Se escrever é fazer mágica, sou um mago; se for transformar, sou alquimista; se for dominar mistérios, então sou bruxo. Vim transmutar sentimentos em palavras e vice-versa. Os poemas falam de imagens, sentimentos e sonhos. Tudo se passa na vida real ou na surreal. Ao lê-los tenha atenção ao que está oculto nas entrelinhas. Deixe que os versos te levem onde o vento quiser levar. A musa de meus poemas é a vida. Estejam atentos, pois as palavras são metade de quem escreve e metade de quem lê.
segunda-feira, dezembro 29
terça-feira, dezembro 23
A fonte
Esse desassossego, essa palavra
que brota na garganta
E caminha aos
lábios como se quisesse saltar ao mundo
Mas se detém e permanece encarnada em meu silêncio
E o que chamam
de poema, uma amorosa luta pela vida
Que outorgo ao mundo quando
a dor assoma no peito
Raia
irreverente da ponta de minha pena sobre o papel
Há de chegar o
dia que todo esboço afinal amadureça
Sem afãs, mas rigorosamente
antes que a morte vença
Que a palavra
não seja um consolo, antes ecloda no ar
Como um canto,
dessangre, chegue e torne o dia feliz
Que se descerrem as cortinas ao invisível, o impalpável
O poema faz magia em palavras, dia a dia, entusiasmo
Um narciso nascido de mim, contemporâneo, corporal
E as imagens se reflitam no espelho qual
ecos distantes
O amor! Aí está o espelho, sempre perfeito, inapagável
De corpo inteiro, em toda dimensão, exato e mutante
A fonte de todas as palavras, gênese de meus poemas
sexta-feira, dezembro 12
Vertical
Não diga que
escrevo um poema presumidamente vertical
Que não exibo orações
devotas, de bondade e franqueza
Pueril engano de quem acredita que pode decodificá-los
Nada é tão só o que parece e oculta razões inquietantes
Aprendi a falar de dores, decepções e inocência perdida
Escrevo estrofes
isentas de epigramas, plenas de sombras
A metáfora de quem venceu a morte e outros fantasmas
Os protagonistas dos medos cotidianos de
tantos outros
São palavras
graníticas, nascidas de complexas
tormentas
Porém ainda falo de amor, não de avara lascívia da carne
Falo dos esplendores dos olhares, de vertigens eternizadas
Aquilo cuja aclaração, conduz a incertezas ainda maiores
O poema diz dos encontros tão casuais quão improváveis
Pelas
inóspitas voltas do desejo, pelos itinerários da noite
Não escrevo
sobre o trivial, mas o desvario insolente e nu
A sedução que só se consuma com os
perfumes de rosas
Que etéreos e fugazes, deixam para trás apenas espinhos
O crepúsculo se acerca e povoa o dia de signos e sonhos
Nuvens sonambulas desfilam diante da luz pálida do luar
O que seria do
poeta sem as cicatrizes de beijos perdidos
segunda-feira, dezembro 8
Hipnótica
Fecho os olhos
e o negror de teus beijos me hipnotiza
Como se a
noite, em uma onda, se aglutinasse em mim
Um momento intemporal que me sussurras ao ouvido
Excitando
todas minhas moléculas a desafiar a física
Meu menino interior grita silencioso em sua fantasia
Nasci numa cidade distante e seus credos revelados
Um ônibus vermelho
passou antecipado pela esquina
Teus olhos brilhantes a fitar os meus, me despertam
Imagens oníricas destas mãos que percorrem
tua pele
Ignoro que poderias ter vivido inumeráveis destinos
Mas aqui estamos, dedos entrelaçados nesta volúpia
Em que te compartilho arcanos antes inconfessáveis
Qual se o eterno se consumasse num piscar de olhos
Neste minuto que a realidade se
dissolve num abraço
Sob o céu gris
sem estrelas és a minha alfa centauro
Fora da janela,
fulgura o amarelo louco dos girassóis
Uma canção remota,
por que é dezembro, soa no ar
Olho para ti,
tua mística me envolve e quer de novo
Em nossa cálida
intimidade, as noites se apequenam
A ave liberta
regressa breve com o ramo de oliveira
terça-feira, dezembro 2
Rumores
Num dia que parece ter olvidado de
amanhecerO bêbado sujo ainda se põe sentado no meio-fioOs transeuntes o ignoram qual se fosse invisívelO sinal estivera sempre fechado para
os que vãoPenso que choveria lágrimas não
