quarta-feira, setembro 17

Verso Caído

 

Perdoe-me se este verso noturno saltou no papel
Antes que eu pudesse evitar, sim lutei para evitar
Posso jurar que já te esqueci, tua foto já rasguei
Nem imaginei escrever nenhuma palavra proibida
Eis que me faltam as melhores para te descrever
Quase pensei em rimar amor e dor ao falar de ti
Pois a vida negou-se a seguir, tatuando-me a alma
Porém eu deixei partes em branco, qual silêncios
Feitos de nuas palavras há tanto impronunciadas
Que deixei em signos enterrados na areia do mar
Sem mapa algum para não os pudesses encontrar
Perdoe se aquela águia cativa partiu qual sonho
Revoada que te revelou, adivinhou, enfim calou
Então fecha os olhos, já não há cheiro de maçãs
Ouve um último lamento, escrito em clave de fá
Na dança do fogo, o som triste do oboé em mim
Imagina que tudo o que abdicamos pelo caminho
Repouse nas raízes da árvore d’um outro futuro
E que cujos frutos não estarás aqui para provar


terça-feira, setembro 16

Catedrais

Do que se fazem as palavras que compõem o poema
Terão a mesma matéria de carne e sangue do poeta
Qual o destino terão depois de escritas, aonde irão
Acompanharão quem as leu, nos lumes da memória?


Quiçá as palavras nos sigam ocultas no pensamento
E irão ecoar nossos versos, como marcas indeléveis
Imagens sem olvido que, de fato, nem sabemos bem
Serão as notas musicais da canção que não se cala


Todas emoções, sentimentos que irão à eternidade
Morrem e renascem à flor da pele, possíveis ou não
Vencem o limite de onde não se tinha certeza iriam
Apenas acontecem sem que alguém as possa evitar


E onde irão as palavras que se calou? Diluir-se-ão?
Dissolver-se-ão na rua escura de amargos regressos
As vozes vazias morrerão na soleira d’alguma porta
Onde nos aguardará no final dos sonhos realizados


Mas a palavra certa faz tudo acontecer diferente
Mistérios decifrados, a primavera a suceder o frio
A incerteza da aridez mitigada nos braços da água
É o arco que impulsiona a flecha ao alvo do desejo


O poema é a palavra qual a onda, que na rocha bate
Ao invés de morrer, constrói em espuma, catedrais





segunda-feira, setembro 15

Poema Quântico

Dos versos despontando palavras de quânticas esperanças
Levanta-se a nuvem de fumaça e a multidão grita pela rua
Um grito glacial encerra um quadro de imagens desmedidas
Dúvidas violentas rondam os homens comuns nas esquinas
Árvores começam verdosas os dias que vêm do desespero
Uma estátua de sal surgiu na praça sob olhares incrédulos
O jornal mente sobre os feridos e ninguém sabe nada além
Rostos impotentes em seus cornos, começam o dia alheios
O criador poderia ter criado o céu, os campos e os mares
Mas sem bíblias, vedas ou alcorões e sem nenhuma guerra
Na sombra do medo de errar, resulta nosso maior fracasso
Estão no meu cérebro, os delírios, os acertos e minha selva
A nua insistência de caminhar seguindo sempre em frente
Apesar das instituições e dos seus cordéis de marionetes
Olvidar um comando que nos manda jogar de Caim e Abel
Ser um poeta quase mitológico, possuído só por si mesmo
Ser a pessoa como se é, embora disso venha uma tristeza
Quando se termina de fazer amor e logo é preciso partir

