quarta-feira, março 6

Ébrios de Deus

Chegas com a luz do dia, no mistério calado de saberes

O tanto sou teu a te espreitar incessante incomparável

O que revelaria teu aparecimento de fim e de princípio

Tu que és substância, absorta do fragmento da estrela

 

Desde o impacto inicial me irradiaste o negro vocábulo

A consciência do “silêncio sonoro” é como eu o nomeio

O mistério de dar-se sem dizer e amar de todo coração

Nesta relação de desprendimento me sacias repentino

 

Quais os argumentos de filha pródiga vens a me povoar

O pulso lúcido colapsando a fonte da noção e procriar

A compreensão global do verbo, nosso pecado original

Uma voz que para decifrar não se cala em seu arbítrio

 

De rosa a rocha, do raio a rio, de riso a rito e do ritmo

Um episódio de realidade, eco vibrante avança a tarde

Fluxos de diálogo me fluem nos lábios, nos olhos ávidos

Povoando plena ligação de nossas histórias longínquas

 

Sua completude, sua nulidade, o sonho para entranhar

Ouço o coração qual madrigal transparente do tempo

Um pulso amoroso e teus cabelos já moveram o mundo

Meu mundo! Vacante, imemorial e outras vezes ameno

 

Vencemos o espaço-tempo, caudal da ignorância crua

Fizemos do reino de cada um, nosso reino de todo um

O sabor da consciência de quem sabe andar no sonho

Ébrios de Deus nos pulsa a veia elemental amor e arte

 

sábado, março 2

A estória não contada

Ias no meu sonho a me cavalgar, a exata trama do absurdo

Como renascida Lady Godiva, emissária da nova primavera 

Delírio nu mesclado de doçura no silêncio da noite escura

A pele alva de teus irreprimíveis seios a me indicar o norte

Para um pomar de frutas perfumadas em seu louro tremor

E eu tal pássaro desgarrado voo num jardim de maravilhas

Ouço concertos de lilases, entre surdos suspiros da terra

Minha esperança concreta em teu abraço feita de violino

O paradoxo da mansa fúria d’um círculo afetuoso de mel

Mil redemoinhos de sangue febril, correm em minhas veias
Sigo teu rastro pela noite, unidos até irromper a alvorada
Meu bem, meu martírio, minha performance sem aplausos

Porta de confins que não se fecha, andança de minh’alma

Rosa-mulher que é flor mais ardente, mais tênue e sincera

Regressa em branco, melancolicamente, palavra e espinho

Ao final, desperto heroico, imortal a estória não contada