quinta-feira, novembro 16

Não culpe a chuva

No final, outros olhos vão definir se fui luz ou trevas

Não será minha hipotética nobreza que virá me julgar

Antes, é à espada do inimigo a que deverei responder

Sem que escolha a companhia da harpa ou de belzebu

Neste denso caminho das dualidades e subjetividades

Sei que menti quando precisei reinventar-me no vazio

Sei que menti quando devia iludir o mistério da morte

E assim mesmo, navego só neste mundo de incertezas

O pó do tempo d’outro século, já se deposita em mim

Tempestades e tormentas insanas tatuaram-me a pele

São memórias flutuantes do oceano de minha infância

Onde escondi os perfumes dos bosques de eucaliptos

De meus pecados e serpentes faço música rock’n’roll

E confesso também me deleita o som e a dor do oboé

Sei que nada neste labirinto me devolverá ao passado

Então me entrego ao destino que nasce com a aurora

Se eu morrer no domingo antes da chuva, não a culpe

Afinal, não tem juiz mais sábio que o passar do tempo

 

terça-feira, novembro 14

Cama

 De todas as formas de transportar-me prefiro a cama

Lençóis desfraldados qual velas ao vento dos sonhos

Cama veloz, atravessa noites ao som mágico da harpa

Tocando um réquiem misterioso por um delírio febril

Alcança o céu, desce à terra e toca seu centro ígneo

Ora imaculada, altar de cifras elaboradas e delicadas

Ora o labirinto envolvente de pares no calor da noite

Numa viagem intangível dois corpos, uma astronomia

O travesseiro guarda em sua pluma como um tesouro

Histórias antigas de nós dois, da nossa cama de amor

Embaralhando distraidamente os destinos figurantes

De personagens inconclusos, de estrelas que nomeio

Cama de desejos irreveláveis, batalhas intermináveis

Desfraldo tua bandeira em meu mastro mais elevado

Para ao fim dessa escaramuça só restem vencedores

E nunca calem os gritos, sussurros e gargantas secas

Acordo, ainda cercado de preguiça, o dia já nasceu

Eu, afinal regresso às tuas praias, coroado de glórias

sábado, novembro 11

Intempérie

 Desde que partiste na calada da noite silenciosa e vazia

O abandono cresceu incontido, que já quase te esqueci

Memórias de solidão reunidas qual escamas justapostas

Que se desprendem uma a uma, até que não reste nada

 

A realidade é o silêncio reiterado, é a morte recorrente

Feixes de luz sem brilho, no rio volátil do esquecimento

Foi o que restou, quando renunciaste de tantos sonhos

A buscar o que parecia paraíso, na estrada do vil metal

 

Mas o que nos difere, nunca foi o que a vista pôde ver

O que me abismou foi julgares o menos qual fosse mais

E hoje derrotada, inerme e prostrada, esperas pelo fim

Que para teu desespero, nem vem dar cabo da tua dor

 

É pena, não vistes no teu mais íntimo, toda a alquimia

Que um dia nos cercou e tatuou-me de vida o coração

A vida que querias fosse um breve sopro sub-reptício

Mas por destino ou por desatino recusa-se a se render

 

Na paleta de tua escolha, realçaste a mescla ambígua

Das cores que se confluem ao negro, do céu sem luar

Como um véu infinito além dos sonhos que olvidastes

Sem ver que não foi a intempérie que te tornou frágil

 

No melhor dos casos é não termos nossa mão, já pálida

A pender, fria, de um saco preto entre desconhecidos

sexta-feira, novembro 10

Amapolas

Estavas lá e eu te tocava delicadamente

Uma vontade inconsútil, deliciosamente

Teu corpo e meu corpo, destinos unidos

A deslizar na noite sobre um alvo cetim

Fazer-me alojar na raiz de tua existência

De onde sair só ao chegar do amanhecer

Os olhos fechados p'ra saborear o sonho

Levar vida p’ra onde só haviam amapolas

Caminhar os campos, outrora crestados

E ora depositei mil sementes de poemas

Sussurrar-te tantos instantes luminosos

Revelar que sou pluma e também vulcão

Romance memorável ao fogo da aurora

Encontrar-te entre os estilhaços da lua

Ter-te nos braços e resgatar da solidão

Eternamente contigo até iludir a morte

quarta-feira, novembro 1

Barca dos Desenganos

Nave da meia noite, na azul voragem do tempo

Eu pássaro, asas alçadas sorvi de méis infinitos

Na barca dos desenganos, por toda dor que há

Viajei vidas à margem dos verbos encolerizados

Qual um navegante da luz, no farol da angústia

Nos astros, eu vi espanto e amargos presságios

Na fadiga do dia, tolos devaneios me torturam

Vi o frio e austero céu não contemplar estrelas

Uma metade de silêncio e outra de inquietude

Diz que não sou o mesmo perdido em pensares

Ontem, tão hirto e sozinho resgatei uns versos

Que guardo na morada de lembranças amargas

As quais mereço, por querer navegar no sonho

Hoje o poeta que novamente entrega-se à ilusão

No alvoroço que destoa do ritmo calmo da flor

Mas, este poema inadequado não é só espinhos

Também é canção e brisa que acaricia o campo

Uma fagulha de esperança n’um futuro melhor