fosse outubroNegros gestos, indiferença, isso já nem
importaO cinzel que ensartou sem terminar
de esculpirA verruma afiada, mas nenhum furo
para fazerE agora? Quão as ferramentas eram
insuspeitasTodos os ruídos como que foram
sequestradosTanto imaginei viver um dia peculiar como
esteE eu, poeta por vocação e ofício, assisto a
tudoNão espero minha obra em exposição no
LouvreFadada ao pó e tédio dos dias comumente iguaisE se agora tenho só as sombras de algum abraçoNos ouvidos ainda me retumba o
rumor de risosE a visão de teu corpo nu tal deusa adormecida
quinta-feira, novembro 27
Amargura
Amargura: a palavra que foi feita para te definir
Isento de
esperança, posto que bem te conheço
Sabes eu vi teu aceno, não cheguei a
acreditar
Tu que foste volúvel no tempo que te
conheci
Nem o fato que viria uma noite fria e solitária
Mudaria a probabilidade d’eu não me aproximar
Tu mulher, que só tinhas olhos para a ambição
Tua torpe postura de serpente, nunca enganou
Ao passar do tempo
adquiri destreza e vi o real
Não o mundo iludido que a imaginação fez criar
Uma existência de névoas, distante da verdade
Eu quis ver unicórnios, onde só haviam
hienas
Quis pensar um eclipse, mas eram nuvens negras
Eu quis acreditar que os contrários
se atraem
Entretanto, agora
sei que nada disso era assim
Pois aprendi com o desassossego que legastes
E a realidade
hoje vive em meus lábios calados
Aprendi a impedir
tempos furiosos e sem amor
Não mais ouvirás minha boca chamar teu nome
Distância! Hoje é tudo que quero te
outorgar
domingo, novembro 16
O solitário
O solitário se fazDe areia e chuvaSonhos e adivinhasSecretas palavrasO passado é o queConstrói o futuroDe lembranças eParcas alegoriasSubmerge na noiteOnde se purificaDesafia o relógioAbranda as horasFlerta com a morteDesposa a vidaNa água profundaNo píncaro azulDesconhece a solidãoE o mundo que padeça
sábado, novembro 15
Lampião
No amanhecer da noite entre lençóis
Achego-te lânguida em meus braços
Tua figura envolvente meio
à batalha
Ao pé do ouvido, me confessas amar
Sílaba que tu insinuas discreta e lenta
Na névoa oculta de silentes falsidades
Das cinzas olvidadas em dias passados
Desembainho a espada com um sorriso
E olho-te num quase vingativo silêncio
E assim tu perseveras a me fazer amor
Qual algemas em
sentimentos binários
Teu corpo nu desdobrado no colchão
Lá fora, as sombras permeiam as ruas
Pela noite vazia, nenhum sinal de vida
Neste meu abrigo,
teu calor contagia
Sentimentos e prazeres se confundem
A porta
permaneceu há muito aberta
Longos
caminhos te trouxeram a mim
No amargo da ausência foste lua nova
Ora te derramas em vinho e esperança
E o velho lampião acende a eternidade
sexta-feira, novembro 7
Elétrico
Andava pelas ruasNuma tarde elétricaRelâmpagos ciscamEntre nuvens cinzasOlho as portas fechadasAusências na calçadaDe repente músicaDe um rádio distanteEntre trovões e ventoA soprar folhas caídasLembro olhos meigosQue brilham na janelaMas repentinamenteUm raio tudo silenciaChegando o entardecerUm longo caminhoNem sons, nem olharesForam-se tão brevesPara não mais voltar
quinta-feira, outubro 30
Mergulho
Num tempo antigo vivi o desalento qual estrela cadente
Se agora não tenho mais o mesmo ímpeto da juventude
Meu coração é uma supernova a
devorar a madrugada
A minh’alma desvirginada já não crê em verdades cegas
Meus olhos fitam os
felinos caminhando pelos borques
Vejo a simetria perfeita das pequenas gotas de lágrimas
Os risos já não me comovem o coração, qual um dia foi
O tempo corre como um rio, a
esgueirar entre as pedras
Ainda resta dentro de
mim, uma substância de sombras
Que não se dissipa, se evapora para logo se fazer chuva
A noite, esse abismo de silêncio,
entre gestos
elétricos
Foi assim que aprendi em braile a ortografia dos
corpos
E também a cultuar os beijos pela
linguagem dos
olhares
O comovente rito do tato que produz olhares famintos
O que importa seria descobrir qual é o momento exato
Para se dizer sim ou dizer não para comover o coração
Entro na noite qual o mergulhador
entra no mar revolto
E uma vez submerso, sonho poder acabar com a solidão
quinta-feira, outubro 23
Viagem
A viagem se
inicia com o abrir dos olhos, ao sul do lago
Sinto tua vibração em um tom de púrpura, quase seco
Por um desejo
de sol, abro as asas, vejo abrires as
tuas
Um céu nos é pouco, voamos em espirais sobre o jardim
Assim, conheço
o destino que nos apresenta e nos une
Voltamos a ser crianças tocados pelo branco do silêncio
Antes, quis imaginar-te
no meu sonho, cheia de volúpia
E te aninhavas nos meus braços, com esse olhar fugaz
Meio dia sob o
sol, fiz-me deitar em teus seios rosados
Como duas
ilhas num mar de júbilos aprecio teu corpo
De hermética geografia, vi reflexo do que é eternidade
Sou menino, caçador que descobriu mistérios de sereia
Ouço rumores de nossos corações, de absoluto prazer
Teus lábios junto aos meus, é meu maior
dom literário
O mundo é o sonho fugidio das voltas de minha cabeça
E eu o olho do alto do pedestal
que herdei das trevas
Nesses instantes é tu que és o meu poema, obra prima
Palavra de vida, em névoas azuis, clamo teu
nome, amor
segunda-feira, outubro 13
Rouxinol
Trago em mim todas lembranças da cidade da infância
Agora que o verde das estepes é
apagado pelo outono
Ainda ouvimos, antes da noite, longe, o último lamento
Dos pássaros que reptam as planuras em
suas rasantes
Lá ecoa, alto nesta estação do ano, os rumores do mar
Onde o ar recende ao odor de madeira
e terra molhada
As luzes amarelas das casas nos dão a
sensação de vida
Erguemos a face ao céu para sentir onde troa o trovão
E sem vê-los sei que os lobos correm
pela noite sem luar
Lembro da namorada adolescente, não, nada foi em vão
De passear de mãos dadas por árvores floridas na praça
Será que essa inocência agora está
tão distante de nós?
Há quem diga foram vozes perdidas no ar do entardecer
E que em vão se perscruta o pó em busca de
algo antigo
O rouxinol, ao cantar ao pôr-do-sol, morto caiu do galho
Mas não eu não vejo assim, sei que os dias são preciosos
A última batida deste meu coração
ainda não foi ouvida
Os mortos não têm sede e tenho
em mim a sede de amar
Na pele da noite
Entre as
nuvens de gris, surge um singelo rasgo de azul
Qual a êxtase de uma flor sobre desertos de concreto
De ventos remotos que vêm a trazer ares de despedida
Nada depende de pretextos, de perguntas e respostas
O sol, alegria dos gestos, se derrama a causar novo dia
Os sentimentos confundem, ébrios de azul e cimento
Mas, há a quem
o céu nunca abriu ou a porta na terra
Lamento por quem só vê pântanos e a palidez do nada
Flores murchas, aves confusas e inertes nuvens cinzas
Essa voz soará errante, até que o tempo
se faça espaço
Na fiel lembrança de tempos
outros e em outras cores
Olho ao longe o éter do olvido a girar em redemoinhos
Breve a tarde
se fundirá na luz de loucos
pensamentos
E pensar que ainda pode haver paz no afã
destes dias
Que um dia aprendamos a viver livres e independentes
Que haja um lugar com amores sutis na seda da
derme
Onde todas feridas convalesçam, sem deixar cicatrizes
O paradoxo de
toda relatividade que cerca nossa
vida
É que só escolhemos o que nos parece mais importante
Tal a estrela que não existe, mas luze na pele da noite
Glória
Não escrevo poemas
para glória
O verso vive de
vestígios de amor
O mirante vive
à beira do abismo
O homem de
barro quer a altura
A
transparência num só impulso
Não quer
reconhecer os sinais
O segredo que
brande a espada
Em direção a
seu peito, se move
Restará uma
mancha de sangue
Na glória, a
palavra do vencedor
No amor, o que
pulsa na ferida
O amor é
lenda, a glória a queda
quarta-feira, outubro 1
Paradoxais Paroxítonas
O quadro vazioNos ensina o medoFalamos de claridadeMas somos sombrasSuplicantesMescladosRostos que vêmRostos que vãoSignos de mistérioVivemos a caçarMas somos a caçaDa noiteDo vinhoCruzo pontesMas queria o abismoLemos a sangue frioEscrevemos poesiaA mulher loiraSe inclinaPara cheirar a flor.
