terça-feira, junho 30

Pelas esquinas da noite

 

Pelos espaços da noite, encravados de estrelas cintilantes

Num céu violeta a cidade é uma torre estática, muda, nua

Entre os gemidos e sussurros que vêm não se sabe de onde

Talvez donzelas de entalhada virgindade a cantar cânticos

Em seu cantar estranho parece uma vigília, uma procissão

A vida perdeu um quê da consciência do que a vida já foi

Rostos, rubor e timidez, mares de gente acelerada que vai

As roupas nos varais, bailando aos ventos, esperam o verão

A navegar na brancura das ondas desses mares de sonhos

Impende partir bem antes da chegada de cruas incertezas

Do outono das pétalas caídas, dos pavores do frio futuro

A cada esquina irregular onde vivem os senhores da noite

A olhar a rua com seus olhos negros debruçados na janela

Detrás de suas faces macilentas, estão sempre à espreita

O gato preto mia sobre o muro, ouço passos pela calçada

Amarrei um laço de fita gris pelas ruas desertas da cidade

Marquei tua passagem pelos meus dias para nunca olvidar

Os cabelos esvoaçantes, olhos amendoados e a boca rubi

Teu sorriso e o perfume que me trazia na brisa vespertina

Continuo gravitando na tua ausência nesta órbita amarga

São coisas que tive ouvido, mas finjo não haver escutado

Os dias se amontoam uns sobre outros no calendário azul

Fecho as pálpebras e toda quimera segue o rastro do vento

 

 

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