terça-feira, maio 9

Não há domingo em Kiev

Ontem vi poetas calados ensimesmados com suas mazelas
Derramando, gota a gota fino vinho, cheio de resplendor
Na busca de um gemido, o mais vicioso e o mais presente
Emboscados na sua devoradora solidão e outros a chorar
Em pânico, ouvem a voz de mortos que deixaram pra trás
 
O verso pobremente devoto, insensível à segunda pessoa
Deixem-no gritar até que o velho sol termine seu passeio
Qualquer poeta perjuro à única resposta que lhe caberia
Que o fundo de sua dívida, faz núpcias com a imundície
Pois, quando a noite cai, o silêncio lhe será qual herança
 
Por mal, apoiados num intolerável fuste, calam ao alheio
Inundam-se entre tantos pecados, ainda que por omissão
Da qual somos pródigos quando face ao mal nos calamos
Posto que desobedecemos à caridade entre outras obras
Que competiria a todo aquele que tomar da pena e papel
 
A luta pela paz, a peste da paz, é uma vigília interminável
O caçador que há dentro de mim encontra-se na espreita
Obedecendo a memória ancestral, ao espírito vivificante
Combato os abutres quais nos queiram anquilosar a vida
E tudo que impeça ver-nos à imagem e semelhança D’ele
 
A batalha cotidiana, nos inclui dos mais severos inimigos
Antes de agonizar na cama, por nossos arrependimentos
Impende elevar o tom quando a angústia do outro exala
O odor das hienas, chacais e demônios a pedir a carniça
Lobos cavando fossos para apanhar tudo o que neles cai
 
E se observar, mesmo distantes, impulsos de destruição
O poeta não pode calar a voz face à desgraça da guerra


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