segunda-feira, março 23

O Encontro da Poesia e o Surreal

 

O poeta levantando numa esquina antiga
A palavra por um fio, dissolvida no verso
Cristalina, desnuda de antagônicos usos
E n’um trago alcoólico para esquentar-se
Cospe um sabor acre de dúvidas penosas
Por respostas torturadas e ensurdecidas
Olhos fechados para não hesitar e canta
Meu poema não se subordina a contextos
De empoeirados compêndios dissonantes
Eivados de mil edificações sintagmáticas
Nem se dissipa pelos dilemas do cotidiano
Ou no absurdo especulativo dos eruditos
O poema surrealista, tão incompreensível
Aos que escandem a estrofe pendurada
Numa argola, se abstraem de toda ironia
Amalgamada com o vazio das entrelinhas
Prescindindo, precocemente da verdade
E profundidade que o inesperado causa
O poeta azevieiro ignora erros e triunfos
Igualmente deletérios, que a estrada traz
Altivo, supera fadiga, sustos e as vigílias
Cônscio que desta vida de empréstimo
Nada se leva senão o amor que se viveu

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário