terça-feira, dezembro 1

Horas mortas



Essa amargura feita de angústia me persegue noite adentro
Essa melancolia das horas mortas que se contempla o nada
Que tira do rumo um projeto de futuro pelo tempo efêmero
Eu que já fora faminto pela eternidade já não mais a almejo
E os vorazes minutos devoram a parca areia da ampulheta
Que criatura sou? Que pensa, que sofre, que ama, que sofre
Do pó ao pó, iludido, sobrevive tão-só para um dia morrer?
Sozinho pelo inexorável tempo até que a terra o consumirá
No negro silêncio dos céus sem estrelas jaz toda esperança
No inconsciente o visgo da culpa de ter tentado me refazer
Não mais me assoma o esforço ingente de soerguer as asas
E voar rumo ao horizonte onde acreditei morasse a poesia
Mas é tarde, já não há volta e o sonho se quedou no oblívio
Sou uma caricatura triste de mim mesmo alisando palavras
E meu coração já não bate, se esconde no peito que o abriga
De tudo, nesta malograda aventura, não há herança a legar
Senão horas a fio a lutar contra a secura da mente e o papel
Contudo, amparado pela teimosia, sigo, certamente errado
Numa inútil espera por um momento mágico de inspiração
Em que a pena acarinhando versos me torne, assim, imortal.

domingo, novembro 22

Partida



Sinto-me tão só e não sei bem porque tu fostes
Dói-me o coração e meus sentidos estão aflitos
Uma letargia toma conta de mim como veneno
Tombei vencido diante de minha maior batalha
Fiquei exposto ao inimigo ao pedir-lhe a mercê
E minha luz de viver foi levada a outros confins

Sinto-me tão só é porque sei que não percebes
Que não posso encontrar a saída desta floresta
Por que ainda é escuro e minha alma é criança
Perdida entre as folhas do que nunca sentistes
Estás tão longe e dói saber que não posso voar
Longe. E só restam as asas invisíveis da poesia

Sinto-me tão só e todos lugares são de lágrimas
Onde quer que eu vá teu lugar vazio me sufoca
Somos duas peças vizinhas deste quebra cabeça
Que a vida nos propôs: vencer velhos fantasmas
Que agora me assombram terríveis como nunca
Me roubando o ar, tornando cinza onde eu olhe

Sinto-me tão só e não sei bem porque tu fostes
Disseste tão de repente não consegui assimilar
E a música parou de tocar, não cheguei ao final
Há muitos amanhãs até poder rever teu abraço
De tantas tintas, o quadro da minha existência
Continua, sem tuas cores num canto, inacabado