segunda-feira, julho 20

Lamento D'uma Cidade Agonizante

 

Habitei as margens d’um rio distante desses do centro

Canalizados, retificados, regrados. Não os desse tipo

Vivi entre rios letárgicos que se esgueiram nas pedras

Sob os eucaliptos perfumados onde cantam os sabiás

Arrastando os fragmentos do que resta sob os luares

Uma lembrança prateada nos meus olhos ainda brilha

A som de tais madrigais, caço inspiração aos poemas

Pois das matas e dos pássaros quase nada ainda resta

Na ponta de minha caneta desenho corredeiras azuis

Palavras desenfreadas, teses e antíteses e muito além

Pois existir é coisa de extremos, nada morno, insonso

Tampouco homogêneo, opto pelas miragens violáceas

Coleciono as palavras abandonadas em outras bocas

Que quase todos os ouvidos se recusariam a ouvi-las

Como queria o verde onde simples fábulas prosperam

Que depois da chuva às cinco, o sol ainda reapareça

Emoldurando o chilreio dos pássaros ao entardecer

Nos grandes centros está a antítese do que é perene

Os rios negros de betume onde se deslocam veículos

Com seus gases tóxicos fazem toda terra aquecer-se

Isolando-nos do contato com a terra, roubam a brisa

Devolve-nos ares calcinados, favorecem desenlaces

Há um silêncio escondido nas entranhas do planeta

Mas não se iluda, luzes violentas atravessam os céus
Tal no tempo que grandes lagartos habitavam a terra

Sem ações nada restará, nenhum regato entre trigais

Lego este poema a quem acredite pode fazer melhor




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