sábado, janeiro 15

Sou(l)

Sim, devo ser tudo aquilo que dizem que eu sou

Igualmente, não é meu o que dizem que não sou

A um só tempo sou tudo ou nada que fantasiam

Porém eu não sou covarde e nada pode me calar

Os que perceberem como eu meus versos tortos

Saberão que meu poema abriga uma ternura nua

Mas, não os falsos profetas, que nada percebem

A estes, sou apenas um malabarista das palavras

Farão de tudo para negar as minhas edificações

Poema nem raro, nem vulgar porem os envenena

Obriga-os a pensar no verso, também no reverso

Só não me digam que seus uivos são poesia igual

Nem imaginem que alguma morte nos seja branda

Um poeta original é o que sou, atirado ao poema

Como quem se atira ao abismo, só para renascer

Filho das palavras, nascido nos sismos do trajeto

De origem incerta e sem pertencer a lugar algum

Expulso do paraíso, sou todos, mas sou nenhum!

 

quarta-feira, janeiro 12

Femina

Uma amiga morreu no lar onde devia ser seu refúgio seguro
Sua lembrança me devolve às ruas da infância, pipas e piões
Lembro-me da sua boca pequena confiada a tantos sorrisos
Tempos que não haviam balas perdidas ou punhais erguidos
Como se pudesse tomar distância dos ardis da modernidade
Pela janela do trem, vejo a sombra a contornar a paisagem
Rodas e trilhos são qual um tambor desafinado no caminho
Conspiram cinzas ao passarem as últimas praças com flores
São qual ecos do entardecer que se embriagam pela cidade
A assustar cães vadios que comem restos na beira do trilho
Onde também dormem os viciados condenados ao fracasso
Essa paz ilusória oferece seu engano a todos os impostores
Se o tempo não volta, a mão assassina vem em duas rodas
A própria carnalidade se faz ameaçada a cada desatenção
Políticos ou togados não! Sobrevoam o mundo sem tocá-lo
É tão difícil quão não é prudente, levar luz delatora a eles
Não são vícios na paisagem que lastimo, sim o despropósito
O aço cravado nas costas da mãe mulher, pela impunidade
Desculpas não logram enganar-me, porque é hora de reagir
Não como lamento que chega extemporâneo, sim aqui e já
Mostrar-lhes o ruído de nossas armas, da caneta e o papel
São seis da tarde, o retorno da cidade chega a seu clímax
Em um sinal oculto ou uma língua que fale o idioma da luz
As noites vão e vêm e pessoas mendigam um naco de Deus
E o respeito pela vida segue abandonado, nu de intenções
A marca do corte, a ferida esquecida, o gole frio do café
Cascalhos urbanos, o rosto da cidade sobre a mesa do bar


sábado, janeiro 8

A Procura

Sigo em frente solitário diante da tempestade

E assim eu te procurei, por todos anoiteceres

Por todas as madrugadas silenciosas, sem luar

Quando o medo veio invadir as noites escuras

Enquanto as ondas se debatem nos rochedos

Instigadas pelos ventos insanos e enfurecidos

Mas meu pranto não é segredo à fúria do mar

Então te procurei entre amanheceres a revés

Só o espaço vazio restou sobre a areia porém

Ainda te vejo, pés descalços, cabelo ao vento

Olhos no horizonte e o sol a lhe dourar a pele

Um fantasma feito de memórias de belos dias

Deixa meu coração fatigado, a alma em pesar

O vento gelado anuncia mesmo que não estás

E sei que algo terrível aconteceu no caminho

Volto à minha cama vazia, se por sorte dormir

Então sonhar, sei que assim vou te encontrar