quinta-feira, janeiro 6

Um Dia Desses

Um dia desses ir-me-ei embora, restará o canto dos pássaros

Persistirá o jardim que fiz plantar e o verde de suas árvores

Além disso restarão em azul todas tardes plácidas dos céus

Será possível, nas manhãs de domingo ouvir os campanários

O amor que tenho não morre comigo ou olvido que te amei

Talvez, tu sintas saudades das sestas nas tardes sonolentas

Ou ainda de toda risada feliz que demos deitados na grama

Enquanto meu espírito errante assistiria a tudo, nostálgico

Mas, se tu que fosses embora, não haveria os céus plácidos

Não haveria cor, azul ou verde ou pássaro nenhum a cantar

Meu coração seria uma eterna geleira dos invernos austrais

A primavera jamais regressaria e o jasmim não teria perfume

E qualquer o tempo que restasse, esse tempo não seria meu

Mas tempo para lamentar, sangrar de dor, chamar teu nome

Afasto esses pensamentos e visitam-me imagens da infância

Onde tudo era belo e eu escutava a chuva chegar no vento

Tempo mágico de folguedos, do harpear do realejo na praça

Relato que me invade nesta tarde de esperança e abandono

Estendo a mão, oculto a tristeza: não é mais hora de chorar

Agora que o sol já declina, não poderei mudar o que passou

Mas eu serei teu e tu serás minha, enquanto o sonho existir

quarta-feira, janeiro 5

Por Amor

Este poema, vem como uma espécie de homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, rompendo com meu estilo usual de escrever, sem, entretanto, abandonar a veia surrealista que é minha forma de dizer que a poesia foi, é e sempre será um gesto de rebeldia.

 

 

Ah vida, o que não fiz por amor

Janelas abertas, mundo fechado

Versos avessos, verbos errados

Buscas concretas, edifícios virtuais

Ruas sujas e caminhares descalços

Absolvição silente ao pé do cadafalso

Por amor, eu me fiz em verdade

Sofri, calei, berrei sempre sem rima

O ser que fala, aspira ao dom de criar

Perfaz do sacrifício em seu desejo

O agridoce sabor do desconhecido

Meu próprio sabor de ter existido

Por amor vivi, morri, sangrei, sorri

Sonhei sonhos leves, sonhei pesadelos

Briguei co’a escuridão na paz da luz

Ao pé dos ipês, ouvi o bem-te-vi

Quis ser o céu azul, o sol, o sal, o cio

Ao ver a revoada das andorinhas

Sem medo me lancei em ti, vida

Nas águas, nas marés, na chuva

Fui incompreendido, obra inacabada

Por amor, fui pai e, assim, o filho

O poeta (o homem) é apenas sopro)

O futuro é o hoje, o oblívio da morte

Diga-me o que resta fazer por amor?

segunda-feira, janeiro 3

Estio

 

Tocou uma canção triste e esquecida na velha vitrola

O vento resolve trazer lembranças cobertas de musgo

Na casa vazia, porta e janela fechadas, da tua partida

 

Num remoto carnaval da alma, vesti fantasia de poeta

Esparramei confetes de palavras e versos serpentinos

Teria sido somente o desatino de meu pássaro cativo?

 

Sei que isso me trouxe sol e calor quando era inverno

Trouxe flores que desabrocharam em meu peito vazio

Levou o sofrer insano de não ter quem chamar querida

 

De desenganos em desenganos, já não vivo de ilusões

Mas sei quem me acolheu, quem calou o meu lamento

Que surgiu e me devolveu o vigor para tecer os versos

 

Sopra o vento peregrino e o vozerio dos mortos se vai

Muito antes que eu canse de te olhar, a noite chegará

Eu mirar-te-ei de novo e de novo para nunca te perder

 

Esperei pacientemente por tua chegada ao meu porto

E agora ai estás viva, táctil, qual a luz a romper a noite

O rumor da ventania já vai se silenciando na distância

 

Chega o estio por estas paisagens ainda adormecidas

A alameda em flor, cálida, se estende até o horizonte

No fim da estrada a serra recorta da paisagem, o azul