sexta-feira, março 20

No céu, à minha revelia

O amanhecer demorou a me encontrar na noite escura
São anos viajando pelas veredas noctívagas no silêncio
Identifico uma voz, dentre as inúmeras vozes que ouço
E assim te descobri, mas teu nome faço exato segredo
Então neste poema, por razões que só a ele competem
Ao falar de ti, falo em parábolas, tua geografia tão-só
Teu corpo esguio, teus seios fartos e as pernas roliças
Ainda nos vejo n’outros tempos, dançando ao espelho
Na vitrola toca um disco do B.B. King com sua Lucille
Rostos colados e sussurros insidiosos ao pé do ouvido
Hoje os meus joelhos não acompanhariam os teus ágeis
Mas não há porque preocupar, de fato, não estás aqui
És apenas uma ideia que se prolifera qual estalactites
Um sonhar de tempos idos, nos sonhos tudo podemos
Podemos girar os quadris enquanto Chuck Berry toca
Apesar disso és tão verdadeira quando seguro tua mão
E quando olho nos teus olhos para não perder o ritmo
Teus cabelos balançam, como usual em setenta e sete
Só migalhas nas memórias do tempo que não volta mais
Foi dessas razões que este é um poema só meu, só teu
Quem ousaria crer, ver-te bem sabendo não estás aqui
Nenhuma reprimenda ou juízo por ires à minha revelia


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