terça-feira, junho 9

A Semeadura das Insônias

 

Um vórtice de cinzas e pó domina as almas à noite

Tempo que as ruas dormem despidas de intenções

Os telhados ressoam a chuva na sua crua cadência

Pergunto por ti aos anjos sem sucesso em te achar

São apenas efígies imóveis de um tempo imemorial

Sigo pelas frias pedras polidas de outra madrugada

Caminho em vão entre os labirintos à tua procura

Onde estarás senão nos jardins dos meus eclipses

Entre os gerânios de bronze e seu aroma olvidado

Pela estreita e tumultuosa alameda da melancolia

Ergui altares para ti, mas as portas não se abriram

Os sonhos se apagaram deixando uma sombra nua

Pergunto por ti e a cidade só sabe de tua ausência

Do amargo de tanto vazio, dona das não respostas

Ontem fazia sol nos campos onde o amor brincava

Agora, ajoelho-me ao meio-dia, mas não vejo a luz

Os invernos sucedem a novos invernos neste lugar

Semeador de insônias, de revelações e de augúrios

O anjo da noite criou uma terra de rubis só para ti

Lá fora, perfilho a tua voz, mas tu não me chamas

Pois deixaste este mundo e as palavras silenciaram

Convertendo a eternidade em uma cicatriz aberta

Teus formosos olhos foram na crua neblina escura

A morte te levou pelo espelho da última penumbra

E os templos do nosso amor convertidos em cinzas

Hoje visto a máscara mais fria de todos os abismos


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