O Sonho, o Poema e as Salamandras
O sonho e seu duplo é tal a face que se
admira no espelho
Têm substância própria que se alça nos
meandros da noite
Na sua armadura de aço se mistura com os veios do lençol
E entre as sombras circula no vento até enfim se
dissolver
É tentar em
vão buscar dissociar o sonho do real no poema
Não faço
esforço para aceitar que a razão nasce do sonho
Sob a escuridão temos que ter
os olhos abertos, ver a razão
Um som angelical se espalha pelo ar e tem aroma de jasmim
Mil rubis cintilam a dispersar as frias estátuas do
cotidiano
As muralhas da madrugada estendem ante os adormecidos
Mas não há perdão àquele que olha, porém se recusa a ver
Os sinos
repicam anunciando a alvorada: é hora de acordar
Recolher entre as cinzas os signos que o fogo
nos oferece
Para separar as ilusões que se criam entre campos de trigais
Dos enganos
gris dos cárceres nas pedras frias do desamor
As chamas geram a longa insônia das horas em sua tepidez
O deserto não se consome em si, nem seu olvido
de oceanos
Pulsam páginas
em areia, louca trama meu coração nômade
O pássaro abre as asas ao vento, rabiscando poemas no céu
Desafiando o mármore pétreo da certeza sobre vida e morte
Transmutando as ideias do real e o
onírico num feixe azul
E os versos fluem tal como rios
indômitos aos olhos da lua
As salamandras emudecidas convivem no seu fogo-alimento
Enquanto os dormentes silenciam na transparência da noite
Os dias seguem desertos e a vigília se queda longe de findar
Para findar a tristeza profunda que povoa
os crepúsculos
O poema é implacável, em ondas escapa do que seria usual
Entre imagens oblíquas de sonhos,
semeiam o acaso de viver
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