sexta-feira, junho 5

Poema para dias sem dor

 

A chuva lavou a cidade por dias em sua faina incansável

Os dias nasciam cinzas, sem fronteiras entre céu e terra

Ah, é difícil despertar em manhãs de horizontes prolixos

De parcas intenções, pouco menos que monocromáticas

Por descuido, o sol rompeu o cinza numa alvorada atrás

Distribuindo cores radiantes sobre todas coisas lavadas

O solário muda as perspectivas, em especial sobre o mar

Ainda quando se põe e a noite vem, conserva seu poder

Iluminando a face da lua, a deleite de poetas e amantes

Caminho descalço sob essas estrelas luzidias à beira mar

Ouço o diálogo das ondas e a areia qual canção de ninar

O que o faço hipotecando silêncio e segredo à conversa

Há tempos que a vida transcorre cercada de amenidades

E o poema se constrói suave, desnudado do substancial

Sua pungência abdicada e latente, envolta em mistérios

Mas sei também, que essa mansidão precede a tormenta

Que conduzirá de volta às palavras desfeitas deste albor

Tão inusitado que se assemelha uma quase ininspiração

Digamos que seja uma trégua, breve regresso à infância

Quando o céu e o mar, deitados na distância eram azuis

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