sábado, março 7

Excertos d'uma Loucura Intrínseca

Meus manuscritos eu os escondo sob o crepúsculo vespertino
Só os abro noite alta, para assombro dos que não me aprovam
Nessa hora olho aos céus e sob a luz intensa do véu de ozônio
Mergulho nesse amplo vazio, meio a todas estrelas cintilantes
Que parecem ampliar o céu sobre as pedras surradas do cais
Esquivo-me de túneis do desassossego, rumo ao vértice diário
Esquivo da agitação diurna da cidade, de hordas decadentes
Meu tempo é qual nos filmes, corre num tipo de câmera lenta
Alheio a qualquer sucesso, fujo da mirada das bocas ciciosas
Que têm o dedo em riste, mas suas casas se trajam de pobreza
Caminham sob o sol escaldante onde já não voam as cotovias
Ao dia eles vêm se manifestar, mas na noite nublada se calam
Finjo que os desconheço, se acham reis, mas não têm súditos
Faço os versos tal qual a mescla de tempestades e de sonhos
Frutos d’uma vida ligeira, semeados na minha loucura intrínseca
Brotando rubra entre as carícias, que só a madrugada possui
Enquanto espero o raiar do dia que ‘los güises’ já anunciaram
Meu poema é chama sólida, em meio à festa assídua do pensar
Que eleva meus altissonantes diálogos de criaturas noturnas
Na infindável busca da palavra perfeita a versos imperfeitos
Escondi meus manuscritos, voláteis, desses meus repressores
Quando despontar o sol candente nestas longitudes zenitais
É hora de pousar meus pássaros entre as árvores de quimera
E o poeta, arlequim ou pensador, rabisca as últimas estrofes
Vendo-se pássaro pousado na janela fosse ninho, não vidraça

 

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