sábado, setembro 11

Carta a Meus Filhos

 De tudo que sabes, muito mais falta a saber

De tudo mais que ainda tu possas vir a saber

Não diminuirá a distância do que não saberás

Somente a humildade de reconhecer esse fato

Poderá diminuir um ou dois degraus da lacuna

Pois percebes que a cada linha que aprenderás

Descobres que faltam mais duas para aprender

 

Olhe teus inimigos com os olhos do coração

E aos teus a bons amigos, com os da razão

Só assim poderás perdoar quem te quer mal

E recompensar com justiça aos que te amam

Somente o perdão irá aliviar o peso sobre ti

Mas, não significa esquecer com quem lidas

Assim caminharás liberto e atento pela vida

 

Ama, verdadeiramente, a quem dizes que amas

Entrega-te. Na verdade, é o destino que conduz

Não faças promessas, ainda que possas cumprir

A surpresa de algo bom é mais feliz que a espera

Protejas sempre a verdade em tudo o que digas

Ajas para que a verdade seja carícia ao que ouve

E o corolário de teu caráter diante do juízo final

 

Vive de forma intensa acaso não haja um amanhã

Mas resguarda-te, pois a safra é do que plantas

Não tenhas saudades do passado se ido o tempo

O passado não volta e deve ser apenas uma lição

A vida é efêmera, deixes nada para o dia seguinte

Sejas previdente, te antecipes aos fatos possíveis

Os impossíveis o universo se encarrega de avisar

 

Ao fim, por mais que eu te diga como deves fazer

Apenas considera, mas faz como teu coração diz

O que te digo é apenas um entre tantos caminhos

Não me imites nem sejas espelho, sejas tu mesmo

Mas ainda sendo tu, podes lembrar estas palavras

Sejas justo e adequado aos teus princípios morais

Só assim serás senhor de teus caminhos e da vida

quarta-feira, agosto 18

Morrer de Amar

 Porque por vezes me dás essa sensação de abandono, que te falta?

Sei eu não espelho a perfeição, nem perto disso, nem o que espero

Eu queria aprender a velejar nas tuas leis, mas não te compreendo

É sempre esse silêncio em que só tu que falas, mas não me escutas

Permaneces distante mesmo presente, chegas no corpo não a alma

Mesmo que eu me reparta em tantos não me entendes em nenhum

Tenho um pomar nos meus versos, delicados tal o pêssego maduro

Intensos qual o rubro das amoras, doce como as cerejas que colhi

Por vezes, reconheço, azedos qual o maracujá e ainda são só teus

Mas é a tua ausência o caderno onde escrevo os poemas noturnos

Enquanto as flores fecham suas pétalas e reservam seus perfumes

Nessa longa espera, até que o novo dia e outra espera amanheçam

Cada manhã eu renasço na esperança que ao chegar venhas a mim

Pois a paixão mora em mim, bem fundo em meu coração alucinado

Dessa minha adolescência tardia, que fiz só para estar ao teu lado

Descansa esse lado pedra, que te quero flor, para regar não colher

Tira das costas o peso de ficar em guarda, eu me inventei só prá ti

Depois vem, que tenho fome de amor, corpo e alma, vamos brincar

Correr pelas campinas, de mãos dadas, deitar na relva e apenas rir

Seguir pelo rio, rumo ao mar onde, enfim, eu possa morrer de amar

 

segunda-feira, agosto 9

730 dias contigo

Como poderia eu imaginar que há dois anos atrás o amor venceria

Noites tão imensas em um coração desolado a lamentar o futuro

Recordo que quase te perdi nos planos opacos que o destino faz

Hoje te precipitas em meus sonhos dos quais retiro estas palavras

Qual se pudesse extrair da linguagem algo do que significas a mim

Quando estás distante, penso que não existes senão em meus olhos

E que te imaginar minha é só a forma de abstrair o mofo das horas

És o pão de toda a ternura que me resgatou dessa solidão feérica

Que me incendiou a carne e também a alma nas transversais do dia

És aquela que deita minha pena ao papel me resgatando do silêncio

Que retirou meu coração da sombra que vivia no varejo das horas

Fazendo o sol comparecer em mim no oásis que és meio ao deserto

Ao teu lado sou menino e me cego às dores de dias ácidos e febris

Ainda resistem na garganta resinas amargas que contigo se diluirão

Anseio te dar o que for o melhor de mim, do que a vida me ensinou

Dar asas à ternura para planar em tua direção nos ventos do amor

Que seja leve e brilhante como a brisa entre as árvores nas manhãs

Se não posso mais, recebe este poema, fruto do bem que quero a ti

Flor da minha primavera, perfume das minhas flores, cor do meu dia

sábado, julho 31

A descoberta da poesia

Assim um dia, descobri que posso ver o que a foto não revela
A residir no horizonte interno, invernal e oculto pela pálpebra
Tantos navios naufragados, deserdados neste poço de solidão
Ventos avaros, de um verão já distante, solenes como ícones

Assim um dia, descobri que o mistério maior que eu já escondi
São fragmentos olvidados de mim, dos antigos silêncios carmim
Dos perfumes ociosos de jasmim, absolvidos de todo o pecado
Só por estarmos juntos, duas almas a habitar uma só paisagem

Assim um dia, descobri que não se conhece da vida pela janela
Mas a imergir o império das esperas melancólicas dos domingos
Perscrutar nos porões que se velaram as mais densas tristezas
Ouvir as vozes anônimas da verdade que desafia nossa higidez

Assim um dia, descobri o poema, amigo ora sublime, ora cruel
A retratar o martírio de quem se abandonou a sonhar o amor
Em vocábulos ceifados do peito, ancorados na folha de papel
Cristalinos como as auroras ou sombrios quais noites sem luar

O poema dilacera os mistérios da linguagem, santa ou meretriz
Fere de morte a inércia da língua e salta da página ao coração