Poema para dias sem dor
A chuva lavou
a cidade por dias em sua faina incansável
Os dias nasciam
cinzas, sem fronteiras entre céu e terra
Ah, é difícil despertar em manhãs de horizontes prolixos
De parcas intenções, pouco menos que monocromáticas
Por descuido, o sol rompeu o cinza numa alvorada atrás
Distribuindo cores radiantes sobre todas coisas lavadas
O solário muda
as perspectivas, em especial sobre o mar
Ainda quando se põe e a noite vem, conserva seu poder
Iluminando a face da lua, a deleite de poetas e amantes
Caminho descalço sob essas estrelas luzidias à beira mar
Ouço o diálogo das ondas e
a areia qual canção de ninar
O que o faço hipotecando silêncio e segredo à conversa
Há tempos que a vida transcorre cercada de amenidades
E o poema se
constrói suave, desnudado do substancial
Sua pungência abdicada e latente, envolta em mistérios
Mas sei também,
que essa mansidão precede a tormenta
Que conduzirá de volta às palavras
desfeitas deste albor
Tão inusitado que se assemelha uma quase ininspiração
Digamos que seja uma trégua, breve regresso à infância
Quando o céu e
o mar, deitados na distância eram azuis
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