Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
quinta-feira, novembro 16
terça-feira, novembro 14
Cama
De todas as formas de transportar-me prefiro a cama
Lençóis desfraldados qual velas ao vento dos sonhos
Cama veloz, atravessa noites ao som mágico da harpa
Tocando um réquiem misterioso por um delírio febril
Alcança o céu, desce à terra e toca seu centro ígneo
Ora imaculada, altar de cifras elaboradas e delicadas
Ora o labirinto envolvente de pares no calor da noite
Numa viagem intangível dois corpos, uma astronomia
O travesseiro guarda em sua pluma como um tesouro
Histórias antigas de nós dois, da nossa cama de amor
Embaralhando distraidamente os destinos figurantes
De personagens inconclusos, de estrelas que nomeio
Cama de desejos irreveláveis, batalhas intermináveis
Desfraldo tua bandeira em meu mastro mais elevado
Para ao fim dessa escaramuça só restem vencedores
E nunca calem os gritos, sussurros e gargantas secas
Acordo, ainda cercado de preguiça, o dia já nasceu
Eu, afinal regresso às tuas praias, coroado de glórias
sábado, novembro 11
Intempérie
Desde que partiste na calada da noite silenciosa e vazia
O abandono cresceu incontido, que já quase te esqueci
Memórias de solidão reunidas qual escamas justapostas
Que se desprendem uma a uma, até que não reste nada
A realidade é o silêncio reiterado, é a morte recorrente
Feixes de luz sem brilho, no rio volátil do esquecimento
Foi o que restou, quando renunciaste de tantos sonhos
A buscar o que parecia paraíso, na estrada do vil metal
Mas o que nos difere, nunca foi o que a vista pôde ver
O que me abismou foi julgares o menos qual fosse mais
E hoje derrotada, inerme e prostrada, esperas pelo fim
Que para teu desespero, nem vem dar cabo da tua dor
É pena, não vistes no teu mais íntimo, toda a alquimia
Que um dia nos cercou e tatuou-me de vida o coração
A vida que querias fosse um breve sopro sub-reptício
Mas por destino ou por desatino recusa-se a se render
Na paleta de tua escolha, realçaste a mescla ambígua
Das cores que se confluem ao negro, do céu sem luar
Como um véu infinito além dos sonhos que olvidastes
Sem ver que não foi a intempérie que te tornou frágil
No melhor dos casos é não termos nossa mão, já pálida
A pender, fria, de um saco preto entre desconhecidos
sexta-feira, novembro 10
Amapolas
Estavas lá e eu te tocava delicadamente
Uma vontade inconsútil, deliciosamente
Teu corpo e meu corpo, destinos unidos
A deslizar na noite sobre um alvo cetim
Fazer-me alojar na raiz de tua existência
De onde sair só ao chegar do amanhecer
Os olhos fechados p'ra saborear o sonho
Levar vida p’ra onde só haviam amapolas
Caminhar os campos, outrora crestados
E ora depositei mil sementes de poemas
Sussurrar-te tantos instantes luminosos
Revelar que sou pluma e também vulcão
Romance memorável ao fogo da aurora
Encontrar-te entre os estilhaços da lua
Ter-te nos braços e resgatar da solidão
Eternamente contigo até iludir a morte
quarta-feira, novembro 1
Barca dos Desenganos
Nave da meia noite, na azul voragem do tempo
Eu pássaro, asas alçadas sorvi de méis infinitos
Na barca dos desenganos, por toda dor que há
Viajei vidas à margem dos verbos encolerizados
Qual um navegante da luz, no farol da angústia
Nos astros, eu vi espanto e amargos presságios
Na fadiga do dia, tolos devaneios me torturam
Vi o frio e austero céu não contemplar estrelas
Uma metade de silêncio e outra de inquietude
Diz que não sou o mesmo perdido em pensares
Ontem, tão hirto e sozinho resgatei uns versos
Que guardo na morada de lembranças amargas
As quais mereço, por querer navegar no sonho
Hoje o poeta que novamente entrega-se à ilusão
No alvoroço que destoa do ritmo calmo da flor
Mas, este poema inadequado não é só espinhos
Também é canção e brisa que acaricia o campo
Uma fagulha de esperança n’um futuro melhor
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