Sempre surgistes em mim em meio
ao sonho
Um manancial de incerteza
perguntas ao ar
Sem respostas, apenas
encontros fortuitos
Quem precisaria de qualquer
resposta tola
Se há a claridade de teu
sorriso, tal jardim
Que floresce em mim, que
por ele renasço
Pelo abraço mais profundo e
mais secreto
Que trespassa cada fragmento
de meu ser
Lembranças arraigadas que
me assombram
E que me iluminam
escondidas na memória
Vens a mim caminhando em
passos rápidos
O teu olhar que me fita,
dispensa palavras
Ouço chegares qual o rumor de um regato
Que ecoa entre os silêncios
da madrugada
Sei que não é ao acaso, nem
foi inventado
É como se deixasse o sonho fingir
ser real
Quando
o dia vem e as imagens evanescem
Resta
no ar o teu perfume doce de jasmim
E teus
beijos deixam um frisson nos lábios
Certo
que no sonho seguinte, nele estarás
Nasço todas as
noites nas luzes naufragadas em águas límpidas
Nesta terra amarga de lamentos, dezembro não é mais tão
vivo
A noite avança
e a lua se perde lenta em seu reflexo nos canais
Escondi meu velho coração detrás de muros que eu fiz
erguer
Para ter a certeza que já estás demasiadamente longe
de tudo
Que não mais te verei nas planuras onde soprou o
nosso vento
Que balançava
os cachos de teus cabelos e as flores do campo
Afastei-me de
todos amigos para ficar só, somente recordar-te
Afinal, estás mais longe que a lua que nasce, mas te
sinto aqui
No ar o cheiro
verde do musgo e sobre as pedras ecoa o trotar
Dos cavalos
selvagens, com longas crinas oblíquas tremulantes
O vento
esmaece os vestígios de seus cascos deixadas no areal
Sou uma alma
antiga, eivada de rancores cinzentos mal digestos
Deito as
sílabas por folhas despenhadas sobre a relva do prado
Onde germinam
os poemas desenraizados das sombras lúgubres
Nesta minha
vida provisória, sou sobrevivente, sou eco da terra
Na espera das
ilusões reconhecidas, que o vento da tarde resume
Admiro
todas as frases que um dia os poemas já ousaram conter
Ouço o caminhar do
passo desigual do fauno de contos de fadas
Que
com seus olhos afiados exibe a proposta criada em porções
Na noite de lua
cheia, o crepitar da parca vela e o sonho alheado
Inertes, se revelam no
tempo e acolhem tantas palavras eviternas
À borda da lápide
fria, silenciosa e abstrata, qual presa a se agitar
Como um tolo inseto atordoado que procurou a fatal luz brilhante
Duas letras separam
a sala da cela, recriando frio e mortal delírio
Onde cairemos nas
teias de um par de quadris de ritmo ondulante
A besta disfarçada de anjo que se apresenta
irrecusável ao incauto
Ela o deixará paralisado e indefeso
com seu doce olhar insaciável
Avança
silenciosa e misteriosa, munida de uma astúcia irracional
E convidará à dança
proibida neste perturbado mundo cru e irreal
Permitindo que tudo
possa ser como nunca nada foi, ontem e hoje
É
meu conselho, nesta liberdade a que me atrevo, evites o abismo
Pois
lembra-te: as palavras são somente um adereço sem proveito
Quando
pronunciadas sem lastro do coração, fonte da lei primeva
Os espíritos rudes não terão assento à margem do cálice
supremo
Só restarão as
disposições do coração quando a sombra precipitar
Seja
o pó amargo, mas sempre haverá linimento, para tantas dores
Violando
o silêncio grasnam pássaros selvagens alçados ao vento