domingo, julho 17

Identidade

 A noite vem e abrange como um mar e oculta os caminhos usuais
Nessas noites, na agrura de luzes, muito se oculta mesmo a razão
Então me surge essa vontade indisfarçável de outra vez escrever
Reunir e adjudicar vida às palavras que circundam soltas pelo ar
Tomar da pena nos dedos para vestir emoções na nudez do papel
No qual me assento, como quem tatua na pele de forma indelével
Estes versos sem rima cujas razões vêm desafiar as horas de sono
À sorte caberá narrar se os versos serão chorados ou serão nada
Não são óbvias as razões, que o destino o sabe, por que te escolhi
Recuso-me a acreditar que toda a identidade seja só coincidência
Foram histórias inacabadas em outras vidas a mover o inverossímil
Sei que temos discórdias, mas isso não tem feitio de fazer sentido
Mas quando nos queremos, sim o faz e a madrugada fica pequena
Nas ruas vazias, nossos sonhos peregrinam, cavalgando unicórnios
Portanto saibamos que breve o amanhã estará aí com um novo dia
Chegarão também, as esperanças que só nos cabem dias melhores
Sem dores, abandonos e corações partidos ou versos descartados
É chegada a hora de carícias que virão a alimentar nosso coração
Na certeza que quando juntos, somos muito mais que quando sós
Tal qual as milhões de estrelas cintilam no firmamento azul escuro
Toda busca tem fim diante do espelho, as respostas estão em nós

terça-feira, julho 12

Lucida Aurora

Na lucidez da aurora, a mãe de todos os sonhos e ilusões
Uma chamada ao telefone me afasta da trégua do silêncio
Uma voz suave e quente alegra o poema em lenta gestação
A luz do abajur revela todo o branco imaculado do papel
E as palavras saltam ágeis e imponentes à folha sem linhas
Cobra-me a atenção o relógio morno a serviço de Morfeu
A hora avança sem rédea nos ponteiros úmidos de solidão
Mas o poeta verbaliza na tempestade seu grito de rebeldia
Deixando na boca um gosto de saudade por toda a utopia
Que se faça possível criar sob as estrelas apagadas lá fora
Encobertas pelas nuvens que deitam a chuva noite afora
Elas não são nuvens de algodão doce nem de carneirinhos
E o que isso importa, se vamos a cavalgar o golfinho alado
A musa de belo busto e peito arfante, meigamente assiste
Suspira ao ar encolerizado da natureza troando insistente
O poeta singra na atmosfera entre as vírgulas dos trovões
A tempestade de repente cria vida e toma de mim a caneta
Ela disse que estava embriagada pela vontade de escrever
Se desnuda e pinta este poema de sonho e de imaginação


quinta-feira, junho 30

Do Amor II

Queria dizer do amor que há em mim e me sobrepujou a razão
Pois, contemplo esta cama plena da tua presença destes dias
Dias anunciados de desejos indescritíveis, uno entre milhões
A profetizar o fim dos desencontros e a chegada de carícias
Um capricho do destino contra um mundo de probabilidades
Nos fizemos voar entre nuvens, longe das mazelas do mundo
Dançamos ao som de segredos, por pontes, túneis e estradas
Com o vento a nos agitar os cabelos, partilhamos aspirações
Paramos o tempo lá fora pela janela e até o trem já silenciou
Assim pudemos comemorar na tormenta, uma taça de vinho
E ouvir da voz cítrica da chuva histórias sobre a vida veloz
Saber que basta um pedaço demasiado pequeno de carinho
Para que possamos nos salvar das quedas de surtos infinitos
Um brilho cintilante que nomeei de meu relâmpago delirante
Que é o pássaro que do alto do voo avista as sombras de nós
A ouvir ígneos gritos e risos rasgados sobre o azul dos lençóis
Um coração que bate sem pudor de estar cada dia mais vivo
Asseguro-te que o amor nega as ausências e impossibilidades
O amor muda tudo de súbito se a vida caminha para a morte
O amor é o que nos diz que poderemos usar sapato branco
Ou roupa estampada mesmo que andemos à beira do abismo