Quando escrever é fazer mágica, sou um mago; quando é transformar, sou alquimista; quando for dominar mistérios, sou bruxo. Vim transformar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento soprar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
quinta-feira, novembro 27
domingo, novembro 16
O solitário
O solitário se fazDe areia e chuvaSonhos e adivinhasSecretas palavrasO passado é o queConstrói o futuroDe lembranças eParcas alegoriasSubmerge na noiteOnde se purificaDesafia o relógioAbranda as horasFlerta com a morteDesposa a vidaNa água profundaNo píncaro azulDesconhece a solidãoE o mundo que padeça
sábado, novembro 15
Lampião
No amanhecer da noite entre lençóis
Achego-te lânguida em meus braços
Tua figura envolvente meio
à batalha
Ao pé do ouvido, me confessas amar
Sílaba que tu insinuas discreta e lenta
Na névoa oculta de silentes falsidades
Das cinzas olvidadas em dias passados
Desembainho a espada com um sorriso
E olho-te num quase vingativo silêncio
E assim tu perseveras a me fazer amor
Qual algemas em
sentimentos binários
Teu corpo nu desdobrado no colchão
Lá fora, as sombras permeiam as ruas
Pela noite vazia, nenhum sinal de vida
Neste meu abrigo,
teu calor contagia
Sentimentos e prazeres se confundem
A porta
permaneceu há muito aberta
Longos
caminhos te trouxeram a mim
No amargo da ausência foste lua nova
Ora te derramas em vinho e esperança
E o velho lampião acende a eternidade
sexta-feira, novembro 7
Elétrico
Andava pelas ruasNuma tarde elétricaRelâmpagos ciscamEntre nuvens cinzasOlho as portas fechadasAusências na calçadaDe repente músicaDe um rádio distanteEntre trovões e ventoA soprar folhas caídasLembro olhos meigosQue brilham na janelaMas repentinamenteUm raio tudo silenciaChegando o entardecerUm longo caminhoNem sons, nem olharesForam-se tão brevesPara não mais voltar
quinta-feira, outubro 30
Mergulho
Num tempo antigo vivi o desalento qual estrela cadente
Se agora não tenho mais o mesmo ímpeto da juventude
Meu coração é uma supernova a
devorar a madrugada
A minh’alma desvirginada já não crê em verdades cegas
Meus olhos fitam os
felinos caminhando pelos borques
Vejo a simetria perfeita das pequenas gotas de lágrimas
Os risos já não me comovem o coração, qual um dia foi
O tempo corre como um rio, a
esgueirar entre as pedras
Ainda resta dentro de
mim, uma substância de sombras
Que não se dissipa, se evapora para logo se fazer chuva
A noite, esse abismo de silêncio,
entre gestos
elétricos
Foi assim que aprendi em braile a ortografia dos
corpos
E também a cultuar os beijos pela
linguagem dos
olhares
O comovente rito do tato que produz olhares famintos
O que importa seria descobrir qual é o momento exato
Para se dizer sim ou dizer não para comover o coração
Entro na noite qual o mergulhador
entra no mar revolto
E uma vez submerso, sonho poder acabar com a solidão
quinta-feira, outubro 23
Viagem
A viagem se
inicia com o abrir dos olhos, ao sul do lago
Sinto tua vibração em um tom de púrpura, quase seco
Por um desejo
de sol, abro as asas, vejo abrires as
tuas
Um céu nos é pouco, voamos em espirais sobre o jardim
Assim, conheço
o destino que nos apresenta e nos une
Voltamos a ser crianças tocados pelo branco do silêncio
Antes, quis imaginar-te
no meu sonho, cheia de volúpia
E te aninhavas nos meus braços, com esse olhar fugaz
Meio dia sob o
sol, fiz-me deitar em teus seios rosados
Como duas
ilhas num mar de júbilos aprecio teu corpo
De hermética geografia, vi reflexo do que é eternidade
Sou menino, caçador que descobriu mistérios de sereia
Ouço rumores de nossos corações, de absoluto prazer
Teus lábios junto aos meus, é meu maior
dom literário
O mundo é o sonho fugidio das voltas de minha cabeça
E eu o olho do alto do pedestal
que herdei das trevas
Nesses instantes é tu que és o meu poema, obra prima
Palavra de vida, em névoas azuis, clamo teu
nome, amor
segunda-feira, outubro 13
Rouxinol
Trago em mim todas lembranças da cidade da infância
Agora que o verde das estepes é
apagado pelo outono
Ainda ouvimos, antes da noite, longe, o último lamento
Dos pássaros que reptam as planuras em
suas rasantes
Lá ecoa, alto nesta estação do ano, os rumores do mar
Onde o ar recende ao odor de madeira
e terra molhada
As luzes amarelas das casas nos dão a
sensação de vida
Erguemos a face ao céu para sentir onde troa o trovão
E sem vê-los sei que os lobos correm
pela noite sem luar
Lembro da namorada adolescente, não, nada foi em vão
De passear de mãos dadas por árvores floridas na praça
Será que essa inocência agora está
tão distante de nós?
Há quem diga foram vozes perdidas no ar do entardecer
E que em vão se perscruta o pó em busca de
algo antigo
O rouxinol, ao cantar ao pôr-do-sol, morto caiu do galho
Mas não eu não vejo assim, sei que os dias são preciosos
A última batida deste meu coração
ainda não foi ouvida
Os mortos não têm sede e tenho
em mim a sede de amar