vermelhas, as tinha como um escapulário
Que carregou no peito por tantos amores náufragos
Lembranças frágeis da história de tantos desamores
Tudo isso se revelava em seus olhos, entre os cabelos
Ela escrevera um nome na menor árvore do caminho
Justo a que a primeira tempestade de outono levou
Um dia, semblante abstraído, caminhou ao meu lado
Num silêncio peculiar a quem esqueceu de si mesma
Enquanto a chuva surgia intensa sob suas pálpebras
Eu aceitei que caminhasse sem falar de suas dores
Ou de outra coisa sequer, desprendida e pensativa
Escutei seus passos incertos pisarem as folhas secas
Um dia ela partiu, deixou seu nome gravado na brisa
Qual cicatrizes efêmeras na superfície calma do lago
 

terça-feira, janeiro 20

Q

 
Quando a noite avança em ondas, a negra maré
Quão profundo teremos que mergulhar na alma
Para encontrar um anjo nessa névoa angustiosa
Até que desapareçam as lágrimas e nos entregar
Qual pássaro a voar sob o imenso negro oceano
Coalhado de infinitas plêiades de estrelas vivas
 
Quantas vezes devemos nos ferir para ser unos
Será que se pode amar alguém depois da morte
Pois tanto amor não poderia acabar com a vida
Os cisnes nadam na alvorada depois das chuvas
Como quem se despede do resto de lua noturna
Quando a imaginação quer alcançar dias irreais
 
Quanta rocha devemos brunir para ver beleza
E o relâmpago cintilar os sonhos mais secretos
Na calada da noite derretendo-se como o gelo
Esvanecendo a linha que divide o céu e o mar
O fogo mágico venceu todas margens e limites
E num único gesto azul, demoliu o inacessível
 
Quando os caminhos tornam íngremes demais
A bela donzela é memória no cantar distante
E velhos demônios se escondem bem no fundo
Nós enxergamos sem ver, escutamos sem ouvir
Sem saber que o azul do céu reside só na alma
 
Muitos vivem com uma máscara, com água até o
pescoço, no ócio, contemplação negando a vida


segunda-feira, janeiro 12

Bem-te-vi

Por aqui tem um pássaro que se chama bem-te-vi
Uma lenda diz que seu canto indica uma chegada
Porém outra diz que significa que alguém partirá
Quando ouço seu canto, sonho estar à beira-mar
Sob o céu coalhado de estrelas piscando fugazes
Quando a amargura vem, sou o bem-te-vi que voa
Desafiando a brisa com meneios suaves das asas
Em espirais, circulo sobre o mar que me sussurra
Do alto, as ondas já não parecem tão imponentes
O belo oceano a meus pés, mas é hora de retornar
Sem pressa, me esquivo do vento sul para pousar
Um chão gravado de histórias de amores sem fim
Assim vivi a imaginar que nunca teria que morrer
Amei, umas vezes, como se não houvesse amanhã
Chorei, por que o amanhã chegou rápido demais
Também ri, com lembranças felizes que guardei
O cantar do bem-te-vi não expressa as chegadas
Tampouco, não significa nenhuma partida enfim
Qual o pássaro, canto alheio a todos infortúnios
Meu poema é assim: efêmero como são as vidas
Outras vezes, dirão, eternos como só a morte é




segunda-feira, dezembro 29

Reforma

Quando a luz paira sobre a palavra, primeiro a geometriza
Nenhum enigma ou seita permite ver a sombra senão a luz
Dessa mesma operosa arquitetura, germina o canto poema
Com a força do aço se organiza e constrói com cintilação
E o faz a transmutar o equilíbrio do pensamento em ação
Éter que afronta o sólido, opostos, porém não se afastam
De uma mesma trama universal, a fuga dos sonhos ao real
Uma só verdade, contudo observada de distintos prismas
 
O poema desloca o fluxo da imaginação ao que é palpável
Confere ritmo à beleza que exalta, em feixe alado de cor
Mas dela se desprende e modifica a contemplar a solidão
Infundindo-lhe alento, até em ponderações mais gravosas
Pois, em seu fio aguçado de metal, é manifesta harmonia
A luz poética mergulha no recôndito, se conjuga no ouro
É qual argila ao oleiro e o fole que atiça fogo ao ferreiro
No entanto tão fugaz, ar e basalto em momentos ínfimos
 
A palavra quando emerge na noite, rompe todo equilíbrio
Condensa em mito, belo e cor o que poderia ser o vazio
Dando à visão o esplendor que desponta com perfeição
Para desenraizar da alma amores insonsos, frios e finitos
Torna insignificante o tempo que se conta no calendário
Elide o negror da surdez, apaga caminhares infrutíferos
Na noite a música suave, leva o pássaro a voar novamente
Afastando o silêncio, reacende o eterno sabor pela vida

 


terça-feira, dezembro 23

A fonte

 

Esse desassossego, essa palavra que brota na garganta
E caminha aos lábios como se quisesse saltar ao mundo
Mas se detém e permanece encarnada em meu silêncio
E o que chamam de poema, uma amorosa luta pela vida
Que outorgo ao mundo quando a dor assoma no peito
Raia irreverente da ponta de minha pena sobre o papel
Há de chegar o dia que todo esboço afinal amadureça
Sem afãs, mas rigorosamente antes que a morte vença
Que a palavra não seja um consolo, antes ecloda no ar
Como um canto, dessangre, chegue e torne o dia feliz
Que se descerrem as cortinas ao invisível, o impalpável
O poema faz magia em palavras, dia a dia, entusiasmo
Um narciso nascido de mim, contemporâneo, corporal
E as imagens se reflitam no espelho qual ecos distantes
O amor! Aí está o espelho, sempre perfeito, inapagável
De corpo inteiro, em toda dimensão, exato e mutante
A fonte de todas as palavras, gênese de meus poemas

 

sexta-feira, dezembro 12

Vertical

Não diga que escrevo um poema presumidamente vertical
Que não exibo orações devotas, de bondade e franqueza
Pueril engano de quem acredita que pode decodificá-los
Nada é tão só o que parece e oculta razões inquietantes
Aprendi a falar de dores, decepções e inocência perdida
Escrevo estrofes isentas de epigramas, plenas de sombras
A metáfora de quem venceu a morte e outros fantasmas
Os protagonistas dos medos cotidianos de tantos outros
São palavras graníticas, nascidas de complexas tormentas
Porém ainda falo de amor, não de avara lascívia da carne
Falo dos esplendores dos olhares, de vertigens eternizadas
Aquilo cuja aclaração, conduz a incertezas ainda maiores
O poema diz dos encontros tão casuais quão improváveis
Pelas inóspitas voltas do desejo, pelos itinerários da noite
Não escrevo sobre o trivial, mas o desvario insolente e nu
A sedução que só se consuma com os perfumes de rosas
Que etéreos e fugazes, deixam para trás apenas espinhos
O crepúsculo se acerca e povoa o dia de signos e sonhos
Nuvens sonambulas desfilam diante da luz pálida do luar
O que seria do poeta sem as cicatrizes de beijos perdidos