segunda-feira, maio 29

Tragédia

Porque torno a te escrever se teus olhos verdes não irão ler
Pois não se trata de escrever o que fomos tu e eu, certo dia
Fosse pela tragédia de alguém que contasse alguma história
Mas sou eu o que amanhece de olhos úmidos a cada manhã
Como me pesa ter as asas úmidas, como me pesa esta pena
Minha tragédia, razão do abismo, foi não poder despedir-me
Não poder como a quem parte, desejar boa ventura, vá bem
Foi apenas um adeus caprichoso, mas que nem mais importa
 
Não se conhece o que há depois da morte, qual sorte d’alma
E depois que fechastes os olhos, ainda há cor? Ou há rumo?
Aqui a tragédia decora o quadro e a caminhada fica tortuosa
A lembrança é uma síntese vermelha, cravos sobre as águas
No papel manchas negras para ocultar essa dor sem sentido
E volta-se ao velho livro já lido uma e outra vez e mais vezes
Que mesmo assim vai murchando qual secam as flores rosas
Na paisagem crestada que, então, tem orlado minha estrada
 
Com remos de palavras venho remando entre ondas escuras
E as sombras podem se confundir com o alento e com flores
As flores que se alimentam de lágrimas, sem nunca ter nome
Dos nomes e nomes que eu disse depois e só chamei o vazio
Por vezes os poetas inventam palavras e as palavras mentem
Ouvi teu nome e não estavas quando a morte bateu à porta
A lembrança é a síntese de tudo, do olfato, do gosto, da pele
É também da tragédia, o dia seguinte que jamais se quis ver


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