terça-feira, julho 28

Faço Meu Rumo do Sol

Não, as nuvens não são de algodão, alguém diz

Nem o papel onde registro o poema se faz vela

Que olvides os barquinhos de dobras, digo-lhe

Nada é como já foi um dia. A inocência partiu

Por mais que os poemas enfunem o meu velejar

E minh’alma singre as sonoras estrofes da vida

Hoje complicaram a vida abandonando fantasias

Será que te lembras um primeiro beijo roubado

O sino dominical imprimia uma última badalada

Hoje seriam assédio ou perturbação de sossego

E os cumulus de carneirinhos ao sabor da brisa

Cruzavam o manto celeste quão pacificamente

Ora gravosos vórtices das alterações climáticas

Tempestades que, impiedosas, a tudo destroem

Quem ainda recita os versos em alegres saraus?

Quem conta passos ou cores de lajotas do chão

Não sobra mais tempo para todas essas tolices

O poema resiste, mesmo sem prateados cálices

Simplesmente frugal e absolutamente imaterial

Qual um inverossímil arquipélago de resistência

Absolutamente sutil e simplesmente indomável

Um brusco tropel que invade as linhas do papel

Sim tudo mudou, não o poema oriundo da noite

E na chegada da manhã faz nuvens de algodão

Onde o poeta desenha seu próprio rumo do sol


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