segunda-feira, agosto 10

De Onde Nasce a Solidão

A esta hora, a poesia não pulsa nas vitrines esquecidas

De um tempo de relógios sem ponteiros, sem conteúdo

A sede aguarda que um cântaro cego encontre a água

E entre todos esses silêncios a palavra abre um abismo

Em que a angústia é a ponte precária entre seus lados

Sou um pássaro sem rumo que voou pela noite enorme

Meu poema não canta os tratados, nem os compêndios

Canta a pulsação que existe entre meus lábios e os dela

Nas histórias que se findam com a palavra que as inicia

A solidão não germina nas ruas e sequer pelas cidades

Mas naquele ponteiro ausente que trespassa o silêncio

A solidão nasce em nosso íntimo, quando a hora passa

Meu poema não impõe a ordem ou põe a vida no prumo

Escrevo agora aquilo que no passado não foi permitido

As canções desoladas que sustam a mudez da estátua

Tu, personagem dos meus sonhos, como te queria aqui

Deitada neste peito ferido pelo punhal da tua ausência

Queria-nos caminhando descalços na areia à beira mar

Mas as taças estão vazias, largadas sobre a mesa da sala

Acendo os lampiões, sem o que não pode criar poesias

Refaço meu alfabeto, construo minhas proparoxítonas

Para te sobressaltar com os meus versos despenteados

Escrevo agora, pois posso pousar naquela janela aberta

Como se pudesse te ver surgir entre as linhas do papel


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