Tragédia
Porque
torno a te escrever se teus olhos verdes não irão ler
Pois
não se trata de escrever o que fomos tu e eu, certo dia
Fosse
pela tragédia de alguém que contasse alguma história
Mas sou
eu o que amanhece de olhos úmidos a cada manhã
Como me
pesa ter as asas úmidas, como me pesa esta pena
Minha
tragédia, razão do abismo, foi não poder despedir-me
Não
poder como a quem parte, desejar boa ventura, vá bem
Foi
apenas um adeus caprichoso, mas que nem mais importa
Não se
conhece o que há depois da morte, qual sorte d’alma
E
depois que fechastes os olhos, ainda há cor? Ou há rumo?
Aqui a
tragédia decora o quadro e a caminhada fica tortuosa
A
lembrança é uma síntese vermelha, cravos sobre as águas
No
papel manchas negras para ocultar essa dor sem sentido
E
volta-se ao velho livro já lido uma e outra vez e mais vezes
Que
mesmo assim vai murchando qual secam as flores rosas
Na
paisagem crestada que, então, tem orlado minha estrada
Com
remos de palavras venho remando entre ondas escuras
E as
sombras podem se confundir com o alento e com flores
As
flores que se alimentam de lágrimas, sem nunca ter nome
Dos
nomes e nomes que eu disse depois e só chamei o vazio
Por
vezes os poetas inventam palavras e as palavras mentem
Ouvi
teu nome e não estavas quando a morte bateu à porta
A
lembrança é a síntese de tudo, do olfato, do gosto, da pele
É
também da tragédia, o dia seguinte que jamais se quis ver
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