De Onde Nasce a Solidão
A esta hora, a
poesia não pulsa nas vitrines esquecidas
De um tempo de
relógios sem ponteiros, sem conteúdo
A sede aguarda que um cântaro cego encontre a água
E entre todos esses silêncios a palavra abre um abismo
Em que a angústia é a ponte precária entre seus lados
Sou um pássaro sem rumo que voou pela noite enorme
Meu poema não canta os tratados, nem os compêndios
Canta a pulsação que existe entre
meus lábios e os dela
Nas histórias que se findam com a palavra que as inicia
A solidão não germina nas ruas e sequer pelas cidades
Mas naquele ponteiro ausente que trespassa o silêncio
A solidão
nasce em nosso íntimo, quando a hora passa
Meu poema não impõe a ordem ou põe a vida no prumo
Escrevo agora aquilo que no
passado não foi permitido
As canções desoladas que sustam a mudez da estátua
Tu, personagem
dos meus sonhos, como te queria aqui
Deitada neste
peito ferido pelo punhal da tua
ausência
Queria-nos caminhando descalços na areia à beira mar
Mas as taças estão vazias, largadas sobre a mesa da sala
Acendo os
lampiões, sem o que não pode criar poesias
Refaço meu alfabeto, construo minhas proparoxítonas
Para te
sobressaltar com os meus versos despenteados
Escrevo agora, pois posso pousar naquela janela aberta
Como se pudesse te ver surgir entre
as linhas do papel
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