terça-feira, fevereiro 10

A Pitoresca Saga de Eleutério Paixão

 
Apolinário cabelo desgrenhado, de terno despareado
De uma linguagem subtraída da compreensão comum
Guardou na gaveta todas as perguntas irrespondidas
À margem da vida, já rumando pra antessala da fome
Debaixo da sombra que a melancolia coletiva definiu
 
A alma de quem caminha só entre moinhos sem ventos
Vive alheia a quem ou o quê nesse inferno de lágrimas
E colher as frutas amargas que, todavia, não semeou
Essa espera infindável de antes desespero que solidão
Como é doloroso morrer, quando se permaneceu vivo
 
Não é o medo à beira do poço, mas de erguer-se e ser
Porém apenas um monte de carne e ossos que ambula
Ouvir a batida densa do coração, tudo mais é silêncio
Imaginar-se arredio a tudo e ainda ao alcance da vista
À revelia de tudo que acontece, mas não do que sabe
 
Isolado no abandono fatal, do qual não pode escapar
Sei que todos nasceram separados, mas nem por isso
Que se deve dobrar a aposta e seguir assim segregado
Por caminhos onde a esperança nunca tenha trilhado
Habitante de uma festa imaginária ao alucínio do dia
 
E naquela viela de casas alquebradas e tijolos a vista
As luzes tremeluzentes emprestam um ar agourento
Como se algo se fizesse permanentemente a espreita
Tão longe se vão os coros das cantilenas dominicais
Estações que não sentia na boca esse hálito amargo
 
Agora tão só suporta, resoluto, todos esses subsolos
Com a nitidez de quem, reuniu os laivos de coragem
Entre um resto de encarnação e assobia uma canção
Caminha entre uma lágrima e outra, sapato de couro
Que arrasta sem ritmo, buscando o ar que lhe falta
 
Pensa que no fim do mundo haja u’a chamada geral
Aprumará o peito, metade angústia, metade rebeldia
E qual último morador do silêncio, ensaia um sorriso
Vai altivo augurando a vinda de tempos sem guerras
Leva na mão o último exemplar d’um livro de poemas

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