The Writer Within the Wizard
Se escrever é fazer mágica, sou um mago; se for transformar, sou alquimista; se for dominar mistérios, então sou bruxo. Vim transmutar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento quiser levar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
quarta-feira, janeiro 21
A estranha do lago
Uma trilha à
beira do lago era meu passeio cotidiano
A primeira vez
que a vi, era só uma silhueta na tarde
Quase uma
sombra, muda, distante, de olhar perdido
Ela sonhava
com o verde, na amargura que cultivava
Sua sombra caíra
junto à arvore em gotas de solidão
E as folhas
vermelhas, as tinha como um escapulário
Que carregou
no peito por tantos amores náufragos
Lembranças frágeis da história de tantos desamores
Tudo isso se revelava em seus olhos, entre
os cabelos
Ela escrevera um nome na menor árvore do caminho
Justo a que a
primeira tempestade de outono levou
Um dia, semblante abstraído, caminhou ao meu lado
Num silêncio peculiar a quem esqueceu de si mesma
Enquanto a chuva surgia intensa sob suas pálpebras
Eu aceitei que caminhasse sem falar de suas dores
Ou de outra coisa sequer, desprendida e pensativa
Escutei seus passos incertos pisarem as folhas
secas
Um dia ela partiu, deixou seu nome gravado na brisa
Qual cicatrizes efêmeras na superfície calma do lago
terça-feira, janeiro 20
Q
Quando a noite
avança em ondas, a negra maré
Quão profundo
teremos que mergulhar na alma
Para encontrar
um anjo nessa névoa angustiosa
Até que desapareçam as lágrimas e nos
entregar
Qual pássaro a
voar sob o imenso negro oceano
Coalhado de
infinitas plêiades de estrelas vivas
Quantas vezes
devemos nos ferir para ser unos
Será que se
pode amar alguém depois da morte
Pois tanto
amor não poderia acabar com a vida
Os cisnes nadam na alvorada depois das chuvas
Como quem se despede do resto de lua noturna
Quando a imaginação quer alcançar
dias irreais
Quanta rocha devemos brunir para ver beleza
E o relâmpago cintilar os
sonhos mais secretos
Na calada da noite derretendo-se como
o gelo
Esvanecendo a linha que divide o céu
e o mar
O fogo mágico
venceu todas margens e limites
E num único gesto azul, demoliu o inacessível
Quando os
caminhos tornam íngremes demais
A bela donzela é memória no cantar
distante
E velhos
demônios se escondem bem no fundo
Nós enxergamos sem ver, escutamos sem ouvir
Sem saber que o azul do céu reside só na
alma
Muitos vivem com uma máscara, com água até
o
pescoço, no ócio, contemplação negando a vida
segunda-feira, janeiro 12
Bem-te-vi
Por aqui tem um pássaro que se chama bem-te-vi
Uma lenda diz
que seu canto indica uma chegada
Porém outra
diz que significa que alguém partirá
Quando ouço
seu canto, sonho estar à beira-mar
Sob o céu
coalhado de estrelas piscando fugazes
Quando a
amargura vem, sou o bem-te-vi que voa
Desafiando a brisa com meneios suaves das asas
Em espirais,
circulo sobre o mar que me sussurra
Do alto, as ondas já não parecem tão imponentes
O belo oceano a meus pés, mas é hora
de retornar
Sem pressa, me
esquivo do vento sul para pousar
Um chão gravado de histórias de amores sem fim
Assim vivi a imaginar que nunca teria que morrer
Amei, umas vezes, como se não houvesse amanhã
Chorei, por que o amanhã chegou rápido demais
Também ri, com lembranças felizes que guardei
O cantar do
bem-te-vi não expressa as chegadas
Tampouco, não
significa nenhuma partida enfim
Qual o pássaro, canto alheio a todos infortúnios
Meu poema é
assim: efêmero como são as vidas
Outras vezes,
dirão, eternos como só a morte é
segunda-feira, dezembro 29
