Um vórtice de cinzas e pó domina as almas à noite
Tempo que as ruas dormem despidas de intenções
Os telhados ressoam a chuva na sua crua cadência
Pergunto por ti aos anjos sem sucesso em te achar
São apenas efígies imóveis de um tempo imemorial
Sigo pelas frias pedras polidas de outra madrugada
Caminho em vão entre os labirintos à tua procura
Onde estarás senão nos jardins dos meus eclipses
Entre os gerânios de bronze e seu aroma olvidado
Pela estreita e tumultuosa alameda da melancolia
Ergui altares para ti, mas as portas não se abriram
Os sonhos se apagaram deixando uma sombra nua
Pergunto por ti e a cidade só sabe de tua ausência
Do amargo de tanto vazio, dona das não respostas
Ontem fazia sol nos campos onde o amor brincava
Agora, ajoelho-me ao meio-dia, mas não vejo a luz
Os invernos sucedem a novos invernos neste lugar
Semeador de insônias, de revelações e de augúrios
O anjo da noite criou uma terra de rubis só para ti
Lá fora, perfilho a tua voz, mas tu não me chamas
Pois deixaste este mundo e as palavras silenciaram
Convertendo a eternidade em uma cicatriz aberta
Teus formosos olhos foram na crua neblina escura
A morte te levou pelo espelho da última penumbra
E os templos do nosso amor convertidos em cinzas
Hoje visto a máscara mais fria de todos os abismos
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