quarta-feira, outubro 7

Lista de Desejos

 Ah, como eu desejara ter podido cantar sob as estrelas
Mas ervas daninhas encobrem a parte estrelada do céu
E o escuro me emudece as palavras como uma mordaça
Então o silêncio invade todos os espaços da madrugada
 
Quisera me desgarrar de certos ícones, falar nas sombras
Ignorar as nuvens cinzentas que carregam frio e chuvas
Porém meus olhos também se fazem nublados e frívolos
Como duas luas fora de órbita a flutuarem pelo espaço
 
Ah, como eu gostaria de poder ser tantas outras coisas
Que este poeta de raízes profundas num solo tão árido
E dizer palavras menos trágicas que floresçam faceiras
Em meio aos silêncios não essenciais e relógios exaustos
 
Quisera que as coisas fossem como elas realmente são
Despidas de máscaras, apólogos que lhes assintam valor
Tenho comigo o caderno onde conspiram poesias cruas
Como um incunábulo destroçado onde deposito versos
 
Ah, como eu gostaria que vissem poesia em coisas simples
Grãos de poeira foliando na fresta de sol que vem da janela
Para irem se assentar visivelmente na mobília à minha volta
Mas o que era alegria, será removido ao passar de pano
 
Um suspiro enfadado lembra que as noites não são fáceis
A vizinha que, detrás das persianas, observa meu quarto
O ar lá fora não move nenhuma folha, tampouco a insônia
A poesia não se escreve sem metáforas, ao prisma da razão

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