 


quarta-feira, setembro 10

Hino à Independência II

A mão estendida
Palma acima
Nada mais triste
Mão humilhada
Voz silenciada
Negro centavo
Cinzento pão
Onde se fará
Cerrada mão 
Punho vertical
Mastro orgulhoso
Filha da revolta
Voz incontida
Bela flâmula ígnea
Sangue que escorre
Pela verdade
Pelo verde amarelo
Pela Pátria Livre


terça-feira, setembro 9

Tem(po)²ema

Ventava nessa tarde, era um final de inverno qualquer
Os olhos miravam, vazios, os objetos flutuando pelo ar
Pouco a pouco se pôde sentir um cheiro de terra úmida
Nuvens breves abrem frestas, para derramar raios de sol
Nos olhos humidamente vivos, brilha a íris sem o arco
A sombra do sorriso dela decompõe toda a dor antiga
E cruza todas as fronteiras sobre as areias e as ondas
Desvendando o espaço e a verdade entre mil estrelas
A tarde se esvai, qual as nuvens se foram, vem a noite
Os planetas em suas excêntricas órbitas tão distantes
Trazem o calor de sua lembrança, contando histórias
Sara-me as feridas, apaga as mais profundas cicatrizes
Porém não me atrevo de novo a pronunciar seu nome
Apenas dizer que guardo em todas cores sua imagem
No matiz do silêncio, ouço-a a bater na porta da alma
Teço o verso como um laço de palavras para lembrar
Pensamento e movimento feitos em minha língua mãe
Queria aprender a voar, mas sem me arriscar no vazio
Abracei tantos braços tão frios qual portas fechadas
Já conheci anjos negros se disfarçando de esperança
Num mundo submerso pelo abandono, seguro sua mão
Invento meu próprio tempo que se conta em estrofes
Que assim poderá
eternizar o coração que nos habita

 


domingo, setembro 7

Poeta sim

Dos vórtices desta minha inesgotável solidão
Sou quem conhece as verdades e os enganos
Foram inúmeras decepções, ó meu bom amigo
O que não sei, concebo e trago todas provas
Por vezes, eu finjo aceitar as coisas como são
Fazer de coisas banais, assuntos tão sublimes
Ou assuntos sublimes ter ares de coisa banal
Não, nad’isso se vai aprender nas faculdades
Aprender-se-ia a ser um filósofo, poeta jamais
Será capricho do destino este peito retalhado
Dar-se mais aos versos, que as máximas da lei
Das artes de guerra e de toda nula estratégia
Preferi as noites indormidas e o copo ao lado
Portanto, cale-se antes de dizer que os versos
Prestam apenas a estúpidas histórias de amor
Ou me fará que o mande à mais solene merda
Juntamente com tais questões de altivo valor
Sou poeta sim, penso que nasci assim. É cruel
Atinar que as colunas valem mais que o sonho
Dos vórtices desta minha inenarrável ausência
Sou quem conhece as emoções e as cicatrizes
E posso dizer que não há realidade sem sonhar

segunda-feira, setembro 1

Guerra e Paz

O trabalho reclama os dias, consome as horas, pela batalha do dever
Em líquidas memórias impacientes, buscamos a calma sem encontrar
Deixo o benefício da dúvida sobre as energias gastas dessa maneira
Segundo após segundo, são passadas horas em ponteiros deslizantes
E avançamos para quitar as últimas ações, em uma estranha tristeza
Numa vitória inventada, a tarde vem para renovar as outras nuances
Num mágico poente, quando o sol se retira e nos colocamos a pensar
E imaginar que podemos sentir o perfume estival das flores do campo
Mas o que anuncia a chegada da noite é o novo e desalmado inverno
Eu que nem lembro ter visto o outono passar ou suas folhas abatidas
Penso que eu queria estar ao teu lado, sentir teus seios imponentes
Desatar-te dessas tuas vestes para chegarmos aos limites do mundo
Sentir o sangue fluindo no ritmo de pulsações aceleradas do coração
Quiçá fosse só uma espera para alongar o tempo, reduzir os espaços
Sob uma luz insinuante no quarto, espalharmos as roupas pelo chão
Chegar-me ao teu lado e aconchegar minhas coxas entre tuas coxas
Deslizar minhas mãos sobre tua pele, olvidar os edifícios e gravatas
Ser o sentimento exponenciado ao limite, partilhado só com os olhos
Conhecer-te como quem se olha ao espelho em admiração atemporal
Para quem veio da guerra do cotidiano, olvidar a selva de concreto
Assim eu declaro a paz, incondicional, para te dizer o prazer venceu