Pelas esquinas da noite
Pelos espaços da noite, encravados de estrelas cintilantes
Num céu violeta a cidade é uma torre estática, muda, nua
Entre os gemidos e sussurros que vêm não se sabe de onde
Talvez donzelas de entalhada virgindade a cantar cânticos
Em seu cantar estranho parece uma vigília, uma procissão
A vida perdeu um quê da consciência do que a vida já foi
Rostos, rubor e timidez,
mares de gente acelerada que vai
As roupas nos varais, bailando aos ventos, esperam
o verão
A navegar na brancura das ondas desses mares de sonhos
Impende partir bem antes da chegada de cruas incertezas
Do outono das pétalas caídas, dos pavores do frio futuro
A cada esquina irregular onde vivem os senhores da noite
A olhar a rua com seus olhos negros debruçados na janela
Detrás de suas faces macilentas, estão sempre à espreita
O gato preto mia sobre o muro, ouço passos pela calçada
Amarrei um laço de fita gris pelas ruas desertas da cidade
Marquei tua passagem pelos meus dias para nunca olvidar
Os cabelos esvoaçantes, olhos amendoados e a boca rubi
Teu sorriso e o perfume que me trazia na brisa vespertina
Continuo gravitando na tua ausência nesta órbita amarga
São coisas que tive ouvido, mas finjo não haver escutado
Os dias se amontoam uns sobre outros no calendário azul
Fecho as pálpebras e toda quimera segue o rastro do vento
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