Raiz
Busco a raiz, a fonte geradora para um escrever
justo e novo
Qual será o moto real da força
vital que dizemos que é nossa
O que nos impulsiona e move todos dias quando nasce o sol
Lá fora, além da teia viva da cidade, sob o rigor geométrico
Luz e sombras transitam e iluminam meus versos renascidos
Eu, alheio aos ardis do dia, observo os precipícios
da noite
Ouço passos
femininos pela calçada, sob a janela do quarto
Um perfume
airoso a se espalhar incógnito com a penumbra
Quem será que
se aproxima pelo silencioso império noturno
Minhas mãos tateiam o fecho da janela e
sinto o frio metal
Tranço os dedos e uma visão se faz livre, breve e reticente
Ela vem pela rua, figura entre o transparente e o encantado
Um fulgor único a iluminar a selva de concreto à sua volta
Qual toda uma constelação que pousa diante de meu olhar
Um arco de luz que deixa seu rastro em meio a antiga
treva
Qual uma serpente em azul que, por espanto, se
dirige a mim
Sua branda voz ecoa na madrugada e
desperta a minha alma
Um singelo
cumprimento, breve e aceso qual um relâmpago
Meus olhos
fitam seu sorriso cristalino, lhe faço um aceno
Ela amplia o sorriso e a sigo com o olhar até virar a
esquina
Contudo é o que basta à revoada de minhas aves notívagas
Que partem céleres querendo chegar antes dos
raios de sol
Roman d'Amour Moderne
Ao longe um apeloGrito surdo abafadoQue persisteExpira,Espira,RespiraBusca o infinitoSeu leitoCoração da noiteAbrigoE o silêncioEnormeTenho fomeNão demoreTeus lábiosE essa noiteInsanas trevasComo conseguesConsciênciaConsistênciaCoincidênciaOlhe, podes irNa boca, da noite,eles se beijaramse amaram edisseram adeusSua vidasubitamenteseguiu quaseimperceptível
terça-feira, setembro 30
Aldebarã
Nos meus poemas,
descrevi-me qual pássaro que plana
Sobre as
árvores que propõem histórias sobre homens
Escrevi dos peixes e escamas coloridas que não tatuei
Da areia que construí castelos e um farol à beira-mar
Disse, não do que fiz, mas do que viram estas pupilas
Todos saídos de meus sonhos pelos caminhos da vida
Infinito sonho, oceano de imagens, meu autorretrato
Anotei palavras que não entendia para me entenderem
Voei sobre a selva e sob um céu entre nuvens, tão azul
Juro não foi por intenção, queria tão só ser criança
Que aprende a
ler e descobre um mundo nas palavras
Imaginando o que poderia existir acolá do horizonte
Volte a dormir, a voz me disse, mas eu queria
acordar
Descobrir a imensidão que há
na ponta desta caneta
Seguir cada rota errante, por as cartas sobre a mesa
Crer que nem o sacrifício ou a cicatriz sejam em vão
Que estes rabiscos deitados sobre a folha do destino
São o que me tornaram o pássaro em voo a Aldebarã
Apaixonado, meio
a ventos boreais, cantar o amanhã
E para afrontar
aos incrédulos, ainda, ousar ser feliz
terça-feira, setembro 23
Inocência
Eu ouvi que a vida é breve e é nada mais que um
delírio
Com sua graça de
rosto de mulher sendo apenas destino
Que a loucura nos segue, mordiscando nosso
calcanhar
Que fingimos esperança para escapar da sórdida
morte
Mas eu, amante
e escritor, canto ora amor e ora oblívio
Em forma de poema, um pacto de dor, sussurros e beijos
Com o quê impeço os silêncios, nessas palavras deixadas
Sobre as pedras do caminho, canções
para serem livres
A noite acendo
velas, conecto sentimentos tão íntimos
Reinvento amor
do que seriam solidões quase imêmores
Na sua essência mais imaterial, quase fosse um estigma
Reanimo a volúpia, faço acender um novo elo de
fogo
Acima o céu de um azul profundo, hibrido de estrelas
Adiante o horizonte distante que funde o céu à terra
Ancorado às cinzas da eternidade completo os ciclos
Tento não cair outra vez na amarga ilusão de acreditar
As veias pulsam não por aguardar um dia de juízo final
A buscar no espaço onde haveria um lugar imaginário
Onde nada é
secreto, nem infinito no universo paralelo
O homem vive em seu abandono, ao perder
a inocência