Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
domingo, maio 9
Pensamentos
Aproxima-se outro verão que promete ser causticante
O jardim ainda exala o frescor da brisa do amanhecer
À sombra da vegetação o canto dos pássaros a pulsar
Cantos que falam de um passado que teima em voltar
Minha mente é uma escuna de velas abertas ao vento
Que singra um mar de sonho a rumar ao velho mundo
Está por lá meu querer, meu porto ou é apenas ilusão
Digo à árvore distraída, par de segredos inconfessos
Para brotar entre as suas folhagens insanos devaneios
As flores a meu redor emanam a beleza que te roubam
Sei que és linda como ninguém e nem posso descrever
Não há ninguém a quem possa falar de ti, sobriamente
O tempo ecoa, meu amor mudo, verbo não conjugado
Com minha voz ruflada neste quase fim de primavera
A brisa indiscreta murmura teu nome ao meu ouvido
E eu a ouço mudo, silente como num apagar de luzes
Meu pensamento baldio a te buscar entre a ramagem
Mesmo sabendo que não irei te encontrar aqui ou lá
É meu destino ser solitário como a maré que se retira
Quiçá como as salas vazias diante das lareiras tardias
Desperto de meus sonhos viajores meio a lugar algum
Num mundo além dos patamares das minhas fantasias
Com meu amor que desabou como um cervo abatido
Pelas dúvidas e contradições que o dia a dia nos traz
Ao mesmo tempo que és a nascente de nova estação
És distância e a voz muda que faz meus olhos marejar
Sou apenas cinzas, um trecho de história não contada
Um cavalo a galope a buscar um lugar após o meio-dia
A porta fechada, um tempo perdido e não existe mais
Lapsos fugidios
Lados ocultos congraçam a
face exata que não se vê, mas que se sabe
Revelados como a fronte de
uma casa esconde seus quartos e janelas
Seus espaços que resultam num
acalanto presumível mesmo sem ver
No interior de cada cômodo
um sucessivo desdobrar é assim abstrato
Alguns lapsos fugidios de memórias
perdidas se aninham na ausência
Porem acordo, numa manhã
fria, uma hora sempre há de se acordar
As janelas estão fechadas, dias
distantes, certo quarto não existe mais
Figuras do passado, postas
em sótãos que a memória recusa revolver
As imagens se quedam, frias
como os dias inertes na escada do tempo
A ficção desvenda e cede as
chaves que a fecham para o mais incauto
Os sons distantes supõem uma
face acreditada, mas que jamais existiu
Olho em volta e vejo
pessoas, tristes como os dias, procissão de velas
Que vêm em silêncio à
exceção do tropel arrastado de suas desilusões
Se vão como peças mal
esquecidas e mal lembradas d’outra dimensão
Suas faces não têm
aparência, são instantâneos vagos, adeuses velados
Num ponto central dessa
casa em todo seu esplendor, ora frio e branco
Éramos nós os ocupantes
fieis à repartição de todo um espaço tão real
Nossas vontades as taboas
do soalho; nossa paixão o verniz volatilizado
Impregnando as paredes de
um odor que já identifica o vazio, a ausência.
A casa é o retrato de seu
senhor, e assim nossa casa era feita de virtudes
Porém deixamos de cultivar,
permitimos que nosso ego nos isolasse a sós
Erros que se desdobram em
seu centrismo para nos alijar de sentimentos
Restamos planos,
adimensionais, como num retrato que vai esmaecendo
Qual a imagem que se
apequena no retrovisor de um carro que já partiu
Nem um aceno ou uma
despedida, apenas um sumir sem qualquer razão
Os dias seguem
indiferentes, nada em nossos corpos denuncia essa falta
Se a promessa de vir ter
por aqui sob qualquer condição foi descumprida
Não ouvirei teu pranto e
nem me tocarão tuas lágrimas caídas silenciosas
Não te doerão minhas dores,
nem te afligira minha interminável angústia
Éramos partes de um só, mas
seguiremos separados por mais outra vida
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