sábado, fevereiro 10

Impressões

Sempre surgistes em mim em meio ao sonho

Um manancial de incerteza perguntas ao ar

Sem respostas, apenas encontros fortuitos

Quem precisaria de qualquer resposta tola

Se há a claridade de teu sorriso, tal jardim

Que floresce em mim, que por ele renasço

Pelo abraço mais profundo e mais secreto

Que trespassa cada fragmento de meu ser

Lembranças arraigadas que me assombram

E que me iluminam escondidas na memória

Vens a mim caminhando em passos rápidos

O teu olhar que me fita, dispensa palavras

Ouço chegares qual o rumor de um regato

Que ecoa entre os silêncios da madrugada

Sei que não é ao acaso, nem foi inventado

É como se deixasse o sonho fingir ser real

Quando o dia vem e as imagens evanescem

Resta no ar o teu perfume doce de jasmim

E teus beijos deixam um frisson nos lábios

Certo que no sonho seguinte, nele estarás

 

quinta-feira, fevereiro 8

Eco da Terra

Nasço todas as noites nas luzes naufragadas em águas límpidas

Nesta terra amarga de lamentos, dezembro não é mais tão vivo

A noite avança e a lua se perde lenta em seu reflexo nos canais

Escondi meu velho coração detrás de muros que eu fiz erguer

Para ter a certeza que já estás demasiadamente longe de tudo

Que não mais te verei nas planuras onde soprou o nosso vento

Que balançava os cachos de teus cabelos e as flores do campo

Afastei-me de todos amigos para ficar só, somente recordar-te

Afinal, estás mais longe que a lua que nasce, mas te sinto aqui

No ar o cheiro verde do musgo e sobre as pedras ecoa o trotar

Dos cavalos selvagens, com longas crinas oblíquas tremulantes

O vento esmaece os vestígios de seus cascos deixadas no areal

Sou uma alma antiga, eivada de rancores cinzentos mal digestos

Deito as sílabas por folhas despenhadas sobre a relva do prado

Onde germinam os poemas desenraizados das sombras lúgubres

Nesta minha vida provisória, sou sobrevivente, sou eco da terra

 

A besta

Na espera das ilusões reconhecidas, que o vento da tarde resume

Admiro todas as frases que um dia os poemas já ousaram conter

Ouço o caminhar do passo desigual do fauno de contos de fadas

Que com seus olhos afiados exibe a proposta criada em porções

Na noite de lua cheia, o crepitar da parca vela e o sonho alheado

Inertes, se revelam no tempo e acolhem tantas palavras eviternas

À borda da lápide fria, silenciosa e abstrata, qual presa a se agitar
Como um tolo inseto atordoado que procurou a fatal luz brilhante

Duas letras separam a sala da cela, recriando frio e mortal delírio

Onde cairemos nas teias de um par de quadris de ritmo ondulante
A besta disfarçada de anjo que se apresenta irrecusável ao incauto
Ela o deixará paralisado e indefeso com seu doce olhar insaciável

Avança silenciosa e misteriosa, munida de uma astúcia irracional

E convidará à dança proibida neste perturbado mundo cru e irreal

Permitindo que tudo possa ser como nunca nada foi, ontem e hoje

É meu conselho, nesta liberdade a que me atrevo, evites o abismo

Pois lembra-te: as palavras são somente um adereço sem proveito

Quando pronunciadas sem lastro do coração, fonte da lei primeva

Os espíritos rudes não terão assento à margem do cálice supremo

Só restarão as disposições do coração quando a sombra precipitar

Seja o pó amargo, mas sempre haverá linimento, para tantas dores

Violando o silêncio grasnam pássaros selvagens alçados ao vento