Reforma
Quando a luz paira sobre a palavra, primeiro
a geometriza
Nenhum enigma ou seita permite ver a
sombra senão a luz
Dessa mesma operosa
arquitetura, germina o canto poema
Com a força do
aço se organiza e
constrói com cintilação
E o faz a transmutar o equilíbrio do pensamento
em ação
Éter que afronta o sólido, opostos, porém
não se afastam
De uma mesma trama universal, a fuga dos
sonhos ao real
Uma só verdade, contudo observada de
distintos prismas
O poema desloca
o fluxo da imaginação
ao que é palpável
Confere ritmo à beleza que exalta, em
feixe alado de cor
Mas dela se desprende e modifica a contemplar
a solidão
Infundindo-lhe alento, até em
ponderações mais gravosas
Pois, em seu fio aguçado de metal, é manifesta harmonia
A luz poética mergulha no recôndito, se
conjuga no ouro
É qual argila ao oleiro e o fole que
atiça fogo ao ferreiro
No entanto tão fugaz, ar e basalto em momentos
ínfimos
A palavra quando emerge
na noite, rompe todo equilíbrio
Condensa em mito, belo e cor
o que poderia ser o vazio
Dando à visão o
esplendor que desponta
com perfeição
Para desenraizar da alma amores insonsos, frios e finitos
Torna insignificante
o tempo que se conta no
calendário
Elide o negror da
surdez, apaga
caminhares infrutíferos
Na noite a música
suave,
leva
o pássaro a voar
novamente
Afastando o silêncio, reacende o eterno sabor pela vida
terça-feira, dezembro 23
A fonte
Esse desassossego, essa palavra
que brota na garganta
E caminha aos
lábios como se quisesse saltar ao mundo
Mas se detém e permanece encarnada em meu silêncio
E o que chamam
de poema, uma amorosa luta pela vida
Que outorgo ao mundo quando
a dor assoma no peito
Raia
irreverente da ponta de minha pena sobre o papel
Há de chegar o
dia que todo esboço afinal amadureça
Sem afãs, mas rigorosamente
antes que a morte vença
Que a palavra
não seja um consolo, antes ecloda no ar
Como um canto,
dessangre, chegue e torne o dia feliz
Que se descerrem as cortinas ao invisível, o impalpável
O poema faz magia em palavras, dia a dia, entusiasmo
Um narciso nascido de mim, contemporâneo, corporal
E as imagens se reflitam no espelho qual
ecos distantes
O amor! Aí está o espelho, sempre perfeito, inapagável
De corpo inteiro, em toda dimensão, exato e mutante
A fonte de todas as palavras, gênese de meus poemas
sexta-feira, dezembro 12
Vertical
Não diga que
escrevo um poema presumidamente vertical
Que não exibo orações
devotas, de bondade e franqueza
Pueril engano de quem acredita que pode decodificá-los
Nada é tão só o que parece e oculta razões inquietantes
Aprendi a falar de dores, decepções e inocência perdida
Escrevo estrofes
isentas de epigramas, plenas de sombras
A metáfora de quem venceu a morte e outros fantasmas
Os protagonistas dos medos cotidianos de
tantos outros
São palavras
graníticas, nascidas de complexas
tormentas
Porém ainda falo de amor, não de avara lascívia da carne
Falo dos esplendores dos olhares, de vertigens eternizadas
Aquilo cuja aclaração, conduz a incertezas ainda maiores
O poema diz dos encontros tão casuais quão improváveis
Pelas
inóspitas voltas do desejo, pelos itinerários da noite
Não escrevo
sobre o trivial, mas o desvario insolente e nu
A sedução que só se consuma com os
perfumes de rosas
Que etéreos e fugazes, deixam para trás apenas espinhos
O crepúsculo se acerca e povoa o dia de signos e sonhos
Nuvens sonambulas desfilam diante da luz pálida do luar
O que seria do
poeta sem as cicatrizes de beijos perdidos
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