Não Diga A Verdade
Quando as
palavras cotidianas de tornarem ininteligíveis
E a mesa onde
se deita o pão, não seja mais mesa ou pão
Umas bocas prepotentes, roubam o significado do
simples
Como água e
janela, quando a chuva bate tenaz à janela
Tempos modernos
e certas palavras não podem ser ditas
Por mais que a
foto estampe o fato, notório, inconteste
Não diga “belo índio”, pois disseram que é depreciativo
É indígena. Pois então indígena filho da puta, isso pode
O amigo, que nem sabe onde é a África, afrodescendente
Não, as palavras não são feias, feia é a intenção ao usá-las
Dirão que certas palavras são para serem posta no armário
Não nos diálogos, nestes, há que escolher, mas não ideias
Quando as velhas árvores em que brincávamos no passado
Não forem senão uma lembrança, os apelidos que dávamos
Aos amigos virarão crimes irreais, uma mentira
inventada
Bulling: um estrangeirismo, pomposo, feito só para regrar
O poder é o machado que dizimou a nossa simplicidade
Ruas sonham com o sol que a fumaça do poder escondeu
As frutas são colhidas verdes e untadas prá amadurecer
O homem pagará o preço de tanta mudança e inutilidade
O silêncio contará os segredos que não se queria revelar
Na turva memória dos invernos o mundo
ficou aquecido
Vive
desordenado qual um sótão onde não se quer subir
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