Habitei as margens d’um rio distante desses do centro
Canalizados, retificados,
regrados. Não os desse tipo
Vivi entre rios letárgicos que se esgueiram nas
pedras
Sob os eucaliptos
perfumados onde cantam os sabiás
Arrastando os
fragmentos do que resta sob os luares
Uma lembrança
prateada nos meus olhos ainda brilha
A som de tais madrigais, caço inspiração aos poemas
Pois das matas e
dos pássaros quase nada ainda resta
Na ponta de minha
caneta desenho corredeiras azuis
Palavras desenfreadas, teses e antíteses e muito além
Pois existir é coisa de extremos, nada morno, insonso
Tampouco
homogêneo, opto pelas miragens violáceas
Coleciono as palavras abandonadas em outras bocas
Que quase todos os ouvidos se recusariam a ouvi-las
Como queria o verde onde simples fábulas
prosperam
Que depois da chuva às cinco, o sol ainda reapareça
Emoldurando o chilreio dos pássaros ao entardecer
Nos grandes
centros está a antítese do que é
perene
Os rios negros de betume onde se deslocam veículos
Com seus gases tóxicos
fazem toda terra aquecer-se
Isolando-nos do contato com a
terra, roubam a brisa
Devolve-nos ares calcinados, favorecem desenlaces
Há um silêncio escondido nas entranhas do planeta
Mas não se iluda, luzes violentas atravessam os céus
Tal no tempo que grandes lagartos
habitavam a terra
Sem ações nada restará, nenhum regato entre trigais
Lego este poema a quem acredite pode fazer melhor
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