quinta-feira, maio 28

(In)Definição de ser poeta



O poeta é um eterno sofredor, é a tristeza que se personifica
É uma voz contra o vento, gesto levado para lá do horizonte
Também é a flor que renasce a fazer cada dia uma primavera
Uma ave que mesmo triste faz seu canto na chegada a aurora

O poeta cultiva versos, semeia frases, ara pomares de palavras
Na terra crestada, nas areias do deserto, nas nuvens de sonho
É menestrel que reverencia o sol sem culpa de ter anoitecido
O poema germina, indiferentemente, seja da vida ou da morte
Na mesma palavra se oculta o riso e a lágrima, a vinda e a ida

O poeta é o trem que abandonou os trilhos e foi noite adentro
Foi seguir um solo de saxofone, por estreitas vielas, sob o luar
É um coração que só quer carinho, mas até aceita os espinhos
Haverá, Augusto1, alguém que destarte se salve nesse hospital?

(1 Augusto dos Anjos: “O coração do poeta é um hospital onde morrem todos os doentes”)

terça-feira, maio 26

Ocaso




Sigo cabisbaixo por entre lugares aos quais não pertenço
Este mundo de suspiros que calam na minh’alma inquieta
O vento de outono que sopra da serra quando o sol se põe
Assobia uma triste melodia para a beleza do cair da tarde
Meus pensamentos viajam com uma revoada de pássaros
Que vão se recolher piando queixumes em meio às árvores
Com o olhar penetro as camadas de neblina vesperal a cair
A dança da chegada da noite se repete efêmera a cada dia
Na minha solitude sigo os últimos laivos rubros do ocaso
No vazio desta jornada inglória de memórias tormentosas
Não há consolo aos heróis vencidos só um silêncio infinito
Que se quebra somente com o estalar de passos na calçada
Enterro minhas ações em meio às folhas caídas no caminho
Meu espírito desarticulado já não reconhece o que é amor
Sacudo os sonhos, toco as flores ando pelos quatro cantos
Queria tanto situar-me onde mereço, mas só há escuridão.