quinta-feira, agosto 20

Não Diga A Verdade

 

Quando as palavras cotidianas de tornarem ininteligíveis

E a mesa onde se deita o pão, não seja mais mesa ou pão

Umas bocas prepotentes, roubam o significado do simples

Como água e janela, quando a chuva bate tenaz à janela

Tempos modernos e certas palavras não podem ser ditas

Por mais que a foto estampe o fato, notório, inconteste

Não diga “belo índio”, pois disseram que é depreciativo

É indígena. Pois então indígena filho da puta, isso pode

O amigo, que nem sabe onde é a África, afrodescendente

Não, as palavras não são feias, feia é a intenção ao usá-las

Dirão que certas palavras são para serem posta no armário

Não nos diálogos, nestes, há que escolher, mas não ideias

Quando as velhas árvores em que brincávamos no passado
Não forem senão uma lembrança, os apelidos que dávamos

Aos amigos virarão crimes irreais, uma mentira inventada

Bulling: um estrangeirismo, pomposo, feito só para regrar

O poder é o machado que dizimou a nossa simplicidade

Ruas sonham com o sol que a fumaça do poder escondeu

As frutas são colhidas verdes e untadas prá amadurecer

O homem pagará o preço de tanta mudança e inutilidade

O silêncio contará os segredos que não se queria revelar
Na turva memória dos invernos o mundo ficou aquecido

Vive desordenado qual um sótão onde não se quer subir

 

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