Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
quarta-feira, maio 19
terça-feira, maio 18
Noturno 6.6
Há dentro de mim, um universo de vidas e apenas uma visível
As demais, a quem nego que se manifestem, cada qual pensa
Irrefletidas muitas delas, algumas políticas, outras cientistas
Difíceis de lidar eu sei, será que sei mesmo ou somente creio
Como desculpa de minhas falhas, haverá outro a quem culpar
Há dentro de mim essas tantas vidas, tão peculiares, tão iguais
Pouco de mim eu mesmo conheço, mas me quero, tão, lúcido
Estarei sendo duro demais? Outros, normalmente, são assim?
Ah, a quantos de mim renunciei pelo caminho, a cada desilusão
Em cada dia que o sol não brilhou e a chuva caiu inclemente
Há dentro de mim, mil vidas que se recusam a desistir e lutam
Tantas vezes preferi não fosse minha a dor invasiva e latente
Seremos, em breve, sessenta e seis almas a tatear pelo futuro
Uma a cada vez que que o calendário gira doze folhas a mais
Chegarei a fazê-lo? Ora penso serão mais e ora penso que não
Há dentro de mim, um universo de vidas e apenas uma visível
E por essa é que hei de resistir entre tantas que têm tombado
Estes são dias duros em que temos que nos esquivar do medo
Sem abandona-lo, todavia, pois o inimigo invisível é implacável
Resistir e até ousar, mas sem abusar da confiança imprudente
Há dentro de mim, vidas e vidas quais não pretendem se calar
Por vezes já fui pássaro. Asas abertas e, como limite, só o céu
E o desconhecido era aquela flor exótica de fragrâncias raras
Camuflei minhas asas, mas ainda sei voar, há horizontes por aí
Há, ainda, espero, muitas estradas a percorrer, muitas paradas
Há dentro de mim, uma vida que enfim encontrou outra vida
Alegra-me não estar só quando o trem partir à última estação
Cada um de mim, enfim tomará seu lugar, sentados às janelas
Tudo se revelará ao longo dessa, que será a maior das viagens
Quando todos nos reconheceremos, cada um afinal é quem é
sábado, maio 15
Fábula Social
Não escolhi este lugar disforme no enorme vácuo dessas vaidades
Este lugar apinhado com inúmeros perfis, quais tristes
procissões
Formam fabulações vivas a percorrer os sentidos, crispar os
olhos
Entre as nuances invisíveis que se projetam no fulgor dos sonhos
Não pretendi estar aqui entre sorrisos simulados e silêncios
gentis
Um mundo que vale o que se tem por exibir e etiquetas elegantes
Ocultos atrás de máscaras eles expõem à realidade os contrários
Surgem por impulsos, na trama obscura, que é a matriz da dúvida
Repassam as palavras, após torcidas pela fricção nos sentimentos
Dão gargalhadas desatadas e ácidas na teia negra das simulações
E o que era segredo transparece em cordões de frases brilhantes
Mas nada se pode fazer, só retorcer a boca num sorriso metálico
Entre eles, meu pássaro tem a voz silenciada, tem os olhos mudos
Sente-se exilado, solitário meio a um reino de trevas sem
essência
Abandonando qualquer trejeito de surpresa que viesse conservar
Reserva seu voo em busca daquele sorriso de prata d’outros ares
Tudo que jazia adormecido ressuscita em sua forma evanescente
O pensamento que é anterior ao ser se liberta em nítidas imagens
Os vestígios de tua meiga lembrança perduram sempre invioláveis
Residem, inesquecíveis, no mais belo círculo da minha imaginação
segunda-feira, abril 19
Nosso amor
Não se entenderá sobre amor ligando-o
ao curso das horas
Essa cilada poderá levar à ideia,
sem razão, que os grandes
Amores careçam de longo tempo para
se tornarem grandes
Como não te amar ora se és a
melhor imagem de eternidade
Desligado da ideia desse tempo
racional, tão fugaz e efêmero
Que consome a beleza, a força, as memórias, consome a
vida
Não se entenderá o
amor julgando-o à luz de erros passados
O passado foi apenas
uma lição que se tornou a experiência
Sabe-se em química, que se pode
tentar por vezes até acertar
Como não te amar já
se és a minha própria imagem refletida
Se és o que tenho de especial e nossos caminhos
convergem
Os opostos só se atraem na
física, não na vida e nem no amor
Não se entenderá o amor se não se
vivê-lo intenso e sem limites
O amor não aceita que se o fracione,
esquematize ou comprima
Para que caiba na expectativa de quem vê a vida de forma linear
Como não te amar se na tua
ausência minh’alma chora de vazio
Se és o carinho que me acolhe o espanto
na hora que a dor vem
Recolhe meus pedaços me refazendo
como o melhor que já fui
Não se entenderá o amor se não
souber do fogo que nos invade
Que nos arrebata, que nos retira os
corpos do controle racional
Fazendo-nos tal deuses,
elevando-nos entre as nuvens do Olimpo
Como não te amar se
em meu projeto de vida está tua imagem
Se és meu alicerce, as colunas
que me sustentam e meu telhado
Lembrar de ti é lembrar do cheiro das flores, da
doçura do mel
Não entende de amor quem procura os porquês de nosso
amor
Nosso amor apenas é, assim existe. Sempre será um hino
à vida
O amor de Romeu e Julieta
não demorou anos para acontecer
terça-feira, abril 6
Ciclos
A tarde se cobre de tonalidades cinza de um novo abril
A névoa densa a beira mar a anunciar um tempo sombrio
Está já distante da primavera, mais próximo dos soluços
O vento frio a mostrar suas asas sobre toda a terra crua
Na planície de brancos reflexos do dia, um grito partido
O sol se deita dolorosamente nesses horizontes infinitos
Deixando sua esteira rubra sobre o azul límpido do mar
Dos barcos, as velas distantes, se assemelham a adeuses
Meus olhos as contemplam como a indagar por onde irão
Serão esperadas em outras terras ou apenas vão a passar
Toda a paisagem se apropria dessa melancolia do outono
Uma saudade que aperta a garganta sem se saber porque
A tarde se despede quase moribunda, a noite já espreita
As gaivotas, tristes, cantam pelos barcos que já se foram
Minha voz também se foi e a chuva vem para se anunciar
Com ela também o meu cansaço e meu coração mendigo
Treme, como uma criança perdida ao fragor dos trovões
terça-feira, março 16
Tempos Modernos
Nestes dias tão invulgares meu olhar fita o mundo à volta
Constato que nada é como parece ser, até música é outra
Ainda assim, não desprezo nada, dou bom dia ao mendigo
Faço se mover o poeta que reside por baixo da minha pele
Pois grava as coisas que eu vejo para sacudir meus sonhos
Vejo pessoas, flores, almas, sons e movimentos à marginalia
Aqui seguimos pendurados na terra, nossa casa destelhada
A rua crepita ao passar dessas consciências ou à sua falta
Meus passos ecoam entre as paredes de meu quarto vazio
Não há consolo para os heróis vencidos, apenas desapreço
As meninas não sonham mais com príncipes, antes dragões
Não consigo imaginar que esse fosse o desígnio da criação
São tempos que parecem bem mais articulados com o diabo
Não sinto mais o perfume dos jasmins em todo entardecer
O gato se esgueira pelos muros com seus olhos de mistério
A pena mergulhada no tinteiro sobre a mesa, a folha vazia
sexta-feira, março 12
Chegaste
Chegaste depois que vida percorreu tantas curvas e veredas
Mas, enfim que chegaste para desfazer as presenças antigas
Ocultadas pelo pó cego de uma arcaica noite que carregava
Move-se dentro de mim uma paixão, qual um animal irascível
Caminhando sempre cá e lá entre as sombras de meus sonhos
Em busca dos esparsos íntimos minutos que são nosso esteio
Viverá na esperança de renascer nesses belos minutos do amor
Da troca de olhares, da permissão de olvidarmos nossas idades
Resgatando a adolescência onde tudo é simples para a paixão
Mesmo cavalgar cavalos marinhos pelas tempestades que vêm
Até dizer eu te amo, ainda quando nada parece fazer sentido
E nos sentimos qual uma nuvem perdida boiando no horizonte
Chegaste quando a vida já gravou mil cicatrizes na minha pele
Mas, enfim que chegaste para me permitir olhar ao outro lado
Talvez sorrir, ainda que minha estrada se margeie de espinhos
Para ousar arvorar-me fora das cinzas do tempo, te dar a mão
Ver que o destino gravou teu nome nas pedras do meu caminho
Para que eu siga sem me perder, sem jamais temer os fantasmas
Se nada é como se esperava ser, este amor urgente sobrevive
A esgueirar os olhos entre estrelas deserdadas, pulsar febril
Onde os sóis foram dilacerados em palavras roucas ao vento
Num mundo que devaneios cegos preenchem a tarde amarga
Toda música foi trocada pelo silêncio que me cerra os lábios
Mas a palavra certa resiste, solitária, neste coração de poeta
Chegaste para que eu escreva a última palavra noturna do desejo
No vento do outono que virá, em breve, a soprar as folhas mortas