sábado, janeiro 31

Concerto #7 para Oboé

 

As begônias cresciam no beiral da janela regadas de lágrimas
Aquele olhar distante fitando o rouxinol pousado na árvore
Ela seguia tímida com seus chinelos rotos e roupa de flores
Mas era ela a própria flor a desabrochar a cada amanhecer
Cruzava, na sua inocência, a cena entre a janela e o pássaro
Foram tantos signos em seu caminho, desde o primeiro passo
Quantas vezes os tambores rufaram a desviar a sua atenção
Quantas nuvens gris armaram temporais, na calada da noite
Seguia pelas estepes esverdeadas a ouvir o rumor do regato
Disseram-lhe sobre o destino brilhante que deveria alcançar
Mas na vida, há calor no inverno e brisa amena pelos verões
Mas nada é como parece ser e o rio vem a alagar as várzeas
E leva consigo a dança divina e desmistifica todos os rituais
A jovem de pele ocre foi arrastada no redemoinho do vento
Seu caminhar a dias melhores se tornou um deserto de folhas
Restam tão só sombras, sem rosto, sem nome ou seu sorriso
Partiu sem ser a estrela que as vozes da ilusão apregoaram
Tão só a máscara de vidro entre na multidão de incertezas
O que fazer quando a luz do trovão inaugurar a escuridão
Gritos profundos de silêncio a elevar-se na palavra solitária
Não aquela impressa na folha cega dos poemas imemoráveis
Mas na pele cansada, entre as cicatrizes fundas da estrada
Se o vento que furtou as flores devolver o aroma dos lírios
Quiçá ela ainda regresse antes do último concerto da alma

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