A Genealogia da Palavra
Há quem queira dizer que palavras sejam iguais a um fato
A palavra pode ser o instrumento para descrever os fatos
Mas a pura verdade é que palavra não se converte nestes
Tudo o que se diga, instrumentalizado pela boca e língua
Em alento e tom, tudo que se possa escrever com a tinta
De que cor seja, azul ou negra ou em sangue é tudo pífio
Posso descrever o rosto de um homem à morte, seu rosto
Lívido, a boca
escancarada, sua dentadura mal encaixada
Queixo caído sobre
o peito, olhos vidrados ao céu, pasmo
Enquanto já se ouve à distância o resgate no som da sirene
Que palavra em tinta é a verdade da partida
ou da salvação
Poderia descrever como faço amor, no recôndito da noite
Como minhas mãos avançam sobre suas curvas, suavemente
As polpas dos dedos a percorrer seu corpo quente e úmido
Como improviso para aproximar minha boca dos seus lábios
Toda palavra não será a volúpia, nem tampouco será prazer
Nas máquinas de escrever há tão-só letras, não há palavras
Signos que fazemos converter-se em sons, articuladamente
Palavras são palavras que pesam o mesmo quando digo amor
Ou quando digo da bomba de 50 megatons sobre
Hiroshima
Sentir é quando nos desnudamos e revolvemos sobre a cama
Teus mamilos eretos e pernas abertas qual portas ao
mundo
Mas não sei d’uma palavra que estanque o
tempo sobre